— Acabou. Junta as tuas tralhas. A minha mãe e os parentes vêm instalar-se aqui antes do Ano Novo, e nenhum deles faz questão de te ver por perto.
O apartamento tinha ficado para Ana por herança dos pais. Era um T2, situado no quarto andar de um prédio antigo de tijolo. As janelas davam para o pátio interior, onde cresciam choupos e havia bancos alinhados junto aos caminhos. Os pais tinham deixado tudo em ordem e, meio ano depois, Ana tornou-se oficialmente dona da casa.
Tratou de pôr todos os documentos em seu nome, recebeu a certidão de propriedade e, aos poucos, começou a habituar-se à ideia de que aquele espaço já não era apenas a casa onde crescera: era agora o seu lar.
Casou-se com João um ano depois de receber a herança. A boda foi simples, sem convidados a mais nem grandes despesas. Depois do casamento, João mudou-se para o apartamento dela. Vendeu o pequeno T1 que tinha nos arredores e colocou o dinheiro numa aplicação bancária.
A vida dos dois corria sem grandes entusiasmos, mas também sem conflitos sérios. João trabalhava numa empresa de construção civil e muitas vezes só regressava tarde da noite. Ana era contabilista numa pequena firma, chegava mais cedo e preparava o jantar.

Os primeiros meses de casamento passaram com tranquilidade. João não se metia nas tarefas da casa nem tentava impor mudanças. Ana mantinha o apartamento como estava habituada a vê-lo: as fotografias dos pais continuavam penduradas nas paredes, o velho aparador permanecia no mesmo canto, cheio da loiça de família. O marido nunca se opôs.
Com o tempo, porém, a sogra começou a aparecer cada vez mais. Maria vinha uma vez por semana, às vezes até com maior frequência. Trazia sacos de compras, entrava quase sem esperar que lhe abrissem a porta e percorria a casa com um olhar atento, avaliador, como se estivesse a fazer uma inspeção. Ana esforçava-se por ser educada: servia-lhe chá, ouvia os conselhos, respondia com contenção.
— Alguém devia pensar no teu marido — comentou um dia Maria, enquanto observava a sala. — O João chega cansado e encontra este apartamento tão frio. Umas cortinas novas faziam falta. E um papel de parede mais alegre também.
Ana não respondeu. A casa era dela. Tinha sido dos seus pais. Não pensava trocar o papel de parede, mudar cortinas nem transformar nada só porque a sogra achava melhor. Ainda assim, discutir parecia-lhe inútil. Era mais fácil acenar com a cabeça e ficar calada.
— Recebeu tudo dos pais e, mesmo assim, nem consegue criar um ambiente decente — continuou Maria, tirando um frasco de doce de dentro do saco. — O João trabalha de manhã à noite e, quando volta, encontra frieza e vazio.
Por baixo da mesa, Ana fechou a mão com força. Mesmo assim, a voz saiu-lhe calma:
— O João nunca se queixou.
— O João não se queixa de nada, é do feitio dele — suspirou a sogra. — Mas uma mãe percebe quando o filho não está bem.
Filho. João tinha trinta e dois anos, mas, para Maria, continuava a ser o seu menino. Ana aprendeu a deixar aquelas frases passar ao lado. Ouvia, concordava com um gesto vago e depois voltava ao que estava a fazer.
João nem se dava conta de como a presença constante da mãe ia envenenando o ambiente. Pelo contrário, parecia até gostar das visitas de Maria. Havia nelas cuidado, comida, atenção — tudo aquilo que, em criança, lhe faltara em quantidade. O pai desaparecera cedo da vida deles; a mãe criara-o sozinha, dividida entre dois empregos, deixando muitas vezes o rapaz ao cuidado de vizinhos.
Agora, Maria tentava compensar esse passado. Telefonava-lhe todas as noites, perguntava como ele estava, dava opiniões, fazia recomendações. Por vezes, Ana apanhava fragmentos das conversas:
— Mãe, está tudo bem, não te preocupes.
— João, sabes que eu só penso em ti.
— Sim, mãe, eu sei.
Ana não interferia. Cada pessoa tem a sua maneira de se relacionar com os pais. O essencial, pensava ela, era que esses laços não se metessem no meio da vida do casal.
O outono instalou-se por completo. Os dias ficaram mais frios e a chuva tornou-se quase diária. Ana foi buscar as roupas quentes ao armário, substituiu as colchas leves por outras de inverno e colocou velas no parapeito da janela. Eram pequenos gestos, pormenores simples, mas davam à casa uma sensação de abrigo.
Dezembro aproximava-se. Ana começou a pensar na passagem de ano. Queria organizar uma pequena celebração, convidar dois ou três amigos, enfeitar o apartamento. Nada de exagerado, apenas uma noite acolhedora, partilhada com pessoas de quem gostava.
Nessa altura, João tornou-se mais calado e preocupado. Chegava a casa, quase não falava e ficava a olhar para o telemóvel. Ana perguntava-lhe se estava tudo bem, mas ele limitava-se a afastar a conversa com um gesto.
— Está tudo certo. Só estou cansado.
Numa noite, durante o jantar, João acabou por tocar no assunto:
— A minha mãe e os outros queriam passar o Ano Novo na cidade. Não têm onde ficar. Como nós somos só dois, cabem cá em casa.
Ana ergueu os olhos do prato. O garfo ficou suspenso a meio do caminho.
— Os outros? Quantas pessoas são?
João encolheu os ombros, sem levantar a cabeça.
— A minha mãe, a tia Helena, o meu sobrinho, o Pedro e a Sofia. Umas seis pessoas, no máximo.
— Seis pessoas? Num T2?
— Não é por muito tempo. Só de 31 de dezembro a 2 de janeiro. Qual é o problema?
Ana pousou o garfo devagar.
— João, este apartamento é meu.
