“Fui eu que a pus fora” — disse João com um sorriso torto, e o meu pai mostrou no telemóvel algo que anulou o triunfo de Maria

Histórias
Vergonha e crueldade selaram aquela mesa vazia.

— E a minha filha, porque é que não está sentada à mesa? — perguntou o meu pai, mal entrou no nosso apartamento, carregado de presentes.

A mesa quase cedia sob as travessas de saladas que eu preparara desde as seis da manhã. A árvore de Natal brilhava na sala. Só eu é que não tinha lugar ali.

— Fui eu que a pus fora — respondeu João, com um sorriso torto. — A minha mãe não a suporta.

A sogra, Maria, estava sentada ao lado dele, com ar de quem acabara de ganhar uma batalha. Nem sequer se levantou para cumprimentar o meu pai. Ele, que sempre fora um homem discreto e sereno, tirou o telemóvel do bolso sem dizer uma palavra. O que fez no minuto seguinte apagou para sempre aquele sorriso do rosto de Maria.

Tudo começara dois dias antes, na manhã de 29 de dezembro. Acordei com empurrões insistentes no ombro. João abanava-me, exigindo que me levantasse imediatamente para irmos para a estação. A mãe dele, Maria, tinha decidido vir do interior passar o Ano Novo connosco e, segundo o meu marido, enquanto enfiava a camisola à pressa, uma nora decente devia receber a sogra pessoalmente.

Olhei para o relógio: sete e meia da manhã. Lá fora ainda era noite fechada, e o comboio só chegava às nove e meia.

— João, não chegamos lá em meia hora sem problema? — tentei apelar ao bom senso.

Mas ele já corria de um lado para o outro pela casa, a juntar coisas com uma solenidade ridícula, como se não fosse buscar a própria mãe, mas o ministro das Finanças em pessoa.

Quarenta minutos depois, estávamos presos no trânsito de fim de ano, a avançar aos solavancos pela Marginal. Mais uma vez, dei por mim a reparar na forma como João falava da mãe: com uma reverência quase sagrada, como se Maria pertencesse a uma espécie superior. Em três anos de casamento, eu já a conhecia de sobra: cinquenta e seis anos, economista numa empresa de construção, piscina duas vezes por semana, viagens regulares à Turquia e, sempre que lhe convinha, queixas dramáticas sobre a saúde frágil.

Na plataforma, Maria apareceu com uma expressão solene, como se regressasse de uma missão espacial, mediu-me de alto a baixo e limitou-se a inclinar a cabeça, com uma cortesia gelada.

O olhar dela ainda se demorou no meu rosto cansado, como quem regista uma falha para usar mais tarde. João, entretanto, lançou-se logo ao pescoço da mãe, esquecido de que tinha uma mulher ao lado. A mim couberam as duas malas enormes cheias de “produtos caseiros” trazidos do interior, como se, na nossa cidade, os supermercados tivessem desaparecido de um dia para o outro.

No carro, a hierarquia habitual instalou-se sem esforço. Maria ocupou o lugar da frente com a solenidade de uma rainha em visita oficial; eu fiquei atrás, entre sacos e embrulhos. Mal ela murmurou que entrava ar pela janela entreaberta, João ligou o aquecimento no máximo.

— Meu filho, sabes bem que a minha saúde não é de ferro — suspirou ela.

Mentalmente, fiz a primeira anotação. A carta da fragilidade já tinha sido lançada antes sequer de chegarmos a casa.

O nosso apartamento na margem esquerda, um T3 amplo com vista para o rio, recebeu-a com cheiro a bolo acabado de sair do forno e a pinheiro. Eu passara a véspera inteira a limpar, esfregara tudo até brilhar, mas Maria percorreu as divisões com ar de inspetora sanitária. Passou um dedo pelo varão das cortinas e, num tom quase cerimonial, anunciou que havia pó. João, nessa altura, já se tinha deixado cair no sofá com o telemóvel na mão, fingindo uma surdez muito conveniente.

— Ana, por que é que estas cortinas estão tão deslavadas? E o chão range em alguns sítios. Antigamente, uma dona de casa sabia cuidar do lar como devia.

Instalou-se depois na cozinha, escolhendo o banco junto à janela como posto de comando. Dali conseguia vigiar cada gesto meu. Enquanto preparava o almoço sob aquele olhar permanente, senti-me um animal de laboratório. Nada escapava: eu não cortava o frango da maneira certa, os tomates eram aguados, o pimento estava em quantidade exagerada. Quando comecei a fatiar os pepinos para a salada, ouvi atrás de mim um suspiro pesado.

— A nora da minha vizinha Catarina, essa sim, é uma joia. Cozinha de tal maneira que ninguém consegue parar de comer, e a casa dela está sempre impecável.

— Não falo de arrumação por alto — continuou ela, como se ainda não tivesse rematado a comparação. — Aquilo parece uma casa de exposição. E com a Catarina entende-se como se fosse filha dela, trata-a quase como a própria mãe.

Mordi a língua e concentrei-me nos legumes, para não responder o que me subia à garganta. João permanecia na sala, firme no seu papel de homem subitamente surdo. Durante o almoço, Maria retomou a sua longa análise das noras existentes neste mundo e no outro; de cada exemplo que dava, resultava sempre a mesma conclusão: eu ficava em último lugar, sem hipótese de defesa. Assim que a sobremesa acabou, refugiei-me na cozinha com a desculpa da loiça. Encostada ao lava-loiça, fechei os olhos por um instante e imaginei-a já dentro do comboio de regresso. Catorze dias, repeti para mim. Apenas catorze. Qualquer pessoa sobrevivia a isso.

Na manhã seguinte, 30 de dezembro, acordei com o bater seco da porta do frigorífico. Maria estava a fazer uma inspeção aos mantimentos, como se tivesse sido nomeada chefe de armazém. Quando entrei na cozinha, encontrei-a com o meu caderno nas mãos, aberto na página onde eu escrevera: “Menu da Passagem de Ano”.

— Ana, que rabisco é este que tu chamas de menu? Salada Olivier, arenque em camadas, salada grega… Mas isto parece comida de cantina! Onde está a gelatina de carne? E a carne em aspic? E um porco assado caseiro como deve ser?

Pegou numa caneta e começou a riscar, com energia quase agressiva, tudo o que eu tinha planeado, substituindo os pratos pelos dela.

— Maria, eu já comprei os ingredientes para estas receitas — tentei explicar, mantendo a voz calma.

Ela afastou a minha objeção com um gesto impaciente, como quem enxota um mosquito.

— Salada grega na noite de Ano Novo? Mas que moda é essa? O teu peru sai já da lista: fazemos ganso com maçãs. A gelatina de carne é obrigatória. Rissóis e pastéis, no mínimo de três variedades. E nada de caviar comprado; fazemos nós mesma a pasta de beringela.

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