— Mas que estás a fazer, declaraste greve?! — rosnou o marido. — A minha mãe não consegue dar conta de tudo sozinha, e tu aí, agarrada ao telemóvel!
Ana estava sentada no quarto que usava como escritório, diante da secretária, a rever a proposta visual para o site de um novo cliente. No ecrã do portátil sucediam-se blocos coloridos, tipos de letra, ícones e esquemas de navegação. Trabalhava à distância como web designer havia quatro anos e, para ser sincera, a atividade rendia-lhe bastante bem. Tinha encomendas constantes, organizava os dias à sua maneira e aquele modo de vida ajustava-se perfeitamente a ela.
A porta da sala abriu-se e João entrou em casa. Tirou o casaco, pendurou-o no armário do corredor e seguiu para a cozinha.
— Ana, estás em casa? — chamou ele.
— Estou, estou a trabalhar! — respondeu ela, sem desviar os olhos do monitor.

Pouco depois, João apareceu à entrada do escritório e ficou encostado ao aro da porta.
— Ouve, preciso de falar contigo. É uma coisa séria.
Ana afastou finalmente o olhar do computador e fitou o marido. Pela expressão dele, percebeu logo que a conversa não prometia nada de leve.
— O que aconteceu?
— É por causa da minha mãe — disse João, massajando a zona entre os olhos. — A casa dela, lá na aldeia, está num estado miserável. O telhado mete água, o fogão a lenha deita fumo para dentro, as paredes estão húmidas. Ela não vai aguentar o inverno ali.
Ana ficou tensa. Antes mesmo de ele terminar, já adivinhava onde aquilo iria parar.
— E o que é que estás a propor?
— Bem… talvez devêssemos trazê-la para cá. Pelo menos durante o inverno — João evitava encará-la. — O apartamento tem três quartos. Arranjamos espaço.
Ana recostou-se na cadeira e cruzou os braços. Em três anos de casamento, vira Maria apenas algumas vezes, mas cada encontro deixara nela uma sensação desagradável, como um travo amargo. A sogra era uma mulher dura, dominadora, convencida de que sabia sempre melhor do que todos os outros.
— João, tens noção de como isso vai complicar a nossa vida?
— Ela é a minha mãe, Ana. Não posso deixá-la naquela casa a cair aos bocados — respondeu ele, olhando-a enfim nos olhos. — Por favor.
Ana soltou um suspiro longo. Não teve coragem de dizer que não. João interpretaria a recusa como uma traição. Além disso, no fundo, ela própria compreendia que não se podia abandonar uma pessoa idosa em condições daquelas.
— Está bem — acabou por concordar. — Mas só durante o inverno. E com uma condição: ela não se mete na nossa vida.
— Claro, claro! Obrigado, querida! — João respirou de alívio e beijou-a no alto da cabeça.
O apartamento era, de facto, um T3, e pertencia a Ana. Herdara-o da avó cinco anos antes, muito antes de conhecer João. Depois do casamento, os dois simplesmente passaram a viver ali juntos. João trabalhava como gestor numa empresa de construção civil e ganhava um salário mediano; comprar casa com crédito ou arrendar um apartamento grande nunca teria estado ao alcance deles.
Maria chegou uma semana depois. João foi buscá-la de carro à aldeia e trouxe-a com três malas enormes e mais dois sacos cheios.
— Boa tarde, dona Maria — cumprimentou Ana, recebendo a sogra à entrada e tentando pegar numa das malas.
— Boa tarde — respondeu a mulher, seca, enquanto examinava o apartamento com um olhar avaliador e pouco simpático. — Então é aqui que vou ter de ficar?
— Sim. Este será o seu quarto — explicou Ana, apontando para o quarto mais afastado. — Pusemos lá uma cama, um armário e tudo o que é necessário.
Maria entrou, observou o espaço em redor e, depois de alguns segundos, torceu o nariz.
— É um pouco apertado. Enfim, para passar o inverno há de servir.
Começou a desfazer as malas, e Ana retirou-se para a cozinha com uma irritação discreta a apertar-lhe o estômago. “Apertado”, pensou ela. O quarto tinha quinze metros quadrados; para uma pessoa, era mais do que suficiente.
Os primeiros dias decorreram com uma calma relativa. Maria instalou-se, arrumou as suas coisas e foi-se habituando à casa. Ana continuava a trabalhar no seu escritório, João saía todos os dias para a empresa, e a sogra, por enquanto, limitava-se a tratar dos seus próprios assuntos.
