“Pega no dinheiro, veste outra roupa e foge pela porta das traseiras. Agora mesmo.” murmurou o sogro, trancando a porta e entregando-lhe oito mil euros

Histórias
Escolha corajosa, decisiva e inevitavelmente correta.

Na noite do casamento, o sogro trancou a porta, tirou oito mil euros e murmurou: «Pega no dinheiro, veste outra roupa e foge pela porta das traseiras. Agora mesmo.»
— António, o que se passa?
— Não há tempo para explicar. Corre, menina. Corre.

Eles já chegaram. Quem eram «eles»? Mariana não fazia ideia, mas obedeceu. E foi essa obediência que lhe salvou a vida.

Os últimos convidados partiram perto da meia-noite. Só então Mariana ficou sozinha no quarto do segundo andar e deixou-se cair na beira da cama, com as pernas a latejar depois de oito horas equilibrada em saltos altos. Ricardo tinha descido para acompanhar uns parentes à saída e demorava-se. Do piso inferior chegavam vozes abafadas, gargalhadas já cansadas e portas a bater.

O vestido de noiva, bordado a missangas, repousava sobre a poltrona como uma nuvem branca. Já de penhoar de seda, Mariana fitava o próprio reflexo no antigo toucador, cujo espelho escurecido parecia guardar segredos, tentando convencer-se de que tudo aquilo agora também era dela: a casa nos arredores de Coimbra, o banquete luxuoso para cem pessoas, a aliança dourada no dedo anelar.

O estalido da fechadura fê-la voltar-se com um sorriso, certa de que veria Ricardo. Mas, no vão da porta, estava o sogro. António Silva, sessenta e dois anos, homem pesado, têmporas grisalhas, mãos grandes de quem passara a vida habituado ao trabalho duro.

Ele entrou, fechou a porta atrás de si e rodou a chave por dentro. Mariana, num gesto instintivo, agarrou o robe pendurado na cadeira e apertou-o contra o peito.

— António… aconteceu alguma coisa?

Ele não respondeu de imediato. Avançou até à secretária junto da janela e atirou para cima dela o primeiro maço de dinheiro.

preso por um elástico de banco. Logo a seguir veio outro, depois mais outro. Ao todo, oito maços ficaram espalhados numa pilha torta sobre a secretária. Só então o sogro se voltou para Mariana, com um olhar tão duro e sombrio que ela sentiu um arrepio subir-lhe pela espinha.

— Veste-te — ordenou ele, em voz baixa. Mas havia naquele tom a urgência de quem fala a alguém à beira de um precipício. — Calças de ganga, casaco, sapatilhas. Está tudo no armário, na prateleira de baixo. Depressa.

— Eu não estou a perceber…

— Não há tempo para explicações. — António aproximou-se da janela, afastou a cortina apenas um dedo e ficou a perscrutar a escuridão do jardim. — Leva o dinheiro. Os documentos estão na mala, em cima da cadeira. Vais sair pela porta das traseiras, atravessas a horta e segues até ao portão do fundo. Estão à tua espera.

Do lado de fora chegou um ruído abafado: pneus a esmagarem o cascalho, motores a roncarem. Não era um carro. Eram vários. António recuou da janela, e Mariana reparou na tensão que lhe endurecia o maxilar.

— Quem é? Onde está o Ricardo?

— Corre, menina. Corre. — Disse-o de tal maneira que ela engoliu o resto da pergunta. — Eles já chegaram. Se não fizeres exatamente o que eu te digo, ainda esta noite morres nesta casa. Acreditas em mim?

Mariana fixou-lhe os olhos, cinzentos-claros como os de Ricardo, agora riscados de vermelho, e viu neles algo que tornou o seu próprio pavor pequeno, quase insignificante, diante do medo daquele homem envelhecido.

— Não por mim… por ela. Acredito — murmurou.

Largou o robe no chão e correu para o armário. As calças serviam-lhe; o casaco ficava-lhe largo, como se tivesse pertencido a outro corpo, cheirando a tabaco e óleo de motor. Enfiou os pés nas sapatilhas, sem sequer apertar os atacadores.

Pegou à pressa numa mala de tecido, quase sem peso, e, ao meter a mão lá dentro, sentiu o passaporte e alguns papéis amarrotados. Só então se voltou para o sogro, como se apenas naquele instante se lembrasse de que ele também estava ali.

— E o senhor?

— Eu fico — respondeu António, sem hesitação.

A frase saiu-lhe seca, definitiva. Antes que Mariana pudesse protestar, ele entreabriu a porta e espreitou para o corredor, atento ao menor ruído. Durante alguns segundos, ficou imóvel, a escutar a casa adormecida ou fingidamente silenciosa.

— Vem atrás de mim. Sem falar. E pisa com cuidado, para a madeira não ranger.

Desceram pela escada de serviço, a mesma por onde, horas antes, tinham passado criadas, empregados e caixas de provisões durante os preparativos da boda. Agora, cada degrau parecia denunciar-lhes a fuga. Mariana apertava a mala contra o peito e prendia a respiração sempre que uma tábua gemia sob os seus pés.

Lá em baixo, António conduziu-a até uma arrecadação escura. O ar ali cheirava a maçãs guardadas, terra húmida e tábuas antigas. Tateando no escuro com uma segurança de quem conhecia cada canto, afastou um pesado saco de batatas e revelou uma portinhola baixa, quase escondida na parede. Ao abri-la, entrou uma lufada fria. Do outro lado distinguiam-se, na penumbra, a estufa e as linhas direitas dos canteiros.

— Segue sempre em frente — ordenou ele, baixinho. — Não vires para lado nenhum. Depois da vedação há um caminho de terra e, mais além, o campo. Está lá um homem com um carro. Chama-se Paulo. Ele leva-te para um sítio seguro.

Mariana agarrou-o pela manga. Os dedos tremiam-lhe tanto que mal conseguia segurá-lo.

— António… diga-me a verdade. O que se passa? Quem são aquelas pessoas? E onde está o Ricardo?

A parte fornecida contém apenas elementos de página web — títulos de outros artigos, categorias e ligações internas — e não inclui continuação narrativa da história.
Por isso, conforme os requisitos, esses elementos devem ser omitidos e o texto deve parar no último trecho narrativo válido já tratado.

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