— Onde raio foi parar o queijo? Ainda ontem à noite comprei um pedaço inteiro, daqueles para fatiar, quase quatrocentos gramas. Trouxe-o de propósito para as sandes, para não ter de cozinhar de manhã.
Ana permanecia imóvel diante do frigorífico escancarado, sentindo uma irritação surda a crescer-lhe por dentro. O ar frio das prateleiras batia-lhe no rosto, mas as faces ardiam como se tivesse febre. Na prateleira do meio, no sítio onde na véspera ficara o bloco pesado de queijo, embrulhado em plástico amarelo, via-se agora apenas meio limão, abandonado, e um frasquinho com restos de polpa de tomate.
— Se calhar comeste e esqueceste-te — veio da sala a voz de João, que andava à procura da outra meia antes de sair para o trabalho. — Ou talvez eu me tenha levantado de noite… Não, espera, só bebi água. Ana, vais mesmo fazer uma tragédia por causa de um pedaço de queijo? Comeu-se, pronto.
Ana fechou devagar a porta do frigorífico. O estalido pareceu demasiado forte no silêncio da manhã. O problema, porém, não era o queijo. Nem o chouriço fatiado que desaparecera três dias antes. Nem sequer o frasco de café solúvel caro, que ficara exatamente a meio enquanto os dois tinham passado o dia fora. O que a inquietava era outra coisa: Ana começava a duvidar da própria memória. Recordava-se com nitidez de tirar os alimentos dos sacos, de os arrumar nas prateleiras, de organizar mentalmente as refeições da semana. Depois, pouco a pouco, esses produtos sumiam-se. Sem barulho, sem explicação, sempre em pequenas quantidades.
— João, eu não era capaz de comer meio quilo de queijo durante a noite — disse ela, entrando na sala e limpando as mãos a um pano. — E tu também não. Rebentávamos. Há aqui qualquer coisa que não bate certo.

João encontrou finalmente a meia debaixo do sofá e, resmungando baixinho, começou a calçá-la. Era um bom marido: calmo, trabalhador, pouco dado a discussões. A única fraqueza dele — que, aliás, considerava uma virtude — era a mãe, Maria.
— Lá estás tu outra vez — murmurou, erguendo para a mulher um olhar cansado. — O que é que queres insinuar? Que temos um duende cá em casa? Ou que a minha mãe anda a tirar coisas? Ana, isso é ridículo. Ela é uma senhora de idade, tem a reforma dela, não lhe falta nada. Vem cá regar as plantas e dar comida ao gato enquanto estamos fora. Está a ajudar-nos. E tu…
— Eu não estou a dizer nada — interrompeu Ana, embora fosse exatamente isso que lhe apetecia dizer. — Só acho estranho. A comida desaparece precisamente nos dias em que ela vem cá. Na terça passada, foi uma embalagem inteira de enchidos. Na quinta, o peito de frango que eu tinha deixado a descongelar para fazer panados. Agora, o queijo.
— Talvez tenha mudado as coisas de sítio — sugeriu João, levantando-se e ajeitando a camisa. — Ou então foi o Tico que levou.
— O gato abriu o frigorífico, tirou um queijo embalado a vácuo e escondeu-o? João, pensa um bocadinho.
— Está bem, estou atrasado — disse ele, dando-lhe um beijo rápido na face, claramente decidido a fugir daquela conversa. — Logo compramos outro queijo. Não te enerves. A minha mãe é uma santa, dava a camisa que tem no corpo a quem precisasse, e tu estás a suspeitar dela como se fosse ladra. Devias ter vergonha, Ana.
Quando a porta se fechou atrás dele, Ana deixou-se cair na cadeira do corredor. Sim, sentia vergonha. Maria tinha sempre aquele ar inofensivo de velhinha frágil: o casaco antigo, a boina de lã, as queixas constantes sobre a tensão e os medicamentos caros. Morava no prédio ao lado e possuía uma cópia das chaves do apartamento deles, “para alguma emergência”, como João insistira desde o início. No princípio, Ana não se opusera. Era prático, caso rebentasse um cano ou se esquecessem do ferro ligado. Mas, ultimamente, aquelas visitas tinham-se tornado frequentes demais.
Ana trabalhava como contabilista numa grande empresa de construção. A profissão exigia rigor, atenção ao detalhe e contas certas; talvez por isso, a sua mania de equilibrar tudo ao cêntimo não a deixasse em paz. Conhecia bem o orçamento da casa. Ela e João estavam a poupar para comprar um carro novo, por isso as despesas de alimentação eram controladas com cuidado. Nos últimos dois meses, contudo, essa parcela começara a crescer sem explicação. O dinheiro desaparecia depressa, enquanto o frigorífico parecia estar sempre meio vazio.
Nessa mesma tarde, ao sair do trabalho, Ana passou pelo supermercado. Os preços estavam pela hora da morte. Ficou algum tempo parada diante do balcão dos produtos de charcutaria, a escolher carne assada para sandes. João gostava de comer pão com carne ao pequeno-almoço. Depois de suspirar, pegou num pedaço mais pequeno. Era preciso cortar em algum lado: para ela, em vez do iogurte preferido, vinha kefir; em vez de salmão ou truta, comprava peixe mais barato.
Ao chegar a casa, arrumou as compras com calma. Desta vez, decidiu fazer uma experiência. Pegou num marcador e desenhou pontinhos minúsculos, quase invisíveis, no fundo de uma lata de paté caro e na embalagem da manteiga. A ideia parecia-lhe absurda, quase uma brincadeira infantil de espiões, mas precisava de saber a verdade.
Nos dois dias seguintes, tudo permaneceu tranquilo: Maria não apareceu.
