“E chega” — disse Carlos, apalpando os bolsos e saindo, enquanto ela conta as notas e percebe que cem euros terão de bastar

Histórias
Manipulação cruel e injusta que corrói a esperança.

Sem lhe responder, fui ao gavetão onde guardava as faturas e os papéis da casa. Remexi até encontrar o comprovativo certo e coloquei-o ao lado do talão que ele ainda segurava.

Quarenta e um euros. Combustível. Depósito atestado.

— O que é isto? — perguntou Carlos.

— O talão da gasolina. Teu. De anteontem.

— E então? Tenho de ir trabalhar!

— O teu emprego fica a sete quilómetros daqui. Um depósito cheio dá para mais de seiscentos quilómetros. Chegava-te para três semanas. Mas tu abasteces todas as semanas. Quatro vezes por mês. Portanto, andas para outros lados. À barragem, a casa do Rui, à pesca. Quarenta e um euros vezes quatro dá cento e sessenta e quatro euros por mês. Só em gasolina. Mas eu não posso comprar um champô de dois euros e oitenta.

A cara dele ficou vermelha. Não era vergonha. A vergonha, em Carlos, tinha outro feitio: ele baixava os olhos, desviava a cara. Desta vez, não. Olhava-me de frente, e o rubor subia-lhe do pescoço para a testa, espesso, quase roxo. A veia da têmpora começou a latejar.

— Eu trabalho! — a voz dele cresceu, dura. — Tenho direito a gastar o meu dinheiro!

— Tu recebes oitocentos e cinquenta euros. Eu recebo trezentos e oitenta. Dos meus trezentos e oitenta, duzentos e trinta vão para o teu crédito. Ficam-me cento e cinquenta. Tu dás-me cem “para a casa”. Cinquenta guardo para os medicamentos da minha mãe. Para mim, sobra zero. Zero euros, Carlos. Há oito anos.

Ele saiu e bateu com a porta com tanta força que, da prateleira do corredor, caiu uma moldura. O vidro estalou, sem se desfazer. Era a fotografia do nosso casamento. Mil novecentos e noventa e oito. Eu com vinte e quatro anos, ele com vinte e seis. Os dois a sorrir. Os dois sem saber de nada.

Apanhei a moldura do chão e voltei a pô-la no lugar. A racha atravessava a imagem mesmo entre nós: ele à esquerda, eu à direita.

Regressei à cozinha e abri o caderno verde.

“Fevereiro. Champô — 2,80 €. Gasolina C. — 41 €. Diferença: catorze vezes e meia. Escândalo por causa dos meus 2,80.”

Apertei tanto a esferográfica que os nós dos dedos ficaram brancos. Ainda assim, a letra saiu direita. Trinta anos de prática não desaparecem de um dia para o outro.

À noite, a minha filha telefonou. Sofia vivia em Braga e trabalhava como designer de interiores. Tinha vinte e seis anos, um quarto alugado, o seu próprio ordenado.

— Mãe, estás tão calada. O que se passa?

— Cansaço. Muito trabalho.

— Foi outra vez o pai? Por causa do dinheiro?

Endireitei os óculos. As lentes estavam limpas, mas aquele gesto já me morava nos dedos: quando fico nervosa, empurro a armação para cima, sobre o nariz.

— Não, filha. Está tudo bem.

— Mãe. Eu oiço.

Ela sempre ouvira. Mesmo em miúda percebia que a mãe cortava o próprio cabelo por cima do lavatório, enquanto o pai chegava de quinze em quinze dias com mais uma caixa de iscos e amostras.

— Falamos depois — disse eu, antes de desligar.

Às sextas-feiras, Carlos não falhava o banho de vapor por nada deste mundo. Eram sempre os mesmos quatro: ele, o Rui, o Manuel e o Pedro. Carne grelhada, cerveja, conversa sobre motores, linhas, anzóis e peixe.

De dois em dois ou de três em três meses, o grupo juntava-se lá em casa. No quintal, debaixo do telheiro. Carne no grelhador, pepinos da horta, pão, molhos. E a tina de madeira para os mergulhos — de cedro, seiscentos euros, instalada três anos antes. Também a crédito. Também paga por mim.

A carne para as espetadas, essa, Carlos comprava-a sem pestanejar. Aí não havia economia: três quilos de cachaço de porco, quilo e meio de novilho, marinada, molhos, pão sírio. Cinquenta, sessenta euros de uma vez. A mim cabia-me levar a travessa com os legumes cortados e o pão. Não porque me apetecesse. De manhã, ele atirara-me a ordem:

— Põe a mesa como deve ser. Não me deixes ficar mal à frente dos homens.

Ficar mal. À frente dos homens. À frente da mulher que vivia com cem euros por mês, isso já não fazia diferença.

Levei os pratos. Manuel, pesado e calado, fez-me um aceno. Rui, o mais novo do grupo, murmurou:

— Obrigado, dona Ana.

Pedro encheu o copo de cerveja e ficou em silêncio.

Carlos mastigava a carne, recostado na cadeira. Satisfeito, solto, de barriga cheia. Desapertara o botão de cima da camisa. No pulso, reluzia o relógio enorme — um Casio de duzentos e vinte euros, presente que oferecera a si próprio no último aniversário. Se as contas fossem feitas a sério, o presente tinha saído do meu bolso.

— Sabem lá vocês a dona de casa que eu tenho — disse ele, espetando o garfo no ar na direção da casa, como se eu estivesse para lá da parede. Mas eu estava a três metros, com o tabuleiro vazio nas mãos. — Cem euros por mês e ela orienta-se. E consegue, vejam bem! Quem me dera que todos tivessem uma mulher assim.

Rui soltou um riso inseguro. Manuel fixou os olhos no prato. Pedro bebeu um gole de cerveja, olhando para lado nenhum.

— Não, estou a falar a sério — continuou Carlos, embalado pela própria voz. — Eu digo-lhe: uma pessoa tem de viver conforme as posses. A economia é como a pesca, é preciso saber esperar. Mas ela aparece-me com um champô de quase três euros. Uma gastadora!

Riu-se. Sozinho. Os outros não o acompanharam.

Fiquei imóvel, agarrada ao tabuleiro. As pernas pesaram-me de repente, como se me tivessem despejado chumbo dentro dos sapatos. A garganta apertou-se. Durante oito anos engoli aquilo. Noventa e seis vezes recebi dinheiro para a mesa e disse “obrigada”.

Pousei o tabuleiro na ponta da mesa, devagar, com todo o cuidado.

Casa da Encarnação