“És minha mulher, não és uma estranha qualquer.” disse João, impondo que Ana transfira 6 000 euros hoje

Histórias
É revoltante tolerar uma chantagem tão cruel.

As compras do supermercado eram pagas por Ana. As contas da casa, também. O carro em que João levava Maria às compras e às consultas era liquidado com o dinheiro dela. Até a prenda de aniversário de Sofia tinha saído do seu cartão.

E, durante todo aquele tempo, ainda lhe repetiam que, naquela família, ela devia sentir-se agradecida.

Ao cair da noite, João telefonou.

— Onde é que tu estás?

— Em casa da Beatriz.

— A sério? Com essa divorciada?

— Diz o que tens a dizer.

— A minha mãe está a chorar.

— Então diz-lhe que os seis mil euros não vão aparecer.

— Estás a ser mesquinha.

— Não. Recusei-me foi a transferir dinheiro a alguém que me quis enganar.

— É a minha mãe!

— Precisamente. Resolve tu.

A voz dele baixou, tentando parecer mais calma.

— Ana, o que é que pretendes com isto? Queres obrigar-me a escolher entre vocês?

— Não. Tu já escolheste.

— Eu não escolhi nada.

— Escolheste no momento em que me mandaste fazer as malas.

Do outro lado, o silêncio tornou-se pesado, carregado de raiva.

— Achas que vou andar atrás de ti?

— Não acho.

— Então é o divórcio.

— Está bem.

João calou-se. Talvez tivesse guardado aquela palavra como ameaça final, mas ela transformara-se, de repente, numa resposta simples.

— Ainda te vais arrepender — disse ele por fim.

— Talvez. Mas não por causa do dinheiro.

Uma semana depois, foi Maria quem lhe ligou. Ana estranhou, mas atendeu.

— Ana — começou a sogra, num tom inesperadamente doce —, tu és uma mulher adulta. Para quê levar isto ao ponto de um divórcio?

— Queriam pôr-me no meu lugar.

— Meu Deus, quem te meteu isso na cabeça?

— A senhora. À porta do prédio.

— Eu estava alterada. Tenho problemas de tensão.

— Maria, por favor. Não vale a pena.

A sogra deixou passar alguns segundos.

— Está bem. Vamos falar com honestidade. O João anda nervoso. Sem ti, perdeu completamente o controlo. A casa está uma desordem. Come qualquer coisa, chega atrasado ao trabalho. Tu conheces-lhe o feitio.

— Conheço.

— Então volta. Quanto ao dinheiro… se não queres dar os seis mil, transfere pelo menos três mil. O resto vê-se depois.

Ana fechou os olhos. Não foi por sofrimento. Foi por cansaço.

— Depois de tudo o que aconteceu, está mesmo a pedir-me metade da quantia?

— Estou a pedir-te pela família.

— Pela Sofia.

Maria soltou o ar com força.

— A Sofia também é família.

— Então que seja o João a transferir-lhe o dinheiro dele.

— Ele não tem esse dinheiro!

— Nesse caso, o casamento será mais simples.

— Ficaste uma mulher dura.

— Não. Apenas deixei de ser conveniente.

Depois desse telefonema, vieram dez dias de sossego.

Ana arrendou um pequeno T1 por duzentos e oitenta euros por mês. Não ficava na periferia, mas também não tinha luxo nenhum. Encostou a mala ao roupeiro, comprou duas canecas, um jogo de toalhas novo e um candeeiro de mesa. À noite, regressava para aquele espaço e não ouvia ninguém dizer que tinha cortado o pão “da forma errada”, que pousara a panela “no sítio errado”, ou que respondera a João “com um tom inadequado”.

Trabalhava como modelista numa pequena oficina de costura. Havia muito que podia aceitar encomendas particulares, mas João franzia sempre a cara.

— Outra vez os teus trapinhos? Devias era dedicar-te a uma coisa séria.

Agora, aqueles “trapinhos” renderam-lhe setecentos e quarenta euros no primeiro mês. Depois surgiu outra encomenda. A seguir, uma cliente regular, que trouxe a irmã.

Beatriz aconselhou-a:

— Cria uma página só tua. Mostra o que fazes.

— Eu não sei escrever coisas bonitas.

— Mas sabes fazer coisas bonitas.

Ana criou a página. Sem grandes promessas. Apenas fotografias, medidas, tecidos e prazos. Um mês mais tarde, já tinha trabalho marcado para as três semanas seguintes.

João reapareceu no fim de agosto.

Estava à espera dela junto à entrada do prédio onde Ana vivia agora. Trazia um ramo nas mãos. Não eram os crisântemos de que ela gostava, mas rosas vermelhas, aquelas que ele comprava a qualquer mulher quando queria parecer generoso.

— Olá — disse ele.

— O que vieste aqui fazer?

— Falar.

— Então fala.

João olhou em volta, para o pátio.

— Não queres que subamos?

— Não.

— Ana, eu percebi tudo.

— O quê, exatamente?

— Que me excedi. A minha mãe também. Ela é de outra geração, às vezes fala sem medir as palavras.

— Ela mede-as muito bem. Sobretudo quando acha que eu não estou a ouvir.

João contraiu o rosto.

— Pronto, já chega de pegar em cada palavra.

— Vieste fazer as pazes ou explicar-me por que motivo a culpa continua a ser minha?

Ele baixou o ramo.

— Estou cansado. Lá em casa tornou-se impossível. A minha mãe passa os dias a reclamar. A Sofia e o noivo dela continuam a pedir dinheiro. A prestação do carro está a apertar. Eu… enfim, percebi que, sem ti, tudo corre mal.

Ana assentiu devagar.

— Claro que corre mal. Eu pagava o teu conforto.

— Não fales assim.

— Falo, sim.

Ele observou-lhe a mala, o vestido impecável, o rosto tranquilo.

— Tu mudaste.

— Não. Tu é que antes só vias a parte que te dava jeito.

João aproximou-se um passo.

— Vamos recomeçar. Eu falo com a minha mãe. Ninguém volta a mexer no dinheiro.

— O pedido de divórcio já foi entregue.

— Pode ser retirado.

— Eu não vou retirá-lo.

João apertou os maxilares.

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