“E chega” — disse Carlos, apalpando os bolsos e saindo, enquanto ela conta as notas e percebe que cem euros terão de bastar

Histórias
Manipulação cruel e injusta que corrói a esperança.

— Cem euros — disse Carlos, abrindo as notas sobre a mesa como quem espalha cartas. — Para o mês inteiro. E chega.

Fiquei a olhar para aquele dinheiro. Duas notas de cinquenta: uma amarrotada, a outra quase nova. Dali tinha de sair a comida, os detergentes, os meus comprimidos para a tensão, os transportes e todo o resto que, por hábito, chamamos “vida”.

— E se não chegar? — perguntei.

— Então aprendes a poupar — respondeu ele, sem sequer se virar. Já vestia o casaco e apalpava os bolsos à procura das chaves da garagem. — Há quem viva com menos e não ande a queixar-se.

Oito anos antes, ouvira-lhe aquela frase pela primeira vez: “Acabou-se o esbanjamento.” Na altura eu tinha comprado umas botas de inverno por quarenta euros, pagos com o meu próprio salário. Carlos fez-me um interrogatório de hora e meia. Para que precisava eu de botas novas, se as antigas ainda aguentavam? Desde esse dia, todos os meses se repetia o mesmo ritual: dinheiro em cima da mesa, uma quantia fixa e ele a sair porta fora.

Eu era contabilista numa empresa de administração de condomínios. Ganhava trezentos e oitenta euros por mês. Não era fortuna, mas também não era nada. Só que o meu ordenado não ficava comigo. Todos os meses transferia duzentos e trinta euros para o banco, por causa dos créditos dele. Dois empréstimos feitos por Carlos em nome próprio: um para comprar um barco, outro para o motor. Por alguma razão, quem pagava era eu.

Como é que aquilo tinha acontecido? Como quase tudo acontece: aos poucos. Primeiro pediu-me que cobrisse “só uma prestação”, jurando que no mês seguinte me devolvia. Não devolveu. Depois pediu outra vez. E outra. Até que simplesmente deixou de pagar. O banco começou a telefonar-me, porque eu constava como contacto. Assustei-me e paguei. E assim continuei durante noventa e seis meses seguidos.

Nessa noite, ele regressou da garagem com uma caixa comprida, embrulhada numa embalagem vistosa, cheia de caracteres japoneses.

— O que é isso? — quis saber.

— Uma cana de pesca — disse, passando as duas mãos pela caixa com um cuidado quase terno, como se acariciasse um gato. — De carbono. Japonesa. Trezentos e oitenta euros. Mas isto dura anos! É um investimento.

Trezentos e oitenta euros. O meu salário mensal inteiro. E para a minha vida toda, ele deixava-me cem.

Eu estava junto ao fogão, a mexer uma sopa feita com pescoços de frango, porque coxas já não cabiam no orçamento. A colher raspava o fundo da panela. Enquanto mexia, fazia contas. Defeito de contabilista: somar tudo, em qualquer lugar, mesmo quando ninguém pede.

Trezentos e oitenta para a cana. Duzentos e trinta para o crédito. Cem para mim. O salário dele era de oitocentos e cinquenta euros. Para onde iam os restantes cento e quarenta? Gasóleo para o jipe. Sauna com os amigos às sextas-feiras. Grades de cerveja. A vida dele, separada da minha e bem mais confortável.

A minha, afinal, valia cem euros por mês. Menos do que um único carreto da cana dele.

Nessa noite não consegui dormir. Fiquei deitada, a ouvir-lhe o ressonar. Depois levantei-me sem fazer barulho, fui à cozinha e tirei do fundo de uma gaveta um caderno antigo, verde, quadriculado, dos tempos do curso de contabilidade. Abri-o na primeira página e escrevi: “Janeiro de 2026. Prestação do crédito de C. — 230 € pagos do meu salário.”

Não tomei nenhuma decisão solene. Apenas registei. Pus por escrito.

Na manhã seguinte, porém, não transferi o dinheiro para o banco. Pela primeira vez em noventa e seis meses.

A aplicação estava aberta. O valor já tinha sido introduzido. O meu dedo pairou sobre o botão “Confirmar”. Fiquei uns quinze segundos a olhar para o ecrã. Depois fechei tudo, guardei o telemóvel no bolso e fui trabalhar.

Três dias mais tarde, chegou uma mensagem ao telefone dele. Carlos estava no duche, e o aparelho tinha ficado na mesa da cozinha, ao lado da minha chávena. O ecrã acendeu-se: “Caro cliente, foi registado incumprimento no seu contrato de crédito…”

Li a mensagem e voltei o rosto para a janela. Ele saiu da casa de banho ainda molhado, com uma toalha à cintura, agarrou no telemóvel e passou os olhos pelo texto. Fez uma careta. Não disse nada. Deve ter pensado que se tratava de algum erro do sistema.

Passou mais uma semana. Uma semana normal. Pequenos-almoços, trabalho, jantares. Ele comprava para si cavala fumada a quatro euros e vinte cada uma. Eu cozia trigo-sarraceno com cebola. Sentávamo-nos à mesma mesa. Ele abria o peixe, retirava-lhe a pele dourada, e o cheiro espalhava-se pela cozinha inteira. No meu prato havia apenas trigo-sarraceno. Sem manteiga, porque a manteiga tinha subido, e cem euros não esticam.

Depois veio a história do champô.

Comprei um frasco por dois euros e oitenta. Um champô simples, de farmácia. Não era importado, nem de marca elegante; era apenas o único que não me deixava o couro cabeludo em ferida nem a caspa a cair sobre os ombros. Já tinha experimentado os baratos. Três marcas diferentes. Com todos eles a cabeça me dava tanta comichão que eu tinha vontade de arrancar a pele com as unhas.

Carlos encontrou o talão dentro de um saco do Pingo Doce. Não estava na carteira. Estava num saco. Ele revistava os meus sacos. Fazia-o havia oito anos.

— Dois euros e oitenta por um champô? — perguntou, segurando o papel com dois dedos, como se fosse algo sujo. — Perdeste o juízo? Há champô a noventa cêntimos. No Lidl, há prateleiras cheias.

— Esse faz-me alergia. Já te expliquei.

— Disparates. Habituas-te. Toda a gente se habitua.

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