Por fim, levantou-se sem dizer palavra, foi até à cozinha, encheu um copo de água e bebeu-o de um só trago, como se tivesse a garganta em fogo.
— Eu vou falar com ela — disse, finalmente.
— Tu falas com ela há sete anos — respondi, exausta. — E nunca muda nada.
João olhou para mim de uma maneira diferente, com uma atenção que eu já nem me lembrava de receber.
— Ana — murmurou —, perdoa-me.
Não consegui responder. Limitei-me a ir para o quarto, fechei a porta e, pela primeira vez desde que nos tínhamos casado, rodei a chave na fechadura.
Na manhã seguinte, dia trinta de dezembro, Teresa apareceu às nove em ponto. Vinha carregada de sacos, caixas e aquela expressão de quem entra em casa alheia convencida de que sabe melhor do que todos como o mundo deve funcionar.
— Bom dia, Ana — cantou, passando por mim no corredor. — Credo, que pó é este? Eu bem digo que isto tem de ser limpo todos os dias!
Sem dizer nada, tirei-lhe os sacos das mãos. Pesavam imenso. Num deles vinha a sua famosa salada russa, preparada, segundo ela, “como deve ser”; no outro, garrafas de champanhe “daquele bom”, o único que, nas suas palavras, “se serve em casas decentes”.
Pedro correu para receber a avó, mas, ao reparar na minha cara, travou de repente e ficou mais calado.
— Avó, vamos esperar pelo Pai Natal? — perguntou, baixinho.
— Claro, meu amor — respondeu Teresa, inclinando-se para lhe beijar o alto da cabeça. — Mas antes a avó tem de pôr isto tudo em ordem. Porque a tua mãe… enfim, tu percebes.
Pousei os sacos no chão.
— Teresa — disse eu, com a voz firme —, é melhor deixarmos uma coisa muito clara. De uma vez por todas.
Ela endireitou-se devagar e mediu-me de alto a baixo.
— O que é que queres dizer com isso?
— Quero dizer que esta é a minha casa. A minha família. O meu filho. E, se voltar a permitir-se fazer um único comentário ofensivo sobre mim — um só —, nunca mais atravessa esta porta. Nem no Ano Novo, nem em aniversários, nem na Páscoa. Nunca mais.
Nos olhos dela brilhou uma coisa dura, quase ameaçadora.
— Estás a ameaçar-me?
— Estou a avisá-la — respondi. — Uma vez. A última.
Ela já abria a boca para ripostar quando João apareceu. Trazia uma camisola de estar por casa e o telemóvel na mão. Mas o que me prendeu não foi isso. Foi o olhar dele. Havia ali qualquer coisa que eu nunca tinha visto antes.
— Mãe — disse, baixo —, venha falar comigo.
Os dois entraram na cozinha. A porta fechou-se atrás deles. Fiquei no corredor com Pedro, que me puxava a manga com os dedos pequeninos.
— Mãe, porque é que estão todos zangados?
Apertei-o contra mim.
— Porque, às vezes, os adultos esquecem-se de ser bons uns para os outros.
Da cozinha chegavam vozes. Primeiro altas. Depois mais contidas. Depois quase sussurradas. E, por fim, silêncio.
Vinte minutos mais tarde, João saiu sozinho. Estava pálido, com os lábios apertados.
— Ana — disse —, desculpa. A sério. Desculpa. Eu… eu não fazia ideia de que isto tinha chegado a este ponto.
— Fazias — respondi, sem levantar a voz. — Só preferias fingir que não vias.
Ele baixou a cabeça e assentiu, lentamente.
— Eu vou corrigir isto. Prometo.
— Como? — perguntei. — O que é que podes fazer? Ela é tua mãe.
— É minha mãe — confirmou ele. — Mas tu és a minha mulher. E eu escolho-te a ti.
Fiquei a olhar para ele durante muito tempo. E, pela primeira vez em anos, quis acreditar.
O resto do dia trinta passou envolto numa tensão estranha. Teresa circulava pela casa como uma sombra: calada, de costas direitas, mas já sem aquele desfile habitual de ordens e reparos. Eu cozinhei, arrumei, preparei Pedro e ajudei-o a vestir o fato de coelhinho. João ajudou também. Sem grandes palavras, mas ajudou.
À noite, quando estávamos a deitar o nosso filho, ele aproximou-se de mim e perguntou:
— Ana, amanhã deixas-me resolver isto? Resolver mesmo?
— De que maneira? — perguntei outra vez.
Ele esboçou um sorriso triste, mas sincero.
— Vais ver.
E eu vi.
No dia trinta e um de dezembro, às oito da noite, a nossa casa estava cheia. Vieram as amigas de Teresa do teatro, todas de vestidos elegantes, penteados impecáveis e joias cintilantes. Vieram os nossos amigos. Alguns vizinhos. Até a minha mãe veio de outra cidade — João tinha-a convidado às escondidas, sem dizer nada a ninguém.
A mesa estava farta. A árvore de Natal brilhava num canto da sala. Pedro, vestido de coelhinho, corria entre os convidados, radiante com os elogios que todos lhe faziam.
Teresa ocupava o lugar de sempre à cabeceira, instalada como uma rainha no seu trono. Sorria, fazia piadas, enchia taças de champanhe e parecia convencida de que tudo continuava exatamente como antes.
Então João levantou-se.
— Meus amigos — disse, num tom suficientemente alto para atravessar a sala —, tenho uma pequena surpresa.
As conversas morreram uma a uma. Todos se viraram para ele. João tirou o telemóvel do bolso, pousou o dedo no ecrã e carregou.
E, no silêncio absoluto da nossa sala, começou a ouvir-se a gravação com a voz de Teresa, a mesma voz do dia anterior.
