“Finalmente apareces, menina da noite” disse Maria com desdém enquanto Ana guardava as compras e João continuava a jogar consola

Histórias
Inaceitável indiferença doméstica rasga o silêncio.

A noite de sexta-feira prometia ser tranquila. Ana vinha para casa mais tarde do que era habitual, carregada de sacos pesados, onde tilintavam garrafas de azeite e frascos de tomate italiano. Depois do trabalho, tinha feito questão de passar pelo mercado para comprar carne de vaca decente e ervas frescas. Num dos sacos trazia ainda uma surpresa para João: uma garrafa de malbec de coleção, daquelas que ele andava há meses a tentar encontrar. Ana imaginara que, talvez, uma noite calma, com um copo de vinho bom, lhes desse finalmente espaço para conversar. Conversar a sério.

A chave rodou na fechadura. Assim que abriu a porta, o apartamento recebeu-a com um cheiro agressivo a óleo queimado e cebola frita. No hall, como se estivesse à espera dela para a julgar, encontrava-se Maria, a sogra. Tinha as mãos fincadas na cintura e os lábios apertados numa linha dura.

— Finalmente apareces, menina da noite. O jantar passou do ponto, os hambúrgueres ficaram como sola de sapato. Uma mulher de jeito tem sempre a mesa posta a horas. Mas tu andas por aí sabe-se lá onde.

Ana tirou o casaco em silêncio e pendurou-o no cabide. Os sacos puxavam-lhe os braços para baixo.

— Estive a trabalhar, Maria. A reunião prolongou-se.

— Conheço bem essas tuas reuniões. No meu tempo, as mulheres também trabalhavam, mas ainda assim faziam o almoço, recebiam o marido e mantinham a casa em ordem. E tu? Andas obcecada com a carreira, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.

Ana seguiu para a cozinha, decidida a não responder. Em cima do fogão, de facto, havia uma frigideira com pedaços castanho-escuros e ressequidos — em tempos, talvez, hambúrgueres. Ao lado, uma panela de sopa já fria. Ana começou a arrumar as compras, a guardar os produtos nas prateleiras e a lavar a loiça que se acumulava desde manhã.

Maria sentou-se à mesa, apoiou a face na mão e ficou a observá-la com ar de inspetora. Da sala chegavam sons abafados de tiros e explosões: João estava a jogar consola. Nem sequer se levantara para a cumprimentar.

— Ana — disse a sogra, agora com uma voz melosa, quase carinhosa, e precisamente por isso ainda mais desagradável. — O João precisa de três mil euros para a startup. Só temos uma semana. O investidor está pronto, percebes? E tu vives como se nadasses em dinheiro.

Ana ficou imóvel diante do lava-loiça. Depois pousou a esponja, limpou lentamente as mãos a um pano e voltou-se para ela.

— Ontem transferi-lhe quinhentos euros para divulgação. Antes disso, paguei-lhe o curso de programação. Que história é essa dos três mil euros?

— Que história? Dinheiro normal, minha querida! — Maria levantou os braços, indignada. — Será assim tão difícil de entender? O orçamento de uma família é comum. Ou tens pena de gastar dinheiro com o teu marido? És capaz de nos tirar a camisa do corpo, mas todos os dias compras café na rua. Para um projeto da família, já te custa. És uma parasita ao contrário, é isso que tu és.

Ana apertou os maxilares. Lembrou-se do pequeno cappuccino de dois euros que comprara nessa manhã no café junto ao escritório. O único momento agradável do dia. E aquele cappuccino vinha-lhe sendo atirado à cara havia dois meses.

— Mãe, deixa-a — ouviu-se a voz de João, vinda da sala. Nem se deu ao trabalho de sair do sofá. — Ana, sinceramente, estás cada vez mais agarrada ao dinheiro. Antes não eras assim. Antes acreditavas em mim.

Ana foi até ao corredor, de onde conseguia ver a sala. João estava deitado, com as pernas por cima do braço do sofá, sem desviar os olhos da televisão. No ecrã, monstros corriam entre rajadas de metralhadora e estrondos. Trinta e quatro anos. Um homem de trinta e quatro anos.

— João, podemos falar sem a tua mãe? — pediu ela, em voz baixa.

— Falar às escondidas para quê? — meteu-se logo Maria, surgindo à porta da cozinha. — Agora tens segredos para mim? Eu vivo aqui, caso te tenhas esquecido. Também pus a alma nesta casa. E os meus nervos. E as minhas poupanças. Mas tu tratas-me a mim e ao meu filho como se fôssemos estranhos.

Ana virou-se devagar. A alma e as poupanças. Mil euros para as obras, entregues pela sogra três anos antes. Mil euros de que ninguém, naquela casa, se esquecera um único dia. E, no entanto, a remodelação custara mais de quinze mil euros, pagos cêntimo por cêntimo por Ana. Tal como a entrada para o empréstimo da casa. Tal como as prestações do próprio empréstimo.

