“Então, Pedro, não sabia que gostavas de mulheres com curvas.” assobiou João, arrancando um sorriso forçado dela e um silêncio pesado à mesa

Histórias
Comportamento intolerável, doloroso e profundamente humilhante.

— Deixa-te disso! Está toda a gente a tomar banho. Ou tens medo de que a piscina deixe de ter espaço?

Ouviu-se uma risadinha. Depois outra. Talvez duas ou três pessoas. As restantes fingiram não ter percebido.

Não lhe dei resposta. Virei-me outra vez para Inês e retomei a conversa, como se nada tivesse acontecido. Pensei que passaria. Como passava sempre. João largava a maldade, eu engolia em seco, a noite acabava e nós íamos embora.

Mas ele não se afastou. Continuou atrás da minha espreguiçadeira. Eu sentia-lhe a sombra sobre mim.

Foi então que ele berrou, alto o suficiente para atravessar o jardim inteiro:

— Sua gorda idiota! Salta lá para a água de uma vez!

E empurrou-me.

Com as duas mãos nas minhas costas. Com força. Eu estava junto à borda, porque acabara de me levantar da espreguiçadeira para me afastar dele.

Depois foi só água. O impacto a bater-me no corpo inteiro. O cloro a entrar-me pelo nariz. A túnica encharcou-se num segundo e começou a pesar, a puxar-me para baixo. Vim à tona, agarrei-me à borda. Tinha os ouvidos a zumbir. Vi-o lá em cima, de pé, a rir-se, de braços abertos, naquele gesto de inocência ensaiada: “Eu estava só a brincar!”

Dezoito pessoas estavam a olhar.

Algumas riam. Outras mantinham-se caladas. Pedro vinha a correr do grelhador na minha direção. Maria parecia uma parede caiada, imóvel e branca.

Saí da piscina sozinha. Sem aceitar mão nenhuma. A túnica molhada colava-se-me à pele. O cabelo grudara-se à testa. No bolso da túnica, o telemóvel estava morto. Oitocentos euros reduzidos a um peso inútil dentro de um pano encharcado.

Agarrei numa toalha que estava na espreguiçadeira mais próxima. Enrolei-a nos ombros. Limpei a cara. As minhas mãos não tremiam. Isso, mais do que tudo, surpreendeu-me.

— João — disse eu, com uma voz tão plana que nem parecia minha. — Acabaste de me empurrar para dentro da piscina. Sem o meu consentimento. Estragaste-me o telemóvel. Custou oitocentos euros. Espero a transferência até amanhã.

Ele deixou de rir por uma fração de segundo. Só uma. Depois voltou a abrir aquele sorriso elástico.

— Ana, estás a exagerar. Foi uma piada. Compra outro.

— A transferência até amanhã — repeti. — Caso contrário, apresento queixa na polícia. Isto não foi uma piada, João. Foi agressão física.

Fez-se silêncio. Até a música, que continuava a tocar algures, pareceu baixar de volume.

Pedro estava ao meu lado. Também molhado, porque saltara para me ajudar, embora eu já tivesse conseguido sair.

— Vamos embora — disse ele.

E, pela primeira vez em sete anos, não acrescentou: “Ele não fez por mal.”

No carro, sentei-me em cima de uma toalha. A água escorria para o banco. Eu estava encharcada, furiosa e calma. Uma combinação estranha. Havia raiva, sim, mas não ardia. Era fria, limpa, nítida como uma manhã de inverno.

João não transferiu dinheiro nenhum. Nem no dia seguinte. Nem três dias depois. Nem ao fim de uma semana. Em compensação, escreveu a Pedro: “Diz à tua mulher para parar com as histerias. Uma brincadeira é uma brincadeira. E ainda devia agradecer por eu a aturar nos nossos encontros.”

Pedro mostrou-me a mensagem sem dizer palavra.

Li-a. E alguma coisa dentro de mim deslocou-se de vez. Não se partiu. Foi mesmo isso: deslocou-se. Como uma alavanca que, finalmente, encaixa na posição certa.

Uma semana depois, organizámos um jantar em nossa casa. Meio social, meio profissional. Convidei dois possíveis parceiros para a franquia. Pedro chamou alguns colegas. E João meteu-se ao barulho sozinho. Telefonou a Pedro: “Ouvi dizer que têm aí uma reunião. Eu apareço com a Maria.” Pedro perguntou-me. Eu respondi que sim, que viesse.

Éramos doze à volta da mesa comprida.

A nossa sala. A mesma sala. Eu passara dois dias a cozinhar. Não porque quisesse impressionar João. Isso já não me interessava. Cozinhei porque entre os convidados estavam Silva e Santos, donos de uma rede de cafés em Aveiro, que estudavam a possibilidade de entrar na minha franquia. Aquele jantar importava. Importava mesmo.

João chegou com a sua camisa de marca, uma garrafa de vinho de vinte euros e Maria ao lado. Abraçou Pedro, fez-me um aceno de cabeça e sentou-se. Durante a primeira hora portou-se como uma pessoa normal. Contou anedotas, falou das férias na Turquia, elogiou a comida. Por um instante, cheguei a pensar que talvez o episódio da piscina lhe tivesse ensinado qualquer coisa.

Enganei-me.

À sobremesa, servi tartaletes com creme de frutos vermelhos, também feitas por mim. João encostou-se à cadeira, com o copo de tinto na mão e os olhos brilhantes de álcool e satisfação.

— A Ana, já agora, não é só excelente a cozinhar. Também é excelente a comer — disse ele, virando-se para Silva. — Pedro, diz lá, quanto é que ela consegue despachar de uma vez?

Silva levantou uma sobrancelha.

Santos pousou o garfo no prato.

Eu estava sentada na outra ponta da mesa. À minha frente, uma tartalete intacta. Creme de frutos vermelhos. Tinha-o preparado nessa manhã, devagar, ao lume, mexendo até ganhar o ponto certo. Quatro horas na cozinha. Dois dias de preparação. Possíveis parceiros de negócio. A minha casa. A minha mesa. A minha comida.

E aquele homem outra vez.

Dentro de mim, tudo ficou muito silencioso. Não era raiva. Era silêncio. Aquele silêncio exato que aparece um segundo antes de se tomar uma decisão.

Levantei-me sem pressa. Peguei no telemóvel novo, comprado para substituir o que ele tinha afogado. Oitocentos euros pagos do meu bolso, porque João nunca transferira nada.

— Sofia —

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