“Sou eu que vou casar com o teu ex-marido” — anunciou a amante com uma segurança insolente

Histórias
Atitude ousada e cruel, impossível de perdoar.

— Sou eu que vou casar com o teu ex-marido. Portanto, minha menina, está na altura de desocupares este apartamento — anunciou a amante, com uma segurança insolente.

Ana tinha acabado de adormecer a filha, Maria, havia poucos minutos. Também ela já se preparava para se deitar e saborear, enfim, aquele silêncio raro que enchia o apartamento acolhedor.

Foi então que a campainha tocou. O som melodioso espalhou-se pela casa, anunciando uma visita inesperada.

— Pois… parece que afinal não vai dar — murmurou Ana, com ironia amarga, antes de seguir para a porta.

Do outro lado estava uma rapariga baixa, de cabelo loiro curto e grandes olhos castanhos. Observava a dona da casa com atenção excessiva, como se tentasse decidir alguma coisa.

— Sim? — perguntou Ana, franzindo ligeiramente o sobrolho.

— Ah, desculpe — a desconhecida pareceu despertar de um devaneio. — Eu chamo-me Sofia.

— Muito prazer — respondeu Ana, cruzando os braços. — Veio tratar de algum assunto?

— Sim, sim — repetiu a visitante, um tanto atrapalhada. — Sou a Sofia.

— Essa informação já ficou registada — disse Ana, num tom seco, no qual a irritação começava a transparecer. — E então? Qual é o motivo?

— A senhora é a Ana? — perguntou a rapariga, ainda hesitante.

— Sou. O que pretende?

— Bem, veja… — começou ela, subitamente animada. — Eu sou a noiva do João!

Ana ergueu as sobrancelhas, surpreendida, e os olhos abriram-se-lhe um pouco mais.

“Claro. O meu conquistador de serviço já arranjou outra peça para a coleção”, pensou, avaliando Sofia de alto a baixo. “Embora, sendo honesta, que tenho eu a ver com as conquistas dele?”

— Perceba, eu queria conversar consigo sobre o meu marido… quer dizer, sobre o meu noivo — continuou Sofia, acompanhando as palavras com um sorriso nervoso.

— Duvido que as minhas recordações lhe sejam úteis. Nós separámo-nos — respondeu Ana de imediato.

— Eu sei. O João contou-me. Não vim aqui para discutir!

Ana quase se riu por dentro. “E por que razão haveria eu de discutir? Já não sou mulher dele. E tu… para mim, és-me completamente indiferente.”

— Gostava de ouvir da sua boca como é o meu João — disse Sofia, prendendo a respiração por um instante.

“O meu?” A palavra atravessou a mente de Ana como uma agulha. “Houve um tempo em que ele era meu…”

— Está bem. Entre — acabou por dizer, soltando um suspiro.

Deu passagem à visita inesperada para o corredor. No fundo, a própria Ana também sentia curiosidade. Queria saber como andava a vida do ex-marido. Ultimamente, João não lhe telefonava; limitava-se a enviar a pensão de alimentos com regularidade.

Ana pôs a água a aquecer, preparou chá de pétalas de rosa num bule transparente, colocou duas chávenas e alguns biscoitos num tabuleiro e levou tudo para a sala.

Sofia, entretanto, caminhava devagar junto às paredes, observando os quadros, as estantes, os livros. Chegou a tocar nas lombadas com a ponta dos dedos, examinando tudo com uma curiosidade quase infantil.

— Que lindo é isto aqui! Tão espaçoso… e o teto… Estas janelas enormes, o parque lá fora! Sempre sonhei viver numa casa assim — suspirou, encantada.

— Então, o que é que pretende saber exatamente? — perguntou Ana, pousando o tabuleiro sobre a mesa.

— Na verdade, tudo — respondeu Sofia, distraída. Depois aproximou-se de uma das portas. — E ali, o que há?

— Não abra — avisou Ana, num tom cortante. — A minha filha está a dormir.

— Ah, sim, o João mencionou que a senhora tinha uma filha. Como é que ela se chama?

— Maria — respondeu Ana, sem alongar a conversa.

— Sim, Maria! — Sofia virou-se e dirigiu-se logo para outra porta. Sem pedir licença, abriu-a e entrou.

— Ei, aonde pensa que vai? — indignou-se Ana, apressando-se atrás dela.

— Quero ver todos os quartos — atirou a visitante, com uma despreocupação ofensiva.

— Faça o favor de fechar essa porta e sair daí.

— Porquê? — protestou Sofia. — Afinal, esta casa é minha.

