“Então, João, afinal gostas de mulheres com fartura.” disse Bruno, rindo-se e humilhando Ana à frente do marido

Histórias
A humilhação constante era intolerável e revoltante.

— Ana, se eu fosse a ti não mexia nesse prato. Tem salada com maionese. Sabes que isso não te faz nada bem — atirou Bruno, sem sequer levantar os olhos da carne que virava na churrasqueira. E ainda se riu.

Éramos doze sentados à mesa, no terraço de verão da nossa casa. Havia espetadas que eu preparara desde manhã, com uma marinada que levei três anos a aperfeiçoar até ficar exatamente como queria. A tal salada, já agora, também tinha sido feita por mim.

Bruno era assim havia sete anos. Desde o primeiro dia em que João o levou lá a casa para nos apresentar. Bruno mediu-me de alto a baixo, assobiou baixinho e comentou: “Então, João, afinal gostas de mulheres com fartura.” Na altura, forcei um sorriso. Convenci-me de que era uma piada. De mau gosto, sim, mas uma piada.

Enganei-me.

Eu e João casámo-nos há oito anos. Eu tinha quarenta; ele, trinta e oito. Para ambos, era o segundo casamento. João trabalhava como engenheiro num gabinete de projetos e eu, nessa altura, já tinha aberto a segunda loja da Doce Ofício, a minha rede de pastelarias. Minha mesmo. Criada do zero, sem empréstimos, sem dinheiro de pai, sem atalhos. Durante três anos, cada euro que entrava voltava a ser investido no negócio. Quando nos casámos, eram duas lojas. Hoje são cinco.

Bruno era amigo de João desde a primeira classe. Cresceram juntos, foram juntos para a tropa, iam pescar todos os anos em outubro. Para João, Bruno era quase família. Eu sabia disso. Foi por isso que aguentei tanto tempo.

Bruno tinha uma agência de publicidade: Brisa Media. Faziam logótipos, embalagens, campanhas digitais, gestão de imagem. Para ser justa, trabalhavam bem. Só havia uma coisa que ele desconhecia. Seis anos antes, eu precisei de contratar uma empresa para renovar a marca da rede: nova identidade visual, embalagens, menus, letreiros. A minha gestora, Catarina, apresentou-me três propostas. Uma delas era da Brisa Media. Tinham o melhor preço e prometiam os melhores prazos. Assinei o contrato através da sociedade, a Confeitaria Plus, Lda. Catarina ficou como contacto responsável. Durante seis anos, Bruno prestou serviços à minha empresa sem fazer a menor ideia de que a mulher do melhor amigo era quem lhe pagava.

Quarenta e oito mil euros por ano. Era esse o valor anual que eu destinava à agência dele. Desenho dos menus, campanhas sazonais, decoração das novas lojas, redes sociais. Todos os meses, quatro mil euros, certos como um relógio.

João sabia. Pedi-lhe que não contasse nada a Bruno. Eu não queria misturar amizade com negócios. E João guardou segredo.

Bruno, por seu lado, continuou a fazer as suas graçolas.

Nessa noite, no terraço, coloquei no centro da mesa a última travessa — legumes assados — e sentei-me ao lado de João. Bruno já servia o vinho. Sofia, a mulher dele, estava à minha frente, de olhos presos no prato. Era sempre assim que ela ficava quando o marido começava.

— Ana, ao menos no verão podias emagrecer um bocadinho — disse Bruno, enquanto lhe estendia um copo. — Chegas a vestir fato de banho ou escondes-te logo debaixo de uma túnica?

A mesa calou-se. Alguém tossiu, sem saber onde pôr os olhos. João pousou a mão no meu joelho. O gesto de sempre. “Tem paciência. Ele não faz por mal.”

Peguei no copo e encarei Bruno.

— Bruno, por acaso sabes que a tua agência ainda não liquidou o empréstimo do escritório? — perguntei, com a voz serena, como quem menciona a previsão do tempo.

Eu sabia porque Catarina, certo dia, comentara que eles tinham atrasado a entrega de alguns materiais e justificaram-se com problemas relacionados com a renda.

O sorriso dele vacilou. Só por um instante. Depois, soltou uma gargalhada.

— E tu lá sabes alguma coisa sobre o meu escritório? — perguntou, rodando o copo entre os dedos. — Foi o João que te contou? Grande irmão, sim senhor.

João não respondeu.

Terminei o vinho. Bruno mudou de assunto: futebol, férias, o carro novo. O repertório habitual. E eu disse a mim mesma: pronto, mais uma vez. Não era a primeira. Eu sobreviveria.

Mais tarde, quando todos já se tinham ido embora, fiquei a lavar a loiça. João aproximou-se por trás e abraçou-me.

— Desculpa-o. Ele é mesmo assim.

— Eu sei muito bem como ele é — respondi. — Mas “ele é mesmo assim” não serve de desculpa.

João beijou-me a nuca e foi deitar-se. Eu continuei parada diante do lava-loiça. A água quente corria-me pelas mãos, mas eu não sentia calor nenhum. Só cansaço. Sete anos das mesmas piadas. Sete anos dos mesmos pedidos de desculpa de João. Sete anos do mesmo silêncio desconfortável à mesa.

Um mês depois, Bruno telefonou. Convidou-nos para o aniversário dele. Fazia quarenta e dois anos.

Eu fiz um bolo. Talvez tenha sido uma estupidez. Mas sou pasteleira; é o que sei fazer. Preparei um bolo de três andares, com cobertura de chocolate e decoração em caramelo. Seis horas de trabalho. Merengue à parte, recheio à parte, enfeites à parte. No fim, pesava quase quatro quilos.

João levou a caixa até ao carro com todo o cuidado, como se transportasse uma criança.

— Está lindo — disse ele. — O Bruno vai ficar sem palavras.

Bruno ficou, de facto, sem palavras. Mas não da maneira que imaginávamos.

Havia vinte pessoas convidadas. A comemoração foi num restaurante.

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