— Acabou, mãe. Ela assinou. A casa e o carro ficam comigo. Os empréstimos, com ela.
João Silva falava ao telemóvel encostado à entrada da sala de audiências, sem fazer o menor esforço para baixar a voz.
A três passos dali, Ana Pereira apertava contra o peito uma pasta cheia de documentos. João virou a cabeça, reparou nela e deixou escapar um sorriso torto.
— Ainda aí estás? Vai lá, vai. Agora tens de trabalhar, não é? Há prestações para pagar.
Ana não lhe deu resposta. Limitou-se a voltar costas e seguiu pelo corredor, sem olhar para trás uma única vez. João acompanhou-a com os olhos e retomou a chamada, satisfeito:

— Não, mãe, ela nem tentou discutir. Eu disse-te que ia correr tudo como eu queria.
Ao sair do tribunal, Ana chamou um táxi e pediu ao motorista que a levasse ao café “Mundo Saboroso”. Junto à janela, o notário Manuel Costa já a aguardava.
— Conseguiu — disse ele, em vez de a cumprimentar, enquanto lhe entregava um envelope fechado. — Isto é do seu pai. Deixou-o comigo há três anos, pouco antes de morrer. Pediu-me que só lho desse depois do divórcio.
Ana segurou o envelope, mas não o abriu.
— Ele sabia que isto ia acontecer?
— Sabia. E deixou-lhe tudo. A cadeia de pastelarias “Pão com Alegria”: dezassete lojas. Legalmente, a senhora tornou-se proprietária há seis meses, mas ele pediu-me que esperasse por este dia.
Manuel Costa tirou então outra pasta, volumosa, presa com um elástico.
— E aqui está um dossiê. Sobre o seu ex-marido e a mãe dele. O seu pai reuniu isto durante dois anos. Está tudo aí dentro. Leia em casa e decida, com calma, o próximo passo.
Ana guardou o envelope e a pasta na mala, agradeceu com um aceno e saiu sem sequer terminar o café.
Já em casa, rasgou o envelope. A letra do pai, firme e direita, era tão familiar que lhe trouxe lágrimas aos olhos.
“Minha Ana, se estás a ler isto, quer dizer que finalmente estás livre. Perdoa-me por ter ficado calado. O João e a mãe dele chantagearam-me com uma história antiga ligada às Finanças. Ameaçaram apresentar queixa se eu tentasse avisar-te. Mas não fiquei de braços cruzados. Na pasta tens tudo aquilo de que precisas. Não perdoes. Vive.”
Ana abriu o dossiê. Havia extratos bancários, fotografias de João com Beatriz Ferreira, cópias de mensagens, comprovativos de transferências. O dinheiro saíra dos cartões de crédito dela para as contas da empresa de João; dali, seguira para o cartão de Beatriz. Renda de apartamento. Presentes. Viagens.
Durante muito tempo, Ana ficou a olhar para os números e para as imagens. Depois pegou no telemóvel.
— Maria? É a Ana Pereira. Lembras-te de teres dito que podias ajudar-me com os créditos? Preciso de falar contigo. Amanhã. Sim, é urgente.
Maria, consultora financeira de dedos ágeis e rosto cansado, espalhou várias folhas diante dela no dia seguinte.
— Repara bem. Cada empréstimo que contraíste foi parar às contas da firma do teu marido. A partir daí, o dinheiro seguiu para Beatriz. Isto não são dívidas tuas, Ana. São despesas dele lançadas sobre ti. Podes avançar para tribunal. A lei está do teu lado. Quando um cônjuge contrai dívidas ou gasta dinheiro em benefício próprio, sem consentimento do outro, há fundamento para exigir reembolso.
Ana pousou sobre a mesa a pasta deixada pelo pai.
— Tenho provas.
Maria abriu o dossiê, folheou-o rapidamente e soltou um assobio baixo.
— Então ele está acabado. Pelo menos juridicamente.
Dez dias depois, João recebeu uma notificação judicial. Estava sentado no seu todo-o-terreno, estacionado à porta do prédio de Beatriz, e demorou alguns segundos a compreender o que lia.
— Que cobrança é esta agora? Nós já resolvemos tudo. Ela assinou!
Do outro lado da linha, a voz do agente de execução manteve-se seca e indiferente:
— O acordo homologado não encerra esta questão.
