“Então está decidido: este verão vamos passá-lo todos convosco” — anunciou Aurora, deixando João sem palavras e Catarina apreensiva

Histórias
A aparente bondade esconde egoísmo frio e injusto.

— Compraram uma casa? Que maravilha! Então está decidido: este verão vamos passá-lo todos convosco — anunciou Aurora, pousando as mãos na mesa da cozinha com um ar de satisfação absoluta.

Catarina fechou devagar a porta do frigorífico. Primeiro olhou para a sogra; depois, para Mariana, filha de Aurora, que já tinha conseguido dar uma volta pelos quartos com os dois filhos. O marido de Mariana, Nuno, ficara lá fora, no pátio, a examinar com expressão entendida o espaço junto ao barracão, como se estivesse a escolher o canto ideal para instalar ali a sua própria oficina.

João estava sentado diante da mãe e não dizia palavra. Pela forma como passava repetidamente os dedos pela borda da caneca, Catarina percebeu logo: o marido procurava, em desespero silencioso, uma frase que não magoasse ninguém.

Era sempre assim. João passava a vida à procura das palavras certas. E, na maior parte das vezes, essa procura terminava com ele a aceitar as condições dos outros, deixando para Catarina a tarefa de lidar depois com as consequências.

Do lado de fora da janela aberta, ouviam-se os grilos. O sol de agosto já aquecera o quintal, embora ainda mal passasse das dez da manhã. Na fachada acabada de pintar, os caixilhos brancos destacavam-se com nitidez; junto aos degraus da entrada amontoavam-se sacos de terra, e ao longo do caminho estavam alinhadas tábuas destinadas aos futuros canteiros.

A casa tinha sido comprada no início do verão. Era pequena, térrea, com dois quartos, uma cozinha aberta para a sala e um terreno que os antigos donos praticamente tinham deixado ao abandono durante anos. Para chegarem àquela compra, Catarina e João tinham juntado dinheiro durante muito tempo, renunciado a viagens dispensáveis e visitado dezenas de imóveis que nunca correspondiam ao que precisavam.

Tinham-se conhecido seis anos antes, no aniversário de um amigo comum. Ao fim de alguns meses, concluíram que não fazia sentido atravessarem a cidade inteira para se verem e alugaram juntos um apartamento. Um ano depois, casaram-se.

A ideia de terem uma casa própria surgiu quase logo a seguir ao casamento. Não sonhavam com muros altos, três pisos e um jardim imenso. Queriam apenas um sítio simples, onde pudessem chegar depois do trabalho, abrir as janelas, cuidar da terra e não ouvir, através da parede, a televisão dos vizinhos.

Durante vários anos pouparam, acompanharam anúncios e compararam zonas. Quando finalmente conseguiram reunir o valor da entrada, escolheram uma casa numa aldeia próxima, suficientemente perto da cidade para que a deslocação não se transformasse numa tortura diária.

A escritura ficou em nome dos dois, e o crédito também. Cada tábua, cada lata de tinta, cada caixa de parafusos entrava numa lista comum de despesas. Ambos sabiam muito bem quanto ainda tinham para pagar e quanto seria necessário gastar para manter a casa e o terreno em condições.

Assim que receberam as chaves, puseram mãos à obra.

A fachada estava baça e descuidada. João raspou a pintura antiga, enquanto Catarina se encarregou da parte inferior das paredes. Ao fim do dia, os braços de ambos tremiam de cansaço; ainda assim, na manhã seguinte, lá estavam outra vez com pincéis na mão.

A cozinha chegou desmontada, em várias caixas. João passou horas a comparar peças com o manual de instruções, enquanto Catarina separava ferragens e ia assinalando numa folha os módulos que já estavam montados. Por duas vezes tiveram de desmontar um armário, porque as calhas tinham sido fixadas ao contrário. Discutiram, riram-se da própria confiança excessiva e, perto da meia-noite, conseguiram finalmente terminar.

No terreno, o trabalho também não faltava. Arrancaram erva velha, levaram ramos secos para fora e limparam o caminho que conduzia ao barracão. Catarina queria preparar no outono um canto para plantar arbustos de frutos; João, por sua vez, fazia planos para construir uma cobertura junto à casa.

Trabalhavam depois do expediente e quase todos os fins de semana. Havia noites em que adormeciam logo a seguir ao jantar, sem sequer terem energia para combinar as tarefas do dia seguinte. Mas aquela fadiga não os irritava. Pelo contrário: cada pedaço de parede acabado, cada prateleira montada, cada passagem limpa lembrava-lhes que todo aquele esforço era para eles.

Resolveram contar a novidade apenas aos familiares mais próximos.

Durante alguns dias, Catarina não publicou fotografias. A casa ainda lhe parecia demasiado inacabada. Havia ferramentas espalhadas pelo alpendre, caixas empilhadas na sala e uma parte do terreno continuava tomada pelo mato.

João riu-se quando a mulher, pela terceira vez, se recusou a tirar fotografias à cozinha.

— Nós ainda vamos passar um ano inteiro a acabar coisas. Se fores por aí, escondemos a casa até ao próximo verão.

Na sexta-feira à noite, Catarina acabou por ceder. Fotografou a fachada, as macieiras, a cozinha e João, de aparafusadora na mão, junto a um banco que ainda estava meio montado. Enviou tudo para o grupo da família e escreveu que, finalmente, se tinham mudado para a sua própria casa no campo.

As respostas chegaram quase de imediato.

No início, foram só felicitações. Uma tia afastada de João desejou-lhes uma vida tranquila naquela nova casa. Mariana pediu para ver os quartos das crianças. Aurora escreveu que sempre dissera ao filho como o ar do campo fazia bem.

Meia hora depois, porém, o tom da conversa começou a mudar.

Mariana quis saber se havia algum rio ou praia fluvial por perto. Nuno perguntou se seria possível montar no quintal um grande grelhador. A sogra começou a explicar que as crianças ganhavam muito mais passando as férias fora da cidade.

Catarina lia as mensagens com a testa franzida.

— Eles já estão a organizar férias aqui — comentou com o marido.

João espreitou o telemóvel.

— Estão só contentes.

— A Mariana escreveu que traz uma piscina insuflável e a põe debaixo da macieira.

— Deve estar a brincar.

— Então porque é que a tua mãe está a perguntar qual é o quarto que está livre?

João percorreu rapidamente a conversa.

— Não comeces a imaginar coisas. Eles sabem perfeitamente que a casa é pequena.

Catarina preferiu não insistir. Os parentes tinham o hábito de lançar ideias no grupo da família que depois nunca saíam do ecrã do telemóvel. Convenceu-se de que, passado um dia, o entusiasmo em torno da compra acabaria por arrefecer.

Mas, no domingo de manhã, dois carros pararam junto ao portão.

Naquele momento, os dois estavam ocupados na cozinha. Catarina limpava as prateleiras novas; João fixava puxadores nas portas dos armários.

O primeiro a entrar no quintal foi Nuno. Trazia um saco numa mão e, na outra, uma cadeira dobrável.

— Recebam lá os convidados!

Logo atrás surgiu Mariana com os filhos. Aurora vinha por último, acompanhada do marido, Manuel.

Ninguém tinha telefonado antes.

— Vieram para ficar muito tempo? — perguntou Catarina, assim que terminaram os cumprimentos.

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