— O que é que tu queres, afinal? — conseguiu João dizer, com a voz presa na garganta.
Ana olhou-o sem pressa. Já não havia tremor nas mãos, nem aquela necessidade antiga de justificar cada palavra.
— O divórcio — respondeu, simples. — E a minha parte em dinheiro. Quinze mil euros. Podem vender o carro, aquele que, por acaso, eu também te ajudei a escolher. Ou podes pedir emprestado à tua mãe. Isso é contigo. Dou-vos um mês para reunirem a quantia. Depois disso, avanço para tribunal.
Levantou-se, deixando sobre a mesa a chávena de chá intacta.
Já perto da saída, virou-se uma última vez.
— E há mais uma coisa. As minhas caixas que estão na cave. Amanhã, às dez da manhã, apareço com uma equipa de mudanças. Se encontrar um único livro estragado, junto danos morais ao processo.
Depois saiu do café sem olhar para trás.
Um mês mais tarde, o divórcio estava concluído. João, empurrado pela mãe, ainda tentou primeiro negociar, depois intimidar, e por fim chegou mesmo a chorar ao telefone. Mas Ana manteve-se firme. Não recebeu os quinze mil euros que exigira inicialmente, mas conseguiu doze mil, o que, para um acordo extrajudicial, já era uma vitória considerável.
Com esse dinheiro, deu entrada para uma pequena casa num prédio recente. Era um T0 luminoso, modesto, mas seu, com uma janela enorme voltada para o jardim. Não havia sogra a mandar, nem marido sem coluna vertebral a encolher os ombros, nem regras impostas por gente que nunca a tinha tratado como família.
No dia da mudança, enquanto distribuía os livros pelas estantes novas, a campainha tocou. Quando abriu, encontrou no patamar uma senhora de idade, de olhos doces, segurando um prato coberto com um pano.
— Boa tarde! Sou a Helena, moro aqui ao lado. Trouxe-lhe um bolo. Para lhe desejar as boas-vindas à casa nova.
Ana sorriu, surpreendida pelo gesto, e recebeu o prato de onde vinha um aroma quente a massa acabada de cozer.
— Muito obrigada. Que simpatia. Entre, por favor. Acabei de pôr água ao lume para o chá.
Sentaram-se as duas entre caixas vazias, livros empilhados e móveis ainda por ajustar. Beberam chá, provaram o bolo e conversaram como se se conhecessem há mais tempo. Helena contou que tinha sido professora, que vivia naquele prédio há anos e que, às quintas-feiras, no jardim em frente, havia uma pequena banda filarmónica a tocar ao fim da tarde.
A certa altura, a vizinha perguntou, com cuidado:
— Mudou-se sozinha?
Ana pousou a chávena no pires.
— Sim. Sozinha. Divorciei-me há pouco tempo.
Helena suspirou, sem saber bem que expressão escolher.
— Então devo dar-lhe os meus sentimentos… ou os parabéns?
Ana pensou por um instante. Depois deixou escapar um sorriso tranquilo.
— Acho que pode dar-me os parabéns. Foi a decisão certa.
À noite, quando Helena já se tinha despedido e a última caixa finalmente ficara vazia, Ana sentou-se no sofá. Era o mesmo sofá que comprara com o primeiro ordenado, aquele que a sogra quisera mandar fora por o considerar “antiquado”. Passou a mão pelo tecido gasto e olhou pela janela, onde as luzes da cidade começavam a acender-se.
Durante três anos, tentara caber numa família que nunca lhe abrira verdadeiramente espaço. Durante três anos, engolira palavras, cedera, esperara, dobrara-se para não partir. Depois bastara uma semana para tudo ruir. Ou talvez não tivesse ruído. Talvez se tivesse finalmente libertado.
Recordou a frase de Maria, dita com desprezo: “Vais ficar sozinha. Quem é que vai querer alguém como tu?”
Ana sorriu.
Ela queria-se a si própria. E, naquele momento, isso bastava.
O telemóvel vibrou. Era uma mensagem de João: “Ana, a minha mãe adoeceu. Foi o stress. A culpa é tua. Espero que tenhas vergonha.”
Ana leu até ao fim, encolheu os ombros e bloqueou o número. Em seguida, bloqueou também o contacto da ex-sogra. Depois serviu-se de um copo de vinho e pôs o seu filme preferido.
Lá fora começou a chover. As gotas batiam no vidro como se a aplaudissem. Ana ergueu o copo, encarando o próprio reflexo na janela escura.
— À vida nova — disse em voz alta. — E a nunca mais deixar ninguém remexer nas minhas coisas.
Bebeu um gole. O vinho era áspero e doce ao mesmo tempo.
Tal como a liberdade.
