“Então, Pedro, não sabia que gostavas de mulheres com curvas.” assobiou João, arrancando um sorriso forçado dela e um silêncio pesado à mesa

Histórias
Comportamento intolerável, doloroso e profundamente humilhante.

que João reservara para aquela noite. Havia uma mesa comprida, toalhas brancas, músicos a tocar ao vivo. Maria apareceu com um vestido novo e mantinha-se discreta, quase apagada, como de costume. João, pelo contrário, ocupava o centro de tudo. Bronzeado, sorriso perfeito, camisa de trezentos euros. Abraçava quem chegava, batia nas costas dos homens, beijava a mão das mulheres. Um homem encantador, para quem não o conhecesse bem demais.

Pousei a caixa numa mesa à parte e levantei a tampa. O bolo parecia iluminar-se sozinho. Os fios de caramelo brilhavam sob as lâmpadas, finos como vidro dourado. Alguns convidados aproximaram-se logo, telemóveis na mão, a tirar fotografias.

— Quem fez isto? — perguntou uma mulher de vestido cor de vinho.

— Fui eu — respondi.

— É pasteleira?

— Sou.

João aproximou-se nesse instante. Olhou para o bolo. Depois olhou para mim.

— Ana — disse ele, num tom alto o suficiente para todos ouvirem —, o bolo está impressionante, não há dúvida. Mas se calhar devias gastar menos creme contigo, não achas?

Riu-se da própria piada e virou-se para os convidados.

— A nossa Ana adora doces. Nota-se, não nota?

E ainda me deu uma palmada no ombro, como se tivesse acabado de dizer uma graça inocente.

Fiquei ali, ao lado de um bolo de quase quatro quilos, feito durante seis horas, enquanto vinte pessoas me observavam. Alguns desviaram o olhar. Outros esticaram um sorriso desconfortável. Maria baixou os olhos para o copo, como se houvesse ali alguma coisa muito interessante.

Dentro de mim, alguma coisa fechou. Não foi raiva, exatamente. Foi mais seco. Como o estalido de uma fechadura.

— João — disse eu, com a voz surpreendentemente calma —, este bolo custa cento e vinte euros. Levei seis horas a fazê-lo. Acabaste de insultar a pessoa que te trouxe um presente feito à mão. Por isso, vou levá-lo de volta.

E fechei a caixa.

O silêncio ficou tão espesso que se ouvia, algures na cozinha, uma torneira a pingar.

— Estás a falar a sério? — João piscou os olhos.

— Completamente.

Peguei na caixa. Quatro quilos. As mãos não me tremeram. Dei meia-volta e caminhei para a saída.

Pedro alcançou-me no parque de estacionamento.

— Ana, espera.

— Espero no carro.

— Ele não quis dizer aquilo. Foi só…

— Pedro — interrompi, pousando a caixa sobre o capô —, ele “só” faz isto há sete anos. Em todos os encontros. À frente de toda a gente. Eu já não quero continuar a fingir que isto é normal. Vamos embora.

Fomos. Na manhã seguinte levei o bolo para a pastelaria. Vendeu-se em menos de uma hora.

Pedro não disse palavra durante todo o caminho. Já em casa, comentou:

— Ele ficou ofendido.

— Eu também — respondi.

Nessa noite, sentei-me sozinha na cozinha. Lá fora, a rua estava quieta. Bebia chá e pensava que cento e vinte euros não eram uma fortuna. Seis horas também não eram uma vida inteira. Mas vinte pessoas terem visto eu recolher o meu próprio presente, isso era diferente. Não sabia se tinha agido bem. Ainda assim, mantinha as costas direitas. E isso, naquele momento, já significava alguma coisa.

Duas semanas depois, João telefonou como se nada tivesse acontecido. Convidava-nos para uma festa junto à piscina. “Desta vez sem bolos”, brincou.

Eu não queria ir. De verdade. Disse a Pedro que não ia. Ele acenou com a cabeça. Mas, dois dias depois, voltou ao assunto.

— Ana, vão lá estar o Rui e a Inês. E o Tiago também. Há séculos que não estamos todos juntos. Não te estou a pedir que faças as pazes com o João. Só te peço que vás comigo. Por mim.

Por ele. Oito anos de “por ele”. Todos os feriados, todos os fins de semana combinados, todas as festas idiotas. Fiz as contas: em sete anos, tínhamos estado com João umas sessenta vezes. Oito, talvez dez encontros por ano. E nunca houve um único sem uma observação sobre o meu peso, a minha comida, o meu corpo, a minha roupa.

Sessenta encontros. Sessenta pequenas humilhações. E, de cada vez, eu sorria, ou calava-me, ou desaparecia para outra divisão. Depois, Pedro dizia sempre: “Ele não faz por mal.”

Acabei por ir.

João tinha uma casa fora da cidade. Terreno grande, piscina, zona de churrasco. Tudo bonito, tudo caro. Ele gostava de exibir aquilo: vejam bem até onde cheguei. Espreguiçadeiras brancas, luzes dentro de água, colunas com música. Dezoito convidados. Conhecia metade; a outra metade nunca tinha visto.

Vesti um fato de banho fechado e, por cima, uma túnica. Uso o cinquenta e dois, sim. Sou grande. Sei disso todos os dias, quando me levanto, quando me visto, quando vou trabalhar, quando administro cinco pastelarias e pago o salário a trinta e dois funcionários. O meu peso é o meu peso. Não é assunto dele.

A primeira hora correu sem sobressaltos. João andava ocupado com o grelhador e com os recém-chegados. Eu fiquei numa espreguiçadeira, a beber limonada, a conversar com a Inês. Gostava dela. Também era forte e também aguentava as piadas de João, embora menos vezes, porque só se viam duas ou três vezes por ano.

Depois João veio ter connosco. Trazia um copo na mão e o sorriso de sempre. Bronzeado, em forma, satisfeito consigo próprio. Parou ao meu lado.

— Ana, então? Não vais à piscina? A água está ótima.

— Não me apetece — respondi.

— Vá lá, Ana.

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