— O quê?! — Ana teve a impressão de não ter ouvido bem.

— Sim, é minha. Vou casar com o João, e ele vai oferecer-ma. Portanto, eu… — Sofia voltou-se e percorreu Ana com um olhar duro, avaliador. — Portanto, minha menina, convém começares a arrumar as tuas coisas.

— Tu ouves o que estás a dizer? — murmurou Ana entre dentes, contendo-se a muito custo.

— Pouco me importa o que pensas. Vim avaliar a prenda do meu noivo. Não quero descobrir mais tarde que me empurraram para algum buraco miserável. Aqui serve perfeitamente… — começou Sofia.

— Chega! O teu espetáculo acabou. Sai imediatamente da minha casa — declarou Ana, com a voz firme e clara.

— E tu não me dás ordens! — devolveu Sofia, já estendendo a mão para a maçaneta da porta seguinte.

Ana avançou num movimento brusco e agarrou-lhe o dedo. A rapariga desequilibrou-se, mal conseguiu manter-se de pé e foi parar de lado. Ana, sem pressa, fechou a porta com cuidado.

— Rua — sibilou, sentindo a raiva ferver-lhe por dentro.

— Oh, que valentia! Então escuta bem, querida: dou-te duas semanas. Depois disso, venho viver para aqui. Percebeste?

A audácia daquela criatura deixou Ana sem palavras. Já há muito tempo não encontrava alguém com semelhante descaramento.

— Sai — repetiu, mais baixo, mas com uma frieza tão decidida que a palavra pareceu cortar o ar.

— Já vou, já vou. Nem acabei de ver os quadros, mas pronto. A morada já a tenho. Até breve!

Sofia precipitou-se para junto dos sapatos, calçou-se à pressa e, sem esperar que Ana recorresse a medidas mais físicas, escapou para o patamar.

— Duas semanas! — gritou ainda uma vez, antes de descer rapidamente as escadas.

Ana fechou a porta com força. Depois encostou-se a ela, de costas, e sentiu os joelhos tremerem-lhe traiçoeiramente.

“Mas que raio foi isto?”, perguntou a si mesma. “O João não seria capaz de fazer uma coisa destas. Ele prometeu… Ou será apenas um delírio idiota de uma das suas admiradoras?”

Olhou para o relógio. Já era tarde, mas o sono tinha desaparecido como se nunca tivesse existido. Precisava de telefonar a João. Antes, porém, foi espreitar o quarto de Maria. A menina dormia tranquilamente, abraçada ao seu urso de peluche. Ana não permitiria que ninguém abalasse aquela paz, muito menos uma mulherzinha presunçosa que se imaginava dona da casa.

Nas janelas dos prédios em frente brilhavam luzes amareladas. Os candeeiros da rua tinham-se acendido, lançando sombras compridas sobre o passeio.

Ana começou a andar de um lado para o outro na sala. Com a mão fina, afastava nervosamente as madeixas que lhe caíam sobre o rosto. Os pensamentos embaraçavam-se uns nos outros; o coração batia-lhe descontrolado. As palavras de Sofia — a nova paixão do ex-marido — ressoavam-lhe na cabeça sem descanso.

O apartamento onde Ana vivia com Maria era o seu refúgio. O sofá macio, coberto de almofadas estampadas, as prateleiras cheias dos seus livros preferidos, as fotografias penduradas nas paredes — tudo ali transmitia a sensação de um lar seguro. Naquela noite, contudo, essa harmonia pareceu-lhe frágil, quase ilusória.

Recordou-se do acordo feito com João: enquanto Maria não terminasse a escola, as duas permaneceriam ali. A declaração daquela “noiva” fora como uma bofetada.

Incapaz de aguentar mais, Ana pegou no telemóvel, marcou o número do ex-marido e levou o aparelho ao ouvido com força. Depois de alguns toques, ouviu a voz familiar:

— Que foi? — resmungou João, sem sequer a cumprimentar.

— Que história é esta? — explodiu Ana, esforçando-se por falar baixo para não acordar Maria. — Uma das tuas novas fúrias apareceu-me aqui em casa e ordenou-me que desocupasse o apartamento. Isto é uma piada rasca tua ou chegaste a um novo patamar de canalhice?

— Está bem, percebi — disse João. — O mais importante é não te enervares.

Ana foi para a cozinha. A divisão pequena, com móveis antigos mas cuidadosamente conservados, sempre lhe parecera um abrigo. Agora, porém, pesava-lhe em cima como se o ar ali dentro tivesse engrossado.

— Não me enervar? — repetiu Ana, tentando a custo dominar-se.

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