“Bem, Pedro, afinal tens queda por mulheres com curvas.” disse João, rindo-se e deixando Ana humilhada à mesa

Histórias
Comentários cruéis e condescendentes destruíram minha confiança.

— Ana, se fosse a ti não punha essa travessa no prato. Tem salada com maionese. Para ti não é lá muito recomendável — comentou João, sem sequer levantar os olhos da carne que virava na grelha. E ainda se riu.

Éramos doze à mesa. A varanda de verão da nossa casa estava cheia. Havia espetadas que eu começara a preparar logo de manhã, numa marinada que demorei três anos a aperfeiçoar. A salada, já agora, também tinha sido feita por mim.

Há sete anos que ele era assim. Desde o primeiro dia em que Pedro o levou para me conhecer. João mediu-me de alto a baixo, assobiou baixinho e atirou: “Bem, Pedro, afinal tens queda por mulheres com curvas.” Na altura sorri. Achei que era uma piada. De mau gosto, sim, mas ainda assim uma piada.

Enganei-me.

Pedro e eu casámo-nos há oito anos. Eu tinha quarenta; ele, trinta e oito. Para ambos era o segundo casamento. Ele trabalhava como engenheiro num gabinete de projetos. Eu, por essa altura, já tinha aberto a segunda loja da minha rede de pastelarias, a “Doce Ofício”. Minha. Criada do zero, sem empréstimos, sem dinheiro de família. Durante três anos, cada euro que entrava voltava para o negócio. Quando nos casámos, eram duas lojas. Hoje são cinco.

João era amigo de Pedro desde a primária. Cresceram juntos, foram juntos para a tropa, todos os outubros iam à pesca os dois. Para Pedro, João era quase um irmão. Eu percebia isso. Foi por isso que aguentei tanta coisa calada.

João tinha uma agência de publicidade, a “Brisa Media”. Faziam logótipos, embalagens, campanhas digitais, redes sociais. Para ser honesta, trabalhavam bem. Só havia um detalhe que ele desconhecia. Seis anos antes, eu precisei de contratar uma empresa para renovar a imagem da minha marca: novo estilo para toda a rede, embalagens, menus, letreiros. A minha gerente, Catarina, apresentou-me três propostas. Uma delas era da “Brisa Media”. Tinham o melhor preço e os prazos mais razoáveis. Assinei o contrato através da empresa, a “Confeitaria Plus, Lda.”. Catarina ficou como pessoa de contacto. Durante seis anos, João prestou serviços à minha firma sem fazer a menor ideia de que quem lhe pagava era a mulher do seu melhor amigo.

Quarenta e oito mil euros por ano. Esse era o orçamento anual que eu destinava à agência dele. Menus, campanhas sazonais, decoração de novas lojas, gestão das redes. Todos os meses, quatro mil euros entravam na conta deles com uma pontualidade quase mecânica.

Pedro sabia. Pedi-lhe que não dissesse nada a João. Eu não queria misturar amizade com negócios. E Pedro guardou segredo.

João, entretanto, continuava com as suas “graças”.

Naquela noite, na varanda, coloquei a última travessa na mesa — legumes assados — e sentei-me ao lado de Pedro. João já servia o vinho. Maria, a mulher dele, estava à minha frente, de olhos baixos, fixos no prato. Ela fazia sempre isso quando o marido começava.

— Ana, podias ao menos emagrecer para o verão — disse João, estendendo-lhe um copo. — Ainda usas fato de banho? Ou escondes-te atrás de uma canga?

Fez-se silêncio. Alguém tossiu, sem jeito. Pedro pousou a mão no meu joelho. Era o gesto de sempre. “Aguenta. Ele não faz por mal.”

Peguei no copo e encarei João.

— João, sabes que a tua agência ainda não acabou de pagar o crédito do escritório? — perguntei, com a mesma calma com que se comenta a previsão do tempo.

Eu sabia porque Catarina, certa vez, mencionara que eles tinham atrasado a entrega de uns modelos e justificado a demora com problemas relacionados com a renda.

O sorriso dele vacilou. Só por um instante. Depois riu-se.

— Como é que sabes isso do meu escritório? — rodou o vinho dentro do copo. — Foi o Pedro que contou? Bem, meu irmão, assim não vale.

Pedro não respondeu.

Bebi o resto do vinho. João mudou de assunto: futebol, férias, o carro novo. O repertório habitual. E eu pensei: está bem. Não é a primeira vez. Sobrevivo a mais esta.

Mais tarde, quando todos se foram embora, fiquei na cozinha a lavar a loiça. Pedro aproximou-se por trás e abraçou-me.

— Desculpa-o. Ele é mesmo assim.

— Eu sei muito bem como ele é — respondi. — Mas “ele é mesmo assim” não é uma desculpa.

Pedro beijou-me a nuca e foi deitar-se. Eu continuei parada junto ao lava-loiça. A água quente corria-me pelas mãos, mas eu já nem sentia calor. Só cansaço. Sete anos das mesmas piadas. Sete anos das mesmas desculpas de Pedro. Sete anos do mesmo silêncio à volta da mesa.

Um mês depois, João telefonou. Convidou-nos para o aniversário dele. Fazia quarenta e dois anos.

Preparei um bolo. Talvez tenha sido uma estupidez. Mas eu sou pasteleira. Fiz três andares, cobertura de chocolate e decoração em caramelo. Seis horas de trabalho. Suspiros à parte, recheio à parte, enfeites à parte. O bolo pesava quase quatro quilos.

Pedro levou a caixa até ao carro com todo o cuidado, como se transportasse uma criança.

— Está lindo — disse ele. — O João vai ficar de boca aberta.

E ficou. Só que não da maneira que imaginávamos.

Havia vinte convidados. A festa era num restaurante que João tinha reservado para aquela noite.

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