“Ana, manda-me já uma captura da tua conta bancária” exigiu Teresa num tom seco e mandão, a sogra a transformar a chamada numa auditoria financeira familiar

Histórias
A calma aconchegante era preciosa, a exigência intolerável.

— Ana, transfere-me ainda hoje o teu ordenado. Já me informei de tudo, deve chegar certinho.

Sentei-me diante dela, enquanto dentro de mim se acendia aquela atenção seca e metódica que eu reservava para casos duvidosos. Nunca fui de discutir por espetáculo, nem de levantar a voz para ganhar razão. Prefiro deixar que os factos façam o trabalho sujo.

— Que procedimento é esse, exatamente? — perguntei, fixando-a nos olhos, que não paravam quietos. — Qual é o diagnóstico? A senhora sabe perfeitamente qual é a minha profissão. Sou médica. Mostre-me o relatório, os exames, a história clínica. Eu própria vejo a prescrição. Se houver mesmo necessidade, trato de a encaminhar, pelos meus contactos, para os melhores especialistas da cidade, sem que tenha de pagar um cêntimo.

Teresa percorreu com o olhar os armários da cozinha, como se procurasse ali uma resposta já pronta. Era evidente que não esperava uma abordagem tão concreta, tão fria e tão pouco inclinada a lágrimas.

— Ai, tu também não percebes nada com esses teus hospitais! — soltou ela, agitando a mão. — Essas consultas gratuitas, essas listas, essas comparticipações… Uma pessoa entra lá e sai pior, e ainda ninguém lhe pergunta o nome! Eu preciso é para amanhã! É… é um desequilíbrio energético do organismo. O especialista explicou-me que, para recuperar a imunidade e estabilizar a tensão, tenho de usar urgentemente metais preciosos adequados e pedras raras à altura da cabeça. É medicina antiga, comprovada cientificamente por professores!

João, que até ali escutara a mãe em silêncio, fechou devagar a tampa do portátil. O olhar dele escureceu, tornando-se pesado e cortante.

Eu limitei-me a sorrir de lado, com um prazer quase sincero perante aquele teatrinho barato de província.

— Pedras adequadas à altura da cabeça? Teresa, digo-lhe isto como médica: nos lóbulos das orelhas não existem pontos mágicos da longevidade. Há tecido adiposo, cartilagem e uma rede de capilares. E a única tensão que os diamantes aumentam é a arterial das suas vizinhas invejosas. Leu isso num daqueles jornais gratuitos que deixam no correio, ou foi a sua grande amiga Carolina que finalmente lhe veio esfregar as novidades na cara?

A minha sogra ficou vermelha como palha seca encostada a um fósforo. O plano genial que ela devia ter cozinhado em noites mal dormidas abriu uma fenda enorme bem à nossa frente.

A questão era simples: a tal amiga, Carolina, tinha fama no bairro inteiro de ser uma artista da vigarice. Era daquelas mulheres cujo talento principal consistia em fabricar intrigas a partir do nada e viver confortavelmente à custa de ingénuos. Ainda poucos dias antes, essa senhora andara a exibir a Teresa uns brincos magníficos, gabando-se sem vergonha de os ter arrancado à nora com manobras muito bem calculadas.

— E o que é que a Carolina tem a ver com isto?! — indignou-se Teresa, deixando a voz subir para um guincho que a denunciava por completo. — Sim, a Carolina tem filhos atenciosos, compraram-lhe uns brincos de brilhantes lindíssimos! E olha que as maleitas dela desapareceram logo, como por milagre! Já o meu próprio filho só pensa em pagar paredes de betão e esqueceu-se da mãe que o pôs no mundo! Criei-vos, perdi noites, dei tudo o que tinha, e agora vocês fazem contas por uns trocos!

Quando percebeu que a compaixão não estava a produzir efeito, Teresa mudou de estratégia com uma rapidez quase teatral. A raiva que lhe crispava o rosto dissolveu-se num carinho açucarado, pegajoso, tão falso que chegava a dar arrepios. Decidiu, ao que parecia, abençoar-me contra a minha vontade.

— Aninha, minha querida menina — cantarolou ela, com uma doçura arrastada que fazia ranger os dentes. — Eu não estou a pedir este dinheiro por capricho, nem por egoísmo. Olha que ontem estive no notário. Decidi passar a nossa casa de campo em Tomar inteirinha para o teu nome. O João é homem, não quer saber de canteiros nem de estufas, mas tu és uma mulher de casa, séria, cuidadosa. Hoje transferes-me o ordenado para o tratamento e, para a semana, vamos tratar dos papéis da propriedade. Ficas dona de pleno direito daquela quinta!

Por pouco não me ri em voz alta. Então era isso. A isca clássica da Carolina, a aldrabona. Prometer mundos e fundos, fazer a vítima abrir a carteira e depois, como era de esperar, mostrar-lhe um belo manguito, alegando que “os documentos se perderam” ou que “a tensão subiu e agora não dá jeito nenhum ir ao notário”.

O tio Manuel soltou um resmungo sonoro, bebeu com evidente satisfação um gole do chá forte e, olhando para a escuridão para lá da janela, comentou pensativo:

— Sabe, Teresa, isso fez-me lembrar uma história antiga dos tempos em que eu trabalhava numa frota automóvel.

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