“João, eu não era capaz de comer meio quilo de queijo durante a noite” disse ela, desconfiando da própria memória

Histórias
Esta ausência silenciosa é cruelmente perturbadora e injusta.

João passou a mão pelo rosto, como se tentasse afastar uma névoa.

— Mas para que é que ela quer tanta coisa? — murmurou, quase mais para si do que para Ana. — Onde mete aquilo tudo? Ela vive sozinha.

Ana encolheu os ombros, sem energia para procurar desculpas.

— Talvez dê às vizinhas. Talvez venda. Ou talvez guarde tudo, como quem acumula provisões para o fim do mundo. A esta altura, João, isso já nem interessa. O que interessa é que ela entra na nossa casa, leva o que quer e depois olha-nos nos olhos como se nada fosse.

Foi então que, da entrada, veio o som inconfundível de uma chave a rodar na fechadura.

Os dois ficaram imóveis e trocaram um olhar. Maria, ao que parecia, esquecera-se de alguma coisa. Ou então decidira fazer uma segunda visita.

— Joãozinho? Aninha? Estão por casa? — ouviu-se a voz animada da sogra, demasiado alegre. — Ia a passar aqui perto e pensei: deixa-me lá entrar um bocadinho, ver como eles estão.

Entrou na cozinha com o sorriso já preparado. Mas esse sorriso morreu-lhe nos lábios assim que viu a expressão do filho e da nora. O portátil continuava aberto sobre a mesa, e no ecrã via-se a imagem parada: Maria, diante do frigorífico escancarado, com sacos cheios nas mãos.

Ela seguiu o olhar deles. Reconheceu-se. Num segundo, a máscara de avó bondosa desapareceu. O rosto endureceu, os olhos estreitaram-se, e havia nela qualquer coisa de animal encurralado, pronto a atacar.

— Que porcaria é esta? — guinchou. — Vocês andam a espiar-me? Tiveram coragem de filmar a própria mãe? Isto é crime! Isto dá tribunal!

João levantou-se devagar. Ana nunca lhe ouvira aquele tom: baixo, firme, gelado.

— Mãe, pousa os sacos.

— Que sacos? — Maria apertou-os contra o corpo. — Eu não levei nada! Isso foi montado! Vocês prepararam isto tudo para me humilhar! Foi ela, não foi? A tua mulher é uma víbora, sempre me odiou!

João aproximou-se até ficar mesmo à frente dela.

— Eu vi a gravação. Vi-te a tirar carne, peixe, detergente. Vi tudo. Porquê? Eu dou-te dinheiro. Se precisas de alguma coisa, dizes-me e eu compro. Porque é que tens de vir aqui roubar? A nós? À Ana?

Maria percebeu que negar já não servia de nada. Endireitou as costas, ergueu o queixo, e a raiva brilhou-lhe nos olhos.

— Roubar? — repetiu, com desprezo. — Tens lata para dizer isso à tua mãe? Eu criei-te! Passei noites sem dormir por tua causa! Dei-te a minha vida inteira! E agora fazes contas por causa de um bocado de carne? Tudo o que existe nesta casa também é meu, ouviste? Tu és meu filho. Tens obrigação de me sustentar como deve ser. E essa aí… — apontou para Ana com o dedo rígido — essa é de fora. Hoje é mulher, amanhã sabe-se lá. Mãe só há uma.

— Esta é a minha família, mãe — respondeu João, sem levantar a voz. — A minha e a da Ana. Este é o nosso dinheiro, a nossa casa, as nossas compras. Tu não tens o direito de entrar aqui e vasculhar as prateleiras como se isto fosse a tua despensa.

Maria abriu a boca, escandalizada.

— Ah, então agora falas assim comigo? Bem me parecia. Estás feito um pau-mandado! Um trapo! Ela deu-te a volta à cabeça e pôs-te contra a tua mãe. Pois engasguem-se com a vossa carne!

Virou-se de rompante e saiu para o corredor. A porta da rua bateu com tanta força que até pareceu estremecer a parede.

João deixou-se cair numa cadeira e cobriu a cara com as mãos.

— Meu Deus… que vergonha — sussurrou.

Ana aproximou-se e pousou-lhe os braços sobre os ombros. Tinha pena dele, uma pena funda, porque sabia que naquele instante João estava a enterrar uma imagem que amara durante anos. Mas, ao mesmo tempo, dentro dela abriu-se um alívio imenso. O abcesso tinha finalmente rebentado. Acabavam-se as meias-palavras, o queijo que desaparecia, as contas que não batiam e aquela sensação horrível de estar a perder o juízo.

No dia seguinte, sem grandes discursos, João trocou a fechadura da porta. Durante uma semana não telefonou à mãe. Maria também não apareceu. Provavelmente esperava, ofendida e teatral, que o filho fosse rastejar até ela com pedidos de desculpa. Mas João não foi.

Cerca de um mês depois, Ana encontrou por acaso uma vizinha da sogra, a tia Rita, à porta de uma mercearia.

— Ai, Aninha! — chilreou a mulher, satisfeita por ter novidade. — A dona Maria anda tão generosa! Está sempre a oferecer coisas: ora enchidos, ora salmão, ora não sei quê. Diz que o filho ganha muito bem, que a mima tanto que ela já nem sabe onde pôr tanta comida. Que sogra cuidadosa te calhou!

Ana limitou-se a sorrir de lado.

— Pois é, tia Rita. Cuidadosa, sem dúvida. Só que agora o cuidado dela fica à distância.

A relação com Maria nunca voltou a ser o que tinha sido. João telefonava-lhe nos aniversários e nas festas principais. De vez em quando levava-lhe compras, mas era ele quem as comprava, quem as entregava em sacos fechados, e nunca mais lhe abriu a porta de casa como antes. Dinheiro na mão, também deixou de dar. As contas da luz, da água e do condomínio passaram a ser pagas por ele pela internet, sem discussões e sem envelopes.

Maria, claro, contou à família inteira a sua versão: a nora bruxa tinha-lhe roubado o filho, envenenara-lhe a cabeça e destruíra uma relação linda. Ana soube disso por terceiros e não perdeu uma noite de sono. Já tinha gastado demasiada energia a duvidar de si própria.

O importante era o silêncio bom que voltara a existir dentro da casa. O frigorífico mantinha-se cheio durante a semana. O dinheiro deixava de se evaporar sem explicação e, pela primeira vez em muito tempo, conseguiram reservar uns dias de férias junto ao mar. Nada luxuoso, nada exagerado — apenas uns dias de descanso, sem listas de compras misteriosamente incompletas.

Quanto à câmara, Ana não a deitou fora. Guardou-a no fundo de uma gaveta, embrulhada num saco, para o caso de algum dia voltar a fazer falta. A vida tinha-lhe ensinado que a paz doméstica, às vezes, precisava de provas muito concretas.

Mas de uma coisa ela tinha a certeza: a sua casa e a sua família não voltariam a ser pisadas. Se, aos olhos dos outros, isso a transformava numa “víbora” ou numa mulher “mesquinha”, paciência. Ana aceitava o título sem vergonha nenhuma.

Sobretudo agora que, finalmente, havia queijo para pôr nas sandes.

Casa da Encarnação