“Também não cabias lá, pois não? O apartamento da minha mãe não estica” disse João, erguendo finalmente a cabeça com ar de quem tinha ouvido uma pergunta absurda

Histórias
É dolorosamente injusto ser presente e nunca convidada.

— Isso já não tem importância. O que importa é que finalmente percebi qual é o meu lugar. E, acredita, não é dentro da vossa família.

Ana levantou-se devagar e aproximou-se da janela. Lá fora, os foguetes ainda riscavam o céu, rebentando em clarões coloridos.

— Já agora, feliz Ano Novo. Tu nem isso te lembraste de me dizer.

Desligou a chamada e pousou o telemóvel com o ecrã virado para baixo.

João só regressou na manhã de dois de janeiro. Vinha amarrotado, com a pele baça e um ar de quem não dormira.

— A minha mãe está no hospital. Desidratação. A minha irmã não me dirige a palavra. Os convidados foram-se todos embora, nem sequer se despediram — murmurou, sem conseguir encará-la. — Foi um inferno. Uma festa com efeitos secundários, pelos vistos.

Ana segurava uma chávena de café junto à janela.

— É pena, claro.

— Tu achas mesmo que isto é normal?

Ele levantou finalmente os olhos.

— E tu achas normal manter uma mulher, durante doze anos, no papel de criada? Achas normal impedir-me de me sentar à mesa com a tua família? Obrigar-me a gastar o pouco que tinha em comida para pessoas que sempre me trataram com desprezo?

João não respondeu.

— Sabes o que é mais absurdo? Eu ainda teria perdoado. Bastava que uma única vez tivesses ficado do meu lado. Uma vez só. Que dissesses à tua mãe que eu era a tua mulher, não a cozinheira de serviço. Mas calaste-te. Durante doze anos inteiros.

— Eu não pensei que isso te magoasse tanto…

— Exatamente. Não pensaste. Nunca pensaste em mim.

Ana tirou o casaco dele do cabide e estendeu-lho.

— Veste-te. Vai ter com a tua mãe, ela precisa de ti. Eu, entretanto, vou decidir se ainda quero um marido que só consegue ver em mim alguém para lhe pôr comida na mesa.

João pegou no casaco. Ficou imóvel por instantes, como se procurasse palavras. Não encontrou nenhuma. Acabou por se vestir e sair.

Ana fechou a porta atrás dele e encostou-se ao aro. O silêncio da casa parecia enorme. Mas, desta vez, não a esmagava. Pelo contrário: entrava-lhe no peito como ar limpo, como se finalmente tivesse largado um peso carregado há demasiado tempo.

Do outro lado da janela, a manhã estava fria, clara e serena. O ano novo acabara de começar. E, desta vez, pertencia-lhe.

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