Bruno tinha alugado uma sala para a noite inteira: uma mesa comprida, toalhas brancas, música ao vivo ao fundo. Sofia, como sempre, estava discreta, com um vestido novo e os olhos baixos. Bruno, pelo contrário, ocupava o centro de tudo. Bronzeado, sorriso impecável, camisa de trezentos euros. Abraçava quem chegava, dava palmadas nas costas dos homens, beijava a mão das mulheres. Um homem encantador — para quem não o conhecesse de perto.
Pousei a caixa numa mesa à parte e levantei a tampa. O bolo parecia aceso por dentro. Os fios de caramelo brilhavam sob a luz dos candeeiros. Alguns convidados aproximaram-se logo, telemóveis na mão.
— Quem fez isto? — perguntou uma mulher de vestido cor de vinho.
— Fui eu — respondi.
— É pasteleira?
— Sou.
Bruno aproximou-se, olhou primeiro para o bolo, depois para mim.
— Ana — disse ele, com aquele tom meio divertido —, o bolo está realmente impressionante. Só era melhor não gastares tanto creme contigo própria, não achas?
Riu-se. Depois virou-se para os convidados.
— A nossa Ana adora doces. Nota-se, não nota?
E ainda me deu uma palmada no ombro, como se tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo.
Fiquei ali, ao lado de um bolo de quase quatro quilos, feito durante seis horas, com vinte pessoas a olhar para mim. Houve quem desviasse a vista. Houve quem sorrisse por obrigação. Sofia ficou entretida a observar o fundo do copo.
Dentro de mim, alguma coisa se fechou. Não foi propriamente raiva. Foi mais nítido do que isso. Como o estalido de uma fechadura.
— Bruno — disse eu, com uma calma que até a mim me surpreendeu —, este bolo vale cento e vinte euros. Levei seis horas a fazê-lo. Acabaste de insultar a pessoa que te trouxe um presente feito à mão. Por isso, vou levá-lo de volta.
Fechei a tampa.
O silêncio caiu tão pesado