— Transfere hoje 6 000 euros para a minha mãe. E sem discussões, Ana. És minha mulher, não és uma estranha qualquer.
João estava plantado no meio da cozinha, de camisa impecavelmente engomada, segurando o telemóvel como quem já tinha vencido a conversa antes mesmo de ela começar. No ecrã brilhava a mensagem de Maria: «Filho, não adies mais. Fico mal vista diante das pessoas.»
Ana pousou a chávena sobre a mesa com lentidão.
— Diante de que pessoas?
— De pessoas decentes — cortou ele. — A minha mãe já combinou tudo com os homens das obras. O apartamento dela está a cair aos bocados, e tu ficas aí sentada em cima das tuas poupanças como se guardasses um tesouro num cofre.

— Esse dinheiro veio do meu pai.
— E isso interessa para quê? — João soltou uma risada seca. — A família é uma só. Os problemas também. Ou só és boa esposa quando te convém dizer isso?
Ana fitou-o sem baixar os olhos. Tinha quarenta e dois anos. João, quarenta e quatro. Estavam casados havia onze. Nesse tempo, ela aprendera a reconhecer cada variação da irritação dele: quando a raiva era dele, quando repetia frases da mãe e quando apenas tentava esmagá-la até obter um sim.
Naquele momento, não era só João que falava.
Por trás dele estava Maria. Baixinha, sempre arranjada, com o cabelo prateado cuidadosamente armado e aquele modo eterno de olhar para a nora como se Ana fosse uma empregada tolerada por caridade.
— Aninha — arrastou a sogra, com falsa doçura —, para quê tanta teimosia? Não te estou a pedir uma fortuna. São só 6 000 euros. O João depois devolve-te.
— Quando?
— Quando puder.
— E assina uma declaração de dívida?
João virou a cabeça num movimento brusco.
— Estás a falar a sério?
— Muito a sério.
— Queres que a minha mãe te assine um papel? A mãe do teu marido?
Maria soltou um pequeno gemido e levou a mão ao peito. Não por dor. Não por fraqueza. Apenas pelo efeito. Ela sempre soubera fazer com que Ana parecesse culpada, fosse qual fosse a situação.
— Deixa, João — murmurou. — Eu já sabia que isto ia acontecer. Sangue de fora é sempre sangue de fora.
Ana não respondeu. Pegou no telemóvel, abriu a aplicação do banco e viu o saldo das suas economias. Os 6 000 euros estavam numa conta separada. Pouco antes de morrer, o pai dissera-lhe, sem rodeios: “Não ponhas tudo na panela da família. Guarda alguma coisa que te segure de pé.” Na altura, ela sentira-se magoada. Agora compreendia que ele simplesmente enxergava bem as pessoas.
— Eu faço a transferência — disse.
João relaxou de imediato.
— Vês? Quando queres, consegues ser razoável.
— Mas primeiro vou ao quarto. Tenho de confirmar o limite.
— Então despacha-te. A mãe vai só um minuto à vizinha e depois vamos juntos a casa dela.
Maria apertou os lábios.
— A Catarina está à minha espera à porta do prédio. Prometi entregar-lhe as chaves da arrecadação.
Ana saiu para o corredor. A porta do quarto estava entreaberta. Sentou-se na beira da cama, mas não transferiu nada. Os dedos ficaram suspensos sobre o ecrã. Da cozinha vinha o som baixo de João a servir chá à mãe. Pouco depois, a porta de entrada bateu.
A sogra saíra.
Ana ia fechar a aplicação quando, pela janela entreaberta, chegou até ela a voz de Maria. As janelas da cozinha davam para o pátio interior, e o banco junto à entrada do prédio ficava mesmo por baixo.
— Então? — perguntou a vizinha. — Ela vai dar?
— Para onde há de fugir? — Maria riu-se com desprezo. — O João aperta-a até ela ceder. Ela é mole. Anda sempre com cara de culpada.
— E se depois pedir o dinheiro de volta?
— Que peça. Ela vai transferir por vontade própria, sem contrato nenhum. Depois digo que foi uma oferta. Uma ajuda a uma mulher idosa. Dívida? Nenhuma.
Ana permaneceu imóvel.
— Mas as obras vão mesmo ser feitas? — quis saber Catarina.
— Que obras? — A sogra soltou uma gargalhada abafada. — Prometi esse dinheiro à Sofia para a entrada. A rapariga vai casar, precisa mais. E esta que agradeça por o João ainda viver com ela. Nora sem filhos, sem grande beleza, com um ordenado mediano. Uma encostada cheia de orgulho.
— E o João sabe?
— O João sabe o essencial: a mãe dele nunca lhe dá maus conselhos. Eu disse-lhe que já estava na altura de pôr a Ana no lugar dela. Se entregar o dinheiro, fica obediente. Se não entregar, então é porque não é família.
As palavras caíam com uma calma terrível. Não feriam como um golpe, não queimavam como uma chama. Apenas arrancavam, uma a uma, a película antiga que lhe turvava os olhos.
Ana fechou a aplicação do banco. Em seguida, abriu as notas do telemóvel e escreveu uma única linha: “Não transferir os 6 000 euros.”
Na cozinha, João já caminhava de um lado para o outro. O relógio caro piscava perto do rosto sempre que ele agitava a mão. Fazia isso quando queria parecer dono da situação, dono da casa, dono da vida dos outros.
— Então, que se passa? — gritou ele.
Ana voltou.
— Não vai haver transferência.
Ele nem percebeu logo.
— Como assim, não vai haver?
— Quer dizer que não vou mandar dinheiro nenhum para a tua mãe.
— Lá estás tu outra vez com as tuas manias?
— Não. Desta vez, pelo contrário, acabei com elas.
João deu um passo na sua direção.
— Ana, não brinques. A minha mãe está à espera.
— Eu ouvi a conversa dela com a Catarina.
Durante um segundo, a cozinha pareceu encolher. João pestanejou. Depois esboçou um sorriso.
