“João, eu não era capaz de comer meio quilo de queijo durante a noite” disse ela, desconfiando da própria memória

Histórias
Esta ausência silenciosa é cruelmente perturbadora e injusta.

— Vamos ter visitas? — perguntou João, ainda a olhar para aquela abundância como se tivesse entrado na cozinha errada.

Ana sorriu, com uma naturalidade cuidadosamente ensaiada.

— Não. Só achei que já chegava de pouparmos à custa da saúde. Recebi um prémio pequeno no trabalho e apeteceu-me comprar umas coisas melhores.

Ela sabia perfeitamente o que viria a seguir. João não guardava novidades da mãe. Contava-lhe tudo, sem maldade, sem perceber que cada comentário inocente funcionava como um aviso. Se dissesse que havia carne boa no frigorífico, Maria ficaria a saber. Se mencionasse bombons, queijo ou peixe, a informação chegaria ao destino certo.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Nessa noite, enquanto falava com a mãe ao telefone, João comentou, todo satisfeito:

— Sim, a Ana recebeu um prémio e encheu o frigorífico. Comprou carne ótima, amanhã quer fazer um estufado. Se quiseres passar por cá, mãe, aparece. Sempre comes connosco qualquer coisa.

Ana, que fingia arrumar a bancada, ouviu tudo em silêncio.

Na segunda-feira, antes de saírem para o trabalho, ligou a câmara. Fechou a porta de casa com a sensação de estar a deixar uma armadilha montada. Durante o dia inteiro, mal conseguiu concentrar-se. Olhava para o relógio de poucos em poucos minutos, imaginando se Maria já teria entrado, se estaria naquele momento na cozinha, se a câmara teria captado tudo como devia.

João, pelo contrário, estava bem-disposto. Mandou-lhe até uma imagem engraçada pelo telemóvel, fazendo piada com o estufado que o esperava ao jantar. Ana sentiu um aperto no peito. Ele não fazia ideia da pancada que estava prestes a levar.

Ao fim da tarde, chegaram juntos. Assim que abriram a porta, um cheiro doce e enjoativo espalhou-se pelo corredor. Era o perfume da sogra, inconfundível, daqueles aromas pesados que ficavam no ar horas depois de a pessoa sair.

— Ah, a minha mãe esteve cá — disse João, animado. — Deve ter vindo regar as plantas.

Ana não respondeu. Foi direta à cozinha. Nem sequer abriu o frigorífico. Pegou no escadote, colocou-o junto ao armário alto e subiu para retirar a pequena câmara que escondera ali.

João ficou parado à entrada, confuso.

— O que estás a fazer? Porque é que estás a subir aí?

— Senta-te, João — disse ela, com uma calma tensa. A voz estava firme, mas os dedos tremiam ligeiramente. — Há uma coisa que precisamos de ver.

— Ver o quê? Ana, não me digas que fizeste isso outra vez… Tu puseste uma câmara? Estás a falar a sério? Isto já é doença. Andar a espiar a minha mãe dentro da nossa casa?

— Se ela não tirou nada, não tens motivo para te preocupar — respondeu Ana, seca. — Mas, se tirou, então convém que vejas com os teus próprios olhos.

Introduziu o cartão de memória no portátil. João ficou atrás dela, a respirar fundo, irritado. Na cabeça dele, a mulher tinha passado todos os limites, dominada por uma desconfiança absurda e mesquinha.

A imagem da cozinha apareceu no ecrã. No canto, a hora marcava 11h30.

A porta abriu-se. Maria entrou no enquadramento. Não vinha de robe nem com ar de quem passava apenas para dar uma vista de olhos. Trazia um casaco de rua e, em cada mão, uma grande sacola de compras, daquelas fortes, aos quadrados, próprias para carregar peso.

Primeiro, aproximou-se de facto da janela. Tocou na terra do vaso do ficus com a ponta dos dedos. João soltou um som breve, quase triunfante.

— Estás a ver? Eu não te disse?

Mas Maria não pegou em regador nenhum. Virou-se logo de seguida e avançou para o frigorífico com a segurança de quem se serve em casa própria. Abriu a porta de par em par.

No vídeo, via-se nitidamente o rosto dela iluminar-se num sorriso satisfeito. Pousou as sacolas no chão e começou, sem pressa, de forma metódica, a transferir o conteúdo das prateleiras para dentro delas.

O queijo foi o primeiro. Depois, as fatias de chouriço fumado. A seguir, tirou o saco com a carne de novilho, segurou-o por uns segundos, avaliou-lhe o peso, e meteu-o também numa das sacolas.

— Mãe… — murmurou João, num sopro. A voz falhou-lhe.

Maria continuou como se nada fosse. Levou a truta, a embalagem de manteiga e, abrindo a gaveta dos legumes, retirou metade dos tomates e dos pepinos.

Ainda assim, aquilo não lhe bastou. Fechou o frigorífico e passou aos armários. Para dentro das sacolas foram um pacote de chá, um frasco de café, a caixa de bombons que Ana tinha comprado para acompanhar o café e, para horror dela, até um pacote já aberto de detergente da roupa que estava encostado num canto.

— Para que é que ela quer detergente? — sussurrou João, atordoado. — Eu comprei-lhe cinco quilos na semana passada…

No ecrã, Maria ajeitou o saque, empurrou tudo para caber melhor e fechou os fechos das sacolas com dificuldade. Via-se que estavam pesadas. Gemeu ao levantá-las. Antes de sair, porém, fez algo que acabou de desmontar João por dentro: tirou do bolso do casaco uma maçã já trincada, que trouxera consigo, deixou-a em cima da mesa e, em troca, pegou na taça das bolachas. Despejou-as para dentro do bolso como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Depois apagou a luz e foi-se embora.

A gravação terminou. Na cozinha instalou-se um silêncio duro, quase cortante. Só se ouvia o zumbido baixo do frigorífico, o mesmo frigorífico que, mais uma vez, ficara praticamente vazio.

João afastou-se devagar e sentou-se no parapeito da janela. Baixou a cabeça e ficou calado. Ana reparou no movimento tenso dos músculos do maxilar dele. Doía-lhe. A imagem da mãe perfeita, generosa e incapaz de qualquer gesto feio, aquela imagem que ele carregara a vida inteira, estava a desfazer-se diante dele.

— Ela rouba-nos… — disse por fim, com a voz rouca. — Não é por necessidade. Não é por passar fome. É simplesmente porque quer. Como uma praga.

Ana encostou-se à bancada, cansada.

— Ela acha que tem esse direito — respondeu, em voz baixa. — Na cabeça dela, tudo o que é teu também lhe pertence. E eu, aqui, sou apenas um acrescento.

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