Limitou-se a telefonar, queixando-se do mau tempo, como se nada fosse. As embalagens continuavam exatamente onde Ana as deixara. Ao terceiro dia, ela quase se convenceu de que talvez estivesse mesmo esgotada, distraída, a trocar as coisas de sítio sem dar por isso.
Na sexta-feira de manhã, porém, Maria ligou.
— Aninha, bom dia — disse ela, com uma doçura pegajosa na voz. — Hoje vou passar aí perto, tenho de ir à farmácia. Posso entrar um instante para regar as plantas? O João comentou que o vosso ficus anda todo murcho. Tenho pena da pobre planta.
— Maria, eu reguei-o ontem — respondeu Ana, tentando manter a calma.
— Ai, tu fazes tudo à pressa, minha filha. Um bocadinho aqui, outro ali… As plantas precisam de mão, de atenção. Não te preocupes, entro, trato disso e vou-me embora. Queres que deixe uma sopa feita?
— Não, obrigada. Temos comida — cortou Ana, com mais firmeza do que pretendia. A última coisa que queria era a sogra a mandar na sua cozinha.
— Como quiseres. Então está bem, vou andando. Um bom dia, querida.
No trabalho, Ana não conseguiu concentrar-se. Os números dos relatórios dançavam-lhe diante dos olhos. A cada minuto imaginava Maria a meter a chave à porta, a entrar no apartamento como se fosse dona da casa. E depois? Abriria armários? Mexeria nas gavetas? Vasculharia bolsos? Ou seguiria, simplesmente, em linha reta para o frigorífico?
Quando regressou, nem tirou o casaco. Foi direta à cozinha, com o coração a bater-lhe tão alto que parecia preso na garganta.
O frigorífico recebeu-a com um vazio gelado.
O fiambre assado tinha desaparecido. A embalagem da manteiga marcada também. Dos ovos, sobravam apenas dois, perdidos no canto da caixa. Mas o pior foi a lata de ovas de salmão, comprada em promoção e escondida para o Ano Novo no fundo da prateleira, atrás dos frascos de pickles. Também essa sumira.
Ana deixou-se cair no banco da cozinha e tapou o rosto com as mãos. Já não havia graça nenhuma. Aquilo não era engano, nem esquecimento, nem mania de perseguição. Era roubo, puro e descarado. E o mais revoltante era não saber como o provar ao marido. Maria podia jurar que não tocara em nada. Podia dizer que Ana se esquecera de ter comido aquilo, ou até afirmar que a lata nunca existira.
Nessa noite, a conversa foi pesada.
— João, desapareceram as ovas. E a carne. E a manteiga — disse Ana, enquanto ele jantava. Acabara por cozer massa recheada, porque a carne planeada para o jantar já não estava lá.
João pousou o garfo. O rosto fechou-se-lhe.
— Outra vez? Ana, isto começa a assustar-me. Se calhar devias ir ao médico. A um neurologista, talvez. Como é que uma lata desaparece assim?
— A tua mãe esteve cá hoje.
— E então? Veio regar as plantas! Achas mesmo que a minha mãe, uma mulher com estudos, antiga professora, ia roubar comida ao próprio filho? Para quê? Ela tem a reforma dela. E eu ainda a ajudo todos os meses.
Ana ficou imóvel.
— Tu ajudas a tua mãe? Com quanto?
João desviou o olhar, desconfortável.
— Depende… cinquenta, setenta euros. Para medicamentos, contas da casa. Ela vive sozinha, não é fácil.
— Cinquenta ou setenta euros… João, nós temos a prestação da casa para pagar. Não vamos de férias há três anos. E tu andas a dar dinheiro à tua mãe às escondidas?
— É a minha mãe! — explodiu ele. — Não tenho de te prestar contas por cada euro que dou aos meus pais! E pára de a acusar. Se andas esquecida ou se compras sem pensar, não descarregues a culpa nos outros!
Foi a primeira vez, em muito tempo, que se deitaram sem dizer boa-noite. Ana ficou acordada, de olhos presos no teto, ouvindo a respiração ofendida do marido ao lado. Dentro dela, a mágoa começou a transformar-se numa decisão fria. Já não bastava descobrir a verdade. Tinha de a provar. De forma tão clara, tão irrefutável, que João não conseguisse inventar desculpa nenhuma.
No sábado seguinte, Ana foi a uma loja de eletrónica. Passou bastante tempo a falar com o funcionário, explicando que precisava de uma câmara pequena, discreta, capaz de gravar para cartão de memória e ativar-se com movimento.
— Esta serve perfeitamente — disse o rapaz de polo amarelo, entregando-lhe uma caixinha preta. — Grava em HD, apanha som, a bateria aguenta até uma semana. Pode ficar escondida numa prateleira, atrás de livros ou de qualquer objeto.
Assim que voltou para casa, aproveitando o facto de João estar na garagem, Ana pôs mãos à obra. O melhor sítio acabou por ser a prateleira superior do móvel da cozinha, onde guardavam jarras quase nunca usadas e um serviço antigo. Colocou a câmara entre o açucareiro e um frasco de louro, com a lente apontada diretamente para o frigorífico e para parte da bancada. Vinda de baixo, era impossível vê-la; a imagem, porém, ficava perfeita.
Agora só faltava o isco.
No domingo, de propósito e à frente de João, Ana encheu o frigorífico como já não fazia há meses. Comprou chouriço fumado fatiado, um pedaço generoso de queijo de qualidade, outra vez, um quilo de carne de novilho fresca, truta, fruta e uma caixa grande de bombons.
João olhou para tudo aquilo, visivelmente surpreendido.
