A partir desse momento, qualquer conversa seria feita através de advogado. E Maria, se voltasse a mexer nas coisas dela, Ana apresentaria queixa por furto. Os extratos bancários eram informação privada, sigilo dela, não material para bisbilhotice familiar. Além disso, estava tudo registado. Inclusive a promessa de lhe destruírem a vida.
Nessa noite, Ana foi para a varanda.
A cidade dormia lá em baixo, salpicada de janelas amarelas. Ao longe, a estrada deixava escapar um rumor contínuo, abafado, como se o mundo respirasse por detrás dos prédios. Enrolada numa manta velha, Ana ficou imóvel, a olhar para a mala que, seis meses antes, tinha preparado às escondidas e guardado na arrecadação.
Era a mala da fuga.
Dentro estavam documentos, algum dinheiro, duas mudas de roupa interior, carregador, cópias de papéis importantes. Na altura, imaginara que, num dia qualquer, quando já não aguentasse mais, sairia de casa a meio da noite sem fazer barulho, como uma ladra dentro da própria vida. Agora, porém, compreendia outra coisa: não precisava de fugir. Precisava de ficar. E de resistir até ao fim.
Voltou ao quarto, abriu o portátil e escreveu ao advogado que conhecia. Vinte minutos depois, recebeu resposta.
“Envie-me os documentos do imóvel e a gravação das ameaças. Legalmente, tem direito a exigir a saída de quem não é proprietário. A sua sogra não tem qualquer título para permanecer aí. O seu marido também não é dono, apenas reside na morada. Com as ameaças dela e a passividade dele, há base bastante favorável.”
Na semana seguinte, instalou-se uma calma venenosa.
Maria e João comportaram-se como se a discussão nunca tivesse acontecido. O escândalo parecia ter desaparecido, evaporado entre as paredes. Todas as manhãs havia pequeno-almoço na mesa, a roupa surgia dobrada com esmero e a casa brilhava com uma limpeza quase teatral. Maria deixou de lançar farpas diretas. Em vez disso, ligava a televisão em programas antigos sobre “valores familiares” sempre que Ana passava por perto, e comentava em voz alta, para que o filho ouvisse.
— Estás a ver, João? Isto é que era uma mulher a sério. Adorava o marido, esquecia-se de si própria, dedicava-lhe a vida inteira. E, por isso, era respeitada. Agora? Agora só querem pôr os homens na rua. Egoístas, é o que são, Deus me perdoe.
João abanava a cabeça, concordando sem grande convicção, e olhava de lado para a mulher.
Ana punha os auscultadores e seguia com a sua vida. Não precisava de ouvir. Já tinha percebido a nova manobra. Como não tinham conseguido assustá-la, nem amolecê-la com falsa doçura, tentavam agora desgastá-la devagar, por baixo da pele, com comentários indiretos e encenações de vítima.
Entretanto, o advogado enviou-lhe a minuta da ação: pedido de afastamento e cessação da permanência de João na casa, por impossibilidade de convivência, com as gravações anexadas. Quanto a Maria, nem era necessário “retirá-la” de documento nenhum. Ela simplesmente não tinha direito algum sobre aquela habitação. No dia marcado, bastaria chamar a polícia se se recusasse a sair.
Ao quinto dia, Ana voltou do trabalho mais cedo.
A reunião da tarde fora cancelada e, em vez de chegar às oito, entrou em casa pouco depois das quatro. Tirou os sapatos no corredor e avançou pelo tapete sem fazer ruído. A porta da sala estava fechada. Lá dentro, ouviam-se vozes. Ana parou.
— És um parvo — sibilava Maria, num tom baixo e cortante. — Ela põe-te fora pelo tribunal e nós ficamos sem nada. Isto tem de ser feito com cabeça.
— E o que é que queres que eu faça? — perguntou João, cansado.
— Agora recuas. Fazes-te de arrependido. Enches-lhe os ouvidos com conversa de amor. Ela que engravide. Quando tiver o bebé, vai para casa, fica fraca, dependente, sem forças para se impor. Com uma criança, já não vai a lado nenhum. Depois apertamo-la pela proteção de menores: dizemos que ela anda nervosa, que nos agride, que não está bem da cabeça. No divórcio metemos a criança ao barulho, exigimos partes, quotas, o que for. E, quando chegar a altura, eu entro como avó, fico com a minha posição garantida. Vais ver se ela não acaba por nos entregar as chaves de mão beijada.
Ana gelou.
O coração bateu-lhe primeiro na garganta, depois pareceu cair-lhe no estômago. Ela estava a ouvir aquilo. Com os próprios ouvidos. Não era uma ameaça dita no calor do momento. Era um plano. Frio. Pensado. Uma estratégia completa para lhe arrasarem a vida.
— Mãe, isso é… pesado — murmurou João. — Ela ainda é minha mulher.
— Queres viver numa caixa de cartão? — ripostou Maria. — Ela não nos trata como gente. Então agora paga. E mete uma coisa nessa cabeça: numa guerra, vale tudo.
Ana afastou-se da porta em bicos de pés, entrou no quarto e fechou-a com cuidado. Tremia tanto que mal conseguia segurar no telemóvel. Sentou-se na beira da cama, desbloqueou o ecrã e abriu as definições da aplicação de gravação que usava nas reuniões de trabalho. O programa gravava som mesmo em segundo plano. Deixou o telemóvel no quarto, em funcionamento, respirou fundo uma vez, outra, e voltou ao corredor.
Desta vez, bateu a porta de entrada com força.
— Cheguei!
Na sala, as vozes calaram-se de imediato.