Maria fitava-a com aquela expressão de ofensa justa que tanto gostava de usar. Depois olhou para o filho e falou como se Ana nem estivesse presente:

— Ela nunca vai ser uma esposa de verdade. Só pensa nela. Mas não faz mal, eu ainda a ponho no sítio. Agora o apartamento é nosso, acabou-se. Não tem para onde ir.

Ana não respondeu. Foi para o quarto, fechou a porta atrás de si, sentou-se na cama e ficou durante muito tempo a olhar para a mala cheia de documentos do trabalho. Por fim, tirou o portátil e abriu a aplicação do banco. Quinze mil euros numa conta-poupança. A almofada de segurança que juntara ao longo dos últimos três anos. João não fazia ideia de que aquele dinheiro existia. Maria, muito menos.

Ana fechou o portátil e deitou-se. O sono, porém, não veio.

Na escuridão, recordou o princípio de tudo. Cinco anos antes, a avó, a única pessoa verdadeiramente próxima que tivera, deixara-lhe uma herança de cinco mil euros. João sugerira que usassem esse dinheiro para a entrada da casa e garantira que também tinha algumas economias. Mas, quando chegou a altura de assinar o contrato, o dinheiro dele “desaparecera”: tinha sido investido num “projeto revolucionário”. O apartamento ficou em nome de Ana. O empréstimo também. Na altura, Maria limitara-se a dizer: “Então paga tu, já que és tão independente. Não arrastes o meu filho para dívidas.”

E Ana pagou. Mês após mês. Trezentos e cinquenta euros. Água, luz, gás, comida, produtos de limpeza, medicamentos quando alguém adoecia, roupa, eletrodomésticos — tudo caía sobre os seus ombros. João, de tempos a tempos, pedia dinheiro emprestado para as suas ideias de negócio, e esse dinheiro nunca voltava. Maria não trabalhava havia anos, vivia de uma pensão mínima, mas continuava a dar lições à nora sobre “como uma mulher deve viver”. E Ana suportava. Porque amava. Porque acreditava que a família era o mais importante. Porque a própria mãe bebera e a deixara ao cuidado da avó, e Ana jurara a si mesma que teria uma vida diferente. Uma família diferente.

A família que conseguiu foi exatamente aquela.

No domingo, Maria encenou um almoço exemplar. Pôs na mesa o velho serviço herdado da avó, fez empadas e bolos, e instalou-se à cabeceira como uma imperatriz satisfeita com o seu pequeno reino. João estava sentado com ar ausente, a remexer a comida no prato com o garfo.

— Ana, queres mais um bocadinho de sopa? — cantarolou a sogra. — Estás tão magrinha. Esse trabalho dá cabo de ti. Já estava na altura de pensares na tua alma, na maternidade. O relógio não espera. Dás-nos um netinho, vais de licença, e o João assume finalmente o papel de homem da casa. Vai ganhar dinheiro. E tu ficas no lar, ao lado do teu marido, protegida como deve ser.

Ana levantou os olhos do prato.

— E vamos viver de quê enquanto ele assume esse papel? O empréstimo da casa está em meu nome. Quem o paga?

Maria contraiu os lábios, contrariada, e limpou a boca ao guardanapo.

— Deus dá o filho e dá o sustento. Não contradigas os mais velhos. A maternidade é o teu verdadeiro destino, não é passares a vida enterrada em papéis.

— É desses papéis, Maria, que vem o meu salário. E a prestação da casa. E o crédito do frigorífico. E, já agora, os ingredientes para as suas empadas.

João pareceu acordar dos próprios pensamentos e ergueu a cabeça.

— Ana, a sério, tu estás sempre a ver tudo pelo lado negativo. É só uma prestação. Quando eu fizer o negócio arrancar, pagamos tudo de uma vez. Dá-me tempo.

— Que tempo, João? Há três anos que me pedes tempo. Não tens um único projeto a funcionar. Nunca pagaste sequer uma fatura da casa.

— Pronto, lá começamos nós outra vez. — João empurrou o prato para a frente. — A minha mãe tem razão. Tu vives com uma calculadora dentro da cabeça.

Maria assentiu, satisfeita. Ana sentiu uma náusea subir-lhe à garganta. Afastou a cadeira e levantou-se.

— Obrigada pelo almoço. Vou deitar-me um pouco. Estou com dor de cabeça.

Ao anoitecer, João entrou no quarto. Ana estava sentada com um livro aberto nas mãos, fingindo ler. Ele sentou-se na beira da cama e tentou pegar-lhe na mão. Ela retirou os dedos.

— Ana, não vamos discutir. A minha mãe esforça-se por nós.

— Por nós? Ela devora-me viva.

— Ela é boa pessoa. Só quer que as coisas sejam feitas como deve ser.

— Como deve ser é eu trabalhar que nem uma burra, tu ficares estendido no sofá e a tua mãe chamar-me parasita?

João fez uma careta, desconfortável.

— Não foi isso que ela quis dizer. Tu é que interpretas tudo mal.

— Então explica-me. Explica-me isso.

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