Por isso, aceitava participar em projetos internacionais, inscrevia-se em formações fora de horas e aprendia programas novos sempre que percebia que isso a podia fazer crescer.
O ordenado dela era bastante superior ao do marido.
Mas Ana nunca fez disso uma arma.
Nunca lhe esfregou esse facto na cara.
Nunca o diminuiu por ganhar menos.
Nunca pronunciou aquela frase que poderia feri-lo:
— Eu ganho mais do que tu.
Pelo contrário.
Sempre tentou estar do lado dele.
Quando João decidiu comprar uma mota, foi Ana quem contribuiu com uma parte importante do valor. Quando precisou de dinheiro para arranjar o carro, foi ela quem mexeu nas próprias poupanças. Quando ele ficou quase seis meses sem emprego, foi o salário dela que segurou a casa, as contas, a comida, a vida de ambos.
Ana não via nisso nenhum sacrifício heroico.
Para ela, aquilo chamava-se amor.
Só que João, com o passar do tempo, começou a olhar para o sucesso da mulher como se fosse uma humilhação pessoal.
Primeiro vieram as piadas, ditas com um sorriso fingido.
— Claro, a senhora doutora sabe sempre tudo melhor do que os outros.
Depois, as críticas tornaram-se mais diretas.
— Passas tempo a mais no trabalho.
A seguir, chegaram as exigências.
— Uma mulher como deve ser chega a casa antes do marido.
Mais tarde, começaram as proibições.
— Não vás jantar com as tuas amigas.
— Não te metas nessas aulas de ioga.
— Não fiques no escritório até tarde.
E, de cada vez, Ana cedia.
Só um pouco.
Só para não discutir.
Só para manter a casa em silêncio.
Só para não ter de ouvir acusações, suspiros e frases cheias de veneno.
Nem percebeu em que momento começou a desaparecer dentro da própria vida.
Deixou de combinar encontros com amigos.
Recusou viagens que antes a entusiasmaram.
Guardou os vestidos de que mais gostava e passou a escolher roupa discreta, quase apagada.
Começou a justificar-se por tudo.
Perante o próprio marido.
Perante o homem que, no início, lhe dizia com orgulho:
— Gosto de ti por seres forte.
Mas há homens que só admiram mulheres fortes enquanto essa força não os incomoda. Enquanto elas são úteis, convenientes, controláveis. No instante em que começam a viver segundo a própria vontade, a independência delas deixa de parecer virtude e passa a ser afronta.
— Então, como é que uma esposa normal se deve comportar? — perguntou Ana.
A voz saiu-lhe instável.
Não era medo.
Era dor.
João soltou uma risada curta, seca.
— O jantar deve estar feito. A casa deve estar arrumada. E a mulher deve estar ao lado do marido, não sempre a correr atrás das amiguinhas.
Ana ficou a observá-lo em silêncio.
Cada palavra parecia cair dentro dela como uma pedra pesada.
Seria possível que, durante todos aqueles anos, ele nunca a tivesse visto de verdade?
Que, para ele, ela fosse apenas alguém encarregue de servir, organizar, pagar, calar e obedecer?
Não uma companheira.
Não uma mulher amada.
Não uma amiga.
Apenas uma função dentro da casa.
— Esse dinheiro era meu — disse ela, por fim.
— Não — cortou João, num tom duro. — Era dinheiro da família.
Ana respirou fundo, sentindo que algo dentro de si se partia de vez.
— Então porque não me pediste autorização?
