“Então assina-me uma declaração de dívida?” desafiou Ana, encarando João enquanto Maria esboçava um sorriso condescendente

Histórias
É revoltante e covarde exigir lealdade assim.

— E o que é que ouviste, afinal? — perguntou ele, com aquele sorriso enviesado. — Duas velhas a dizer disparates.

— Ouvi que não havia obra nenhuma. Que o dinheiro era para a Sofia. Que ninguém pensava assinar declaração nenhuma. E que eu sou uma aproveitadora.

— A minha mãe podia estar exaltada.

— Curioso. Parecia-me bastante calma.

João atirou o telemóvel para cima da mesa.

— Então é isto? Por causa de meia dúzia de frases, vais virar as costas à minha mãe?

— Não é por causa de frases. É por causa da verdade.

— Tu perdeste completamente a noção, Ana. Vives na minha família, usas o meu apelido, tens tudo aqui, e agora recusas seis mil euros à mãe do teu marido.

— À tua mãe — corrigiu ela. — Não à minha.

Ele soltou uma gargalhada seca.

— Finalmente. Aí está a Ana verdadeira.

Nesse instante, a porta de entrada abriu-se. Maria entrou com a expressão de quem já pressentia que o plano tinha corrido mal.

— João?

— Ela não vai transferir nada.

A sogra tirou o lenço devagar, sem pressa.

— Porquê?

— Porque ouvi a sua conversa com a Catarina, lá em baixo, à porta do prédio.

Maria olhou para Ana. Não havia medo no olhar. Apenas irritação.

— Fica muito feio escutar conversas alheias.

— Mentir também não é bonito.

— Ai, agora deu-te para os princípios? Durante onze anos foi-te conveniente viver ao lado do meu filho, não foi? Ele carregou contigo às costas.

Ana virou ligeiramente o rosto para o marido.

— João, mostra à tua mãe os pagamentos dos últimos oito meses. A água, a luz, as compras, a prestação do teu carro, os medicamentos dela sempre que pedia ajuda.

— Não comeces com contas.

— Vou começar, sim. Porque essa história de “carregar comigo” está muito longe da realidade.

Maria pousou a mala numa cadeira.

— Uma mulher decente ajuda o marido.

— E um marido decente mente com a mãe?

João bateu com a palma da mão na mesa.

— Chega! Agora fazes a transferência e acaba-se esta conversa.

— Não.

— Então arruma as tuas coisas.

Maria ergueu um pouco o queixo. Esperava o de sempre: que Ana baixasse os olhos, que tentasse justificar-se, que pedisse para ele não falar de cabeça quente. Tinha sido assim durante anos. Depois das discussões. Depois das humilhações à mesa, nos almoços de família. Depois das lições sobre “sabedoria feminina”, que para Maria significava calar, engolir e sorrir.

Só que, dessa vez, Ana virou costas e foi para o quarto.

João seguiu-a.

— Onde é que pensas que vais?

— Arrumar as minhas coisas.

Ele parou à entrada.

— Estás a dizer que vais mesmo embora?

— Foste tu que sugeriste.

— Eu disse isso para te assustar!

— Não resultou.

Ana puxou de cima do armário uma mala cinzenta, antiga, com a pega gasta. Tinha-a comprado por dez euros antes da primeira viagem de trabalho. João sempre troçara dela.

— Vais sair com esse trambolho? — disse ele. — Até combina contigo.

— É uma boa mala. Não leva peso inútil.

Dentro dela, Ana pôs os documentos, alguns vestidos, o portátil, uma caixinha com o relógio do pai e uma pasta de cartão presa por elástico, cheia de recibos. Não era uma pasta elegante. Era apenas útil.

João ficou a observá-la.

— Voltas logo à noite.

— Não volto.

— Amanhã, então.

— Também não.

— Ana, quem é que te vai aturar com esses teus princípios?

Ela fechou o fecho da mala.

— Eu.

Maria estava no corredor, a fitá-la de cima, embora fosse mais baixa.

— Agora armas-te em esperta? Pois olha, depois não venhas bater à porta. O João é mole, mas eu não te deixo entrar outra vez.

— Não vai ser necessário.

— Ah, é assim?

— É exatamente assim.

Ana saiu do apartamento sem bater com a porta. No patamar cheirava a tinta velha e pó acumulado. Junto ao elevador, tirou o telemóvel da mala e ligou a Inês, uma amiga dos tempos em que trabalhavam no ateliê.

— Inês, ainda tens aquele quarto livre?

— Tenho. O que aconteceu?

— Conto-te depois. Posso ficar aí umas semanas?

— Vem.

— Eu pago-te.

— Primeiro vem.

Quarenta minutos mais tarde, Ana estava sentada na cozinha de Inês. A amiga serviu-lhe chá quente e empurrou para perto dela um prato com queijo. Não fez perguntas. Não se pôs com pena. E, naquele momento, isso valeu mais do que qualquer consolo.

— Seis mil euros? — repetiu Inês, quando Ana terminou de contar tudo.

— Sim.

— E já ias transferir?

— Tinha a aplicação aberta.

Inês ficou algum tempo a olhar para ela.

— O teu pai, onde quer que esteja, agarrou-te pela mão.

Ana tirou a aliança e pousou-a ao lado da chávena.

— Não. Desta vez fui eu que me agarrei a mim mesma.

No dia seguinte, a primeira mensagem de João chegou cedo: “Não faças disparates. Volta para casa.”

Uma hora depois, veio outra: “A minha mãe está mal por tua causa.”

Ao fim da tarde, apareceu a terceira: “Destruíste uma família por dinheiro.”

Ana não respondeu a nenhuma. Foi trabalhar, despachou as encomendas urgentes e, depois do almoço, entrou no banco. Transferiu os seis mil euros para uma aplicação a prazo sem possibilidade de levantamentos imediatos e retirou o seu acesso da conta-poupança comum, para onde, durante anos, tinha enviado o salário sem pensar duas vezes.

Mais tarde, sentou-se num pequeno café, junto à janela, e abriu a pasta dos recibos.

O retrato que surgiu dali era simples. E feio.

Nos últimos meses, João quase não tinha contribuído para as despesas da casa. O ordenado dele seguia, em parcelas, para a mãe. Quanto às despesas do dia a dia, a verdade começava a aparecer sem piedade.

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