— E não estou disposta a transformá-lo numa pensão improvisada.
João franziu a testa, como se aquela frase o tivesse atingido em cheio.
— O meu apartamento, o meu apartamento… — repetiu, num tom trocista. — Então e eu? Moro aqui ou sou visita?
— Moras aqui, sim — respondeu Ana, esforçando-se por manter a voz firme. — Mas isso não te dá o direito de decidir sozinho quem entra e quem fica.
O rosto dele fechou-se.
— Estamos a falar da minha mãe.
— A tua mãe já vem cá muitas vezes — disse ela, sem levantar o tom. — Nunca te impedi de a receber. Mas trazer seis pessoas para passar o Ano Novo aqui dentro é outra coisa. E eu não concordo.
João encostou-se às costas da cadeira e cruzou os braços, como quem adia uma guerra.
— Está bem. Falamos disto depois.
A conversa morreu ali. Ana levantou a mesa em silêncio, empilhou os pratos junto ao lava-loiça e guardou as sobras. João desapareceu para a sala e ligou a televisão. O resto do dia arrastou-se numa mudez pesada, cheia de palavras engolidas.
No dia seguinte, Ana chegou a casa mais tarde do que era habitual. A reunião prolongara-se, depois ainda a tinham retido no armazém por causa de guias e documentos que ninguém conseguia encontrar. Quando finalmente entrou no prédio, já a luz da tarde se desfazia. Abriu a porta do apartamento, tirou o casaco — e percebeu de imediato que havia alguma coisa errada.
João estava parado no corredor. Tinha o maxilar contraído, os punhos cerrados junto ao corpo. Ana ficou imóvel.
— Que se passa?
Ele avançou um passo.
— Acabou-se. Faz as malas. A minha mãe vem com a família para cá até ao Ano Novo, e tu não fazes falta nenhuma.
Ana fechou a porta devagar, sem desviar os olhos dele.
— Repete lá isso.
— Ouveste muito bem. A minha mãe telefonou. Já estão a preparar tudo, partem depois de amanhã. Precisam de sítio para ficar. E tu, aqui, só vais atrapalhar.
— Eu é que vou atrapalhar? Na minha própria casa?
— Na minha casa! — explodiu João. — Eu vivo aqui. Tenho direitos!
Ana deixou a mala cair no chão.
— Vives aqui porque eu deixei. O apartamento está em meu nome. Recebi-o antes de nos casarmos. Faz parte da minha herança.
— Estou-me nas tintas para a tua herança! — gritou ele, batendo com o punho na parede. — A minha mãe quer vir e vai vir.
— Sem o meu consentimento, não entra aqui ninguém.
João aproximou-se mais, demasiado perto, invadindo-lhe o espaço.
— Achas mesmo que me podes dizer o que faço ou deixo de fazer?
Ana ergueu o queixo. Por dentro tremia, mas não recuou.
— Não te estou a dar ordens. Estou a lembrar-te dos factos. A casa é minha. A decisão também.
Ele virou-se de repente, entrou na sala como uma tempestade e bateu a porta com força. Ana ficou no corredor, a olhar para a madeira fechada à sua frente. Sentiu um frio duro instalar-se-lhe no peito. Não era medo, pelo menos não só. Era a consciência nítida de que aquilo já não era uma simples discussão de casal.
A noite passou sem reconciliação. João não saiu da sala. Ana permaneceu na cozinha, preparou chá e sentou-se junto à janela, com a chávena entre as mãos. Lá fora, os candeeiros iluminavam os bancos vazios do pátio, enquanto o vento arrastava folhas secas pelo alcatrão.
Perto da meia-noite, o telemóvel começou a tocar. No ecrã apareceu o nome de Maria. Ana ficou alguns segundos a olhar para a chamada, indecisa. Acabou por atender.
— Ana? — A voz da sogra vinha seca, distante. — O João contou-me que não queres que a gente vá.
— Maria, eu não sou contra uma visita — respondeu Ana com cuidado. — Mas este apartamento é pequeno para seis pessoas.
— Pequeno? Havemos de nos arranjar. O João fica no quarto, eu e a minha irmã dormimos no sofá, os miúdos ficam no chão. Não é nenhuma tragédia.
— Para mim, é desconfortável.
— Desconfortável — repetiu Maria, saboreando a palavra com desprezo. — O meu filho mata-se a trabalhar, sustenta-te, e tu nem a mãe dele és capaz de receber.
— O João trabalha para si próprio — corrigiu Ana. — E sustenta-se a si. Eu também trabalho.
— Trabalhas nessa empresazeca por meia dúzia de euros! O João é que faz tudo para que não te falte nada.
Ana fechou os olhos. Percebeu que argumentar seria inútil.
— Maria, o apartamento pertence-me. Está no meu nome. Portanto, sou eu que decido.
— Decides, pois — disse a sogra, com uma gargalhada curta e amarga. — A verdade é que és egoísta. Herdaste uma casa dos teus pais e nem sequer queres abrir a porta à família do teu marido.
— Só quero passar o Ano Novo em paz. Sem confusão.
— Sem eles, queres tu dizer. Os parentes de sangue do teu marido são apenas “eles” para ti?
Ana desligou antes que a conversa se tornasse ainda mais venenosa. Não havia ali diálogo nenhum. Maria não procurava compreender; queria impor-se.
Na manhã seguinte, João saiu sem lhe dirigir uma palavra. Ana ficou em casa. Tinha folga a meio da semana e decidiu ocupar as mãos para não deixar a cabeça enlouquecer. Limpou o pó, lavou o chão, reorganizou gavetas, separou roupa antiga e endireitou os armários. O esforço físico trouxe-lhe algum alívio.
Por volta do meio-dia, o telemóvel tocou outra vez. Desta vez era Beatriz, a amiga de sempre, aquela que conhecia desde os tempos da escola.
— Então, conta-me lá: como estás? Já não nos vemos há uma eternidade.
— Estou bem — mentiu Ana. — Está tudo normal.
— Estás a mentir. Nota-se logo pela tua voz. O que aconteceu?
Ana suspirou. Depois, contou tudo. A pressão da sogra, os planos para a passagem de ano, a discussão com João, a ameaça de a pôr fora da própria casa. Beatriz ouviu sem interromper, deixando apenas escapar uma ou outra exclamação curta.
— E agora? — perguntou, quando Ana terminou.
— Não sei. O João não fala comigo.
— Mas não vais ceder, pois não?
— Não — respondeu Ana, sem hesitação. — Esta casa é minha. Se eu baixar a cabeça agora, depois será sempre pior.
— Fazes bem — aprovou Beatriz.
