“Se volto a encontrar a tua mãe no nosso quarto às seis da manhã, ponho-vos aos dois fora daqui!” — gritou Ana quando percebeu que a sua paciência se tinha esgotado de vez

Histórias
Invasão íntima inaceitável revela descaso familiar perturbador.

— Se volto a encontrar a tua mãe no nosso quarto às seis da manhã, ponho-vos aos dois fora daqui! — gritou Ana, quando percebeu que a sua paciência se tinha esgotado de vez.

João acabara de regressar da fábrica, depois do turno da noite. Vinha moído, sem forças, a desejar apenas silêncio e um pouco de descanso. Em vez disso, encontrou uma explosão de fúria que lhe desfez, num instante, a frágil sensação de normalidade.

Tudo começara porque Maria voltara a usar a chave suplente. Pela sexta vez naquele mês. Ana acordara com a impressão nítida de que havia alguém no quarto. Ao abrir os olhos, distinguiu a silhueta da sogra junto à cama, imóvel, a observar com atenção o filho adormecido.

— Esta mulher perdeu o juízo? — murmurou Ana para si, quando Maria saiu do quarto sem fazer barulho.

Ao pequeno-almoço, a sogra justificara-se dizendo que apenas queria confirmar se João dormia bem depois de uma noite pesada de trabalho. Acrescentara que coração de mãe nunca descansa. Ana não respondeu, mas por dentro a irritação fervia-lhe como água ao lume.

Agora, com João finalmente em casa, tudo aquilo rebentara.

— Tu tens noção do que a tua mãe anda a fazer? — Ana ia de um lado para o outro na cozinha, gesticulando sem conseguir conter-se. — Entra no nosso quarto como se isto fosse a casa dela! Fica ali parada a ver-te dormir! Tenho trinta anos, João, e sinto-me como uma criança num infantário, vigiada por uma educadora!

João deixou-se cair numa cadeira, exausto. A cabeça ainda lhe latejava com o ruído das máquinas, e os gritos da mulher vinham juntar-se a esse zumbido.

— Ana, por favor, não fales assim tão alto. A mãe só se preocupa comigo. Ela não faz isto por mal.

Aquelas palavras foram a gota de água. Ana virou-se para ele, e João viu-lhe nos olhos algo diferente. Não era apenas raiva. Era uma determinação gelada.

— Não faz por mal? João, tu ouves-te quando falas? A tua mãe transformou a nossa casa num corredor público! Tem chaves de todas as divisões, aparece quando lhe apetece, entra onde quer! E tu continuas a desculpar esta loucura!

— Não é loucura nenhuma — tentou ele defender-se. — Ela sente-se só, fica aflita…

— Só? — Ana soltou uma gargalhada curta, amarga. — Ela não está só, João. Ela quer controlar. Quer mandar na nossa vida. E o pior é que consegue, porque tu deixas!

João sentiu-se encurralado. De um lado estava a mulher, claramente esmagada pelo comportamento da mãe dele. Do outro, estava a própria mãe, que vivia sozinha e para quem ele era, de facto, a única alegria.

— Ana, vamos falar com calma. Eu passo por casa da minha mãe, explico-lhe…

— Explicas? — Ana parou mesmo à frente dele. — Já lhe “explicaste” cem vezes. E qual foi o resultado? Ela aparece ainda mais! Antes limitava-se a fazer tilintar as chaves no corredor, agora anda pela casa como um fantasma!

Ana aproximou-se da janela e olhou para o pátio. Lá em baixo, no banco por baixo da janela deles, estava Maria. Tinha um jornal aberto nas mãos, mas de vez em quando levantava os olhos e fitava as janelas do apartamento.

— Olha, João. A tua mãe está ali. Sentada no banco, a vigiar as nossas janelas. Como uma segurança. Como… como uma perseguidora!

João aproximou-se também da janela. E sim, a mãe estava no pátio. À primeira vista, não havia nada de especial nisso; Maria gostava muitas vezes de se sentar ao ar livre. Mas, depois das palavras de Ana, aquela cena parecia outra coisa.

— Está só sentada — disse ele, sem grande convicção. — Que há de estranho nisso?

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