Por dentro, havia apenas um vazio. Frio, límpido, quase sereno.
Quando terminou, o relógio marcava onze horas. Ana atirou os frascos para o balde do lixo, apertou bem o saco e levou-o ao contentor da rua.
João apareceu à uma da manhã, cambaleante de bêbedo. Deixou-se cair na cama sem sequer perguntar como ela estava. Ana deitou-se ao lado dele e dormiu de um sono pesado, sem sonhos.
Na manhã de dia trinta e um, João começou logo a apressá-la mal entrou na cozinha.
— Despacha-te lá. Onde está a comida? A minha mãe disse para eu levar tudo antes do almoço. Vão começar a pôr a mesa.
Agarrou nos sacos, levou-os para o carro, arrumou tudo na bagageira. Bateu a tampa com força, virou-se e gritou:
— Pronto, vou andando! Tu desenrasca-te por aí!
Nem uma palavra de felicitação.
Ana levantou a mão num aceno breve. O carro desapareceu ao virar da esquina.
Depois voltou para casa, fez café e ligou a televisão. Passou o dia inteiro no sofá. A casa estava silenciosa, e aquela calma parecia quase irreal. Sofia telefonou três vezes, insistindo para que ela fosse ter consigo, mas Ana recusou sempre. Naquele dia, precisava de ficar sozinha.
À meia-noite, tocou com a taça de espumante no ecrã, onde o Presidente dirigia a mensagem de Ano Novo ao país. Depois sentou-se junto à janela e ficou a ver o fogo de artifício. As luzes rebentavam sobre a cidade, intensas, rápidas, destinadas a desaparecer.
Às duas da manhã, o telemóvel começou a vibrar.
— O QUE É QUE TU METESTE NAQUILO?!
João berrava tão alto que Ana afastou o aparelho do ouvido.
— O que aconteceu?
— ISTO AQUI É UM INFERNO! Está tudo enfiado na casa de banho! A minha mãe, a minha irmã, os convidados todos! As crianças choram, há gente a vomitar, ninguém consegue sair! O marido da minha irmã borrou-se mesmo à mesa! Foi tudo embora, a festa acabou! O que é que tu fizeste?!
Ana bebeu um pequeno gole da taça.
— Fiz exatamente o que a Maria pediu. Comida caseira, feita com dedicação. Pelos vistos, o vosso organismo já não aceita comida de estranhos. Foste tu que disseste: vocês têm o vosso círculo.
— Tu… fizeste de propósito?
A voz dele quebrou-se.
— Eu sou só a cozinheira, João. A mulher da cozinha, lembras-te? A simplória que servia para isso. Foi assim que a tua mãe me chamou no dia do nosso casamento. Há doze anos.
Do outro lado, fez-se silêncio.
— Como é que tu soubeste?