Passado um minuto, a porta abriu-se e Maria apareceu, deslizando para fora com um sorriso meloso, quase maternal.
— Ana, querida, não estávamos nada à tua espera tão cedo! Ainda bem que vieste. Eu ia pôr o jantar a andar. Fica connosco, tomamos um chazinho, conversamos.
Ana olhou para aquele sorriso, para aqueles olhos adocicados atrás dos quais se escondia cálculo puro. E sorriu também.
— Obrigada, Maria. Com todo o gosto.
Nessa noite, quando João adormeceu na sala — agora dormia no sofá —, Ana foi buscar o telemóvel ao quarto. A gravação ficara comprida, quase uma hora e meia. Procurou o trecho certo e ouviu-o uma vez. Depois outra. E ainda uma terceira, para ter a certeza de que não havia engano.
Em seguida, copiou o ficheiro para uma pen, enviou-o para a nuvem e guardou outra cópia num segundo dispositivo. Agora tinha uma arma. Não uma ameaça. Não uma suspeita. Uma prova.
O último dia da semana chegou cinzento e banal.
Lá fora caía uma chuva miúda, persistente, e o céu estava coberto por nuvens baixas. Ana acordou às sete, bebeu café sem açúcar e vestiu-se como se fosse para uma reunião importante: fato discreto, cabelo apanhado, maquilhagem quase inexistente. Sabia que naquele dia tudo se resolveria. Queria parecer exatamente como se sentia por dentro: firme, lúcida, impossível de empurrar para um canto.
João ainda dormia. Da cozinha vinha cheiro a crepes; Maria preparava o pequeno-almoço enquanto cantarolava qualquer coisa com ar de cântico religioso. Tudo parecia cenário de uma família tranquila. A diferença era que aquilo já não era uma família. Era um campo de batalha cuidadosamente arrumado.
Ao meio-dia, chegou o reforço de Maria.
A tia Teresa, irmã mais velha da sogra, entrou no apartamento como um navio de guerra a aproximar-se do porto: grande, ruidosa, convicta de que vinha restaurar a ordem numa casa alheia. Ana abriu-lhe a porta e recebeu logo uma rajada de acusações.
— Então és tu a desgraçada que quer pôr uma mulher de idade na rua? A mãe do teu marido? Não tens vergonha na cara? Eu e a Maria crescemos juntas, ouviste? Não a deixo ser pisada por uma miúda sem coração. Onde é que está a tua consciência, rapariga?
João surgiu logo a seguir com um ramo ridículo na mão: três cravos murchos, comprados à pressa no quiosque mais próximo. Tentou beijar Ana na face, mas ela desviou-se.
— Ana, deixa-te disto — murmurou ele, aproximando-se. — Já chega de guerra. Vamos resolver a bem, com testemunhas. A mãe é impulsiva, mas passa-lhe depressa. Eu falei com ela. Ela está disposta a esquecer. Só tens de esquecer também e pôr o dinheiro de volta na família.
— Na família — repetiu Ana, saboreando a palavra como se fosse amarga.
E entrou na sala.
Maria já estava instalada no papel de mártir. Olhos avermelhados, lenço apertado entre os dedos, boca comprimida num sofrimento ensaiado.
— Não faz mal, Teresa. Nós havemos de aguentar. Deus há de julgá-la. Nós saímos em paz, se a consciência dela deixar.
Tia Teresa virou-se para Ana, fincando as mãos nas ancas.
— Então? Que tens tu a dizer, menina sem vergonha?
Ana manteve-se direita. Falou com a mesma clareza com que apresentaria um relatório numa reunião.
— Maria. João. Vou fazer-vos uma última proposta de paz. Diante de uma testemunha. Admitam que me caluniaram e comprometam-se a sair até amanhã, sem escândalo. Se fizerem isso, não apresento queixa.
Maria ergueu as mãos ao céu com teatralidade.
— Ouviste, Teresa? Está a ameaçar-me! Vai apresentar queixa! Porquê? Por termos cuidado dela? Por lhe darmos comida? Por mantermos esta casa? Ela é que escondia dinheiro como uma parasita e ainda se faz de vítima!
— Foram vocês que escolheram este caminho — interrompeu Ana.
Tirou o telemóvel do bolso, abriu a aplicação e carregou no ficheiro. Em segundos, o aparelho ligou-se à televisão por Bluetooth. No ecrã grande surgiu o ícone de um áudio.
Teresa franziu os olhos.
— Que vem a ser isto?
— Ouçam — disse Ana. — Ouçam todos.
E a sala encheu-se com a voz de Maria. A mesma voz áspera, escorregadia, venenosa.
— “Ela que engravide. Quando tiver o bebé, vai para casa, fica fraca, dependente, sem forças para se impor. Com uma criança, já não vai a lado nenhum. Depois apertamo-la pela proteção de menores: dizemos que ela anda nervosa, que nos agride, que não está bem da cabeça. No divórcio metemos a criança ao barulho, exigimos partes, quotas, o que for. E, quando chegar a altura, eu entro como avó, fico com a minha posição garantida. Vais ver se ela não acaba por nos entregar as chaves de mão beijada.”
O silêncio caiu como uma pancada seca.
O copo de licor que tia Teresa segurava escapou-lhe dos dedos e partiu-se no chão de madeira com um estalo. Maria ficou imóvel, de boca aberta, transformada por instantes numa estátua de gesso. João perdeu a cor; logo depois, manchas vermelhas subiram-lhe pelo rosto.
— Isso está fora de contexto! — gritou ele. — Isso não fui eu! Eu não disse isso! Eu fiquei calado! Não concordei!
— Mas também não se opôs — corrigiu Ana.
