Às seis da manhã, Ana já voltara para a cozinha e retomara o serviço. A certa altura percebeu, com estranheza, que nem sequer sentia raiva. Limitava-se a cumprir uma tarefa, como quem lava o chão ou dobra roupa.
Perto da hora de almoço, apareceu Sofia. Ao ver a mesa coberta de caixas, travessas e saladeiras, assobiou baixinho.
— Vais abrir um restaurante?
— É para a família do João. Para o Ano Novo.
— E tu?
— Fico aqui. Sozinha. Não me convidaram, mas encomendaram-me a comida.
Sofia sentou-se no banco da cozinha e ficou algum tempo sem dizer nada.
— Há uma coisa que eu devia ter-te contado há anos. Lembras-te do teu casamento? Ouvi sem querer a Maria a falar com uma amiga, perto da casa de banho. Disse: “O nosso João arranjou uma simplória. Enfim, ao menos sabe cozinhar. Para a cozinha serve.”
Ana imobilizou-se. A faca ficou suspensa sobre a tábua.
— Guardaste isso durante doze anos?
— Achei que não me competia. Desculpa. — Sofia esfregou a ponta do nariz, nervosa. — Mas olhar para isto agora dá-me a volta ao estômago. Vais mesmo entregar-lhes tudo e passar o Ano Novo sozinha?
— Vou.
Sofia saiu pouco depois, batendo a porta.
Às sete da tarde, o telefone tocou. Era Maria, com aquela voz doce e pegajosa, como rebuçado derretido.
— Aninha, minha querida, estive a pensar… talvez pudesses acrescentar camarões. E umas ovas de salmão. Afinal é Ano Novo, vêm pessoas importantes. O João depois acerta contigo.
Depois. Um dia. De alguma forma. Em doze anos, João nunca lhe devolvera um cêntimo gasto nas refeições das festas da família.
— Está bem, Maria. Eu trato de tudo.
Ana desligou. Sentou-se no sofá e ficou ali uns dez minutos, de olhos presos num ponto qualquer da parede. Depois levantou-se, vestiu o casaco e saiu.
Na farmácia da esquina comprou dois frascos de um laxante forte, sem cheiro e sem sabor.
De regresso a casa, abriu a primeira caixa de gelatina de carne. Deixou cair algumas gotas no caldo e mexeu devagar com uma colher. Fechou. Passou à salada de arenque com maionese, depois à salada russa, à mimosa, ao molho do peixe. As mãos mantiveram-se firmes, sem o menor tremor.
