— Ana, onde meteste a minha camisola cinzenta de gola alta? E por que raio não há requeijão no frigorífico? A minha mãe pediu-te ontem para comprares.
Com um prato ainda entre as mãos, Ana ficou imóvel junto ao lava-loiça. João apareceu à entrada da cozinha, já pronto para sair para a obra, apressado, de sobrolho carregado. Atrás dele, quase colada à ombreira, via-se a silhueta de Maria, a sogra, enfiada no robe velho e desbotado.
— A camisola está no armário, na prateleira das roupas de inverno — respondeu Ana, em voz baixa. — Quanto ao requeijão… eu não tinha dinheiro.
— Como assim, não tinhas? — Maria entrou na cozinha, passando à frente do filho. — O João deu-te dinheiro na semana passada!
Ana baixou o olhar. Aquele dinheiro já tinha desaparecido nas contas da casa e nos medicamentos da própria Maria. Mas de que adiantava explicar? Naquela casa, as palavras dela batiam nas paredes e caíam no chão, sem peso nenhum.

— Pára de ficar aí especada! — explodiu João. — Estou atrasado para o trabalho e tu ainda me vens com histórias. Pede emprestado à Sofia, não é tua amiga?
Abriu o armário com violência, arrancou a camisola da prateleira e sumiu-se pelo corredor. Maria abanou a cabeça, com o ar ofendido de quem carregava todos os sofrimentos do mundo.
— Tu dás cabo dele, Ana. O homem trabalha que nem um animal e, quando chega a casa, nem sossego encontra. No meu tempo, as mulheres sabiam portar-se de outra maneira.
A porta da rua fechou-se com estrondo. Depois disso, o apartamento ficou mergulhado num silêncio pesado. Ana acabou, quase sem sentir o sabor, a sua sandes de margarina; manteiga só se comprava quando vinham visitas ou em dias de festa. E, enquanto mastigava, a mesma pergunta antiga voltou a apertar-lhe a garganta. Porque continuava a suportar tudo aquilo? Porque nunca conseguia dizer em voz alta que também trabalhava, que dava seis aulas por dia na escola, que era responsável por uma turma, que preparava alunos para exames e que, ao regressar, ainda lavava roupa, limpava a casa e cozinhava para três pessoas? Tudo isto com as migalhas que o marido lhe entregava, com ar generoso, para as chamadas “despesas de mulher”.
O toque da campainha cortou-lhe os pensamentos. À porta estava Sofia, a vizinha do quinto andar, com um saco de compras pendurado no braço.
— Ana, estás bem? Tens outra vez essa cara de quem engoliu o choro.
— Está tudo bem — respondeu ela de imediato, afastando-se para a deixar entrar na cozinha.
— Está bem uma ova. Tens quarenta e cinco anos e ainda ficas vermelha como uma miúda sempre que alguém te fala mais alto. — Sofia pousou o saco e foi direta ao assunto. — O que foi desta vez?
Foi então que alguma coisa dentro de Ana cedeu. As palavras, guardadas durante demasiado tempo, começaram a sair sem ordem: o requeijão que não pudera comprar, as censuras constantes, o dinheiro que nunca chegava para o essencial, a sogra que a tratava como se ela fosse uma criada sem salário.
Sofia ouviu-a em silêncio por uns instantes. Depois franziu a testa.
— Sabes que este apartamento também é metade teu, não sabes? — perguntou de repente. — Foi comprado com o dinheiro da venda da casa dos teus pais, ou já te esqueceste?
Ana apertou os dedos em volta da chávena vazia.
— Mas os papéis estão em nome do João…
— E daí? Estavas casada. Tens direitos. — Sofia puxou a cadeira para mais perto dela. — Ouve, e se tu…
Não terminou a frase. Não foi preciso. Ana percebeu perfeitamente o que a amiga estava a sugerir. O coração deu-lhe um salto estranho, misto de pavor e de uma esperança quase proibida. Divórcio? Depois de trinta anos de casamento? E como viveria? Com que dinheiro? O que diriam os filhos?
— Pelo menos pensa nisso — disse Sofia, agora mais baixo. — Não vais querer passar o resto da vida a fazer de empregada dentro da tua própria casa, pois não?
Quando a vizinha se foi embora, Ana permaneceu muito tempo sentada à mesa da cozinha, de olhos fixos na janela. Lá em baixo, no pátio, as crianças brincavam, mães jovens empurravam carrinhos de bebé e adolescentes cruzavam o passeio em trotinetes.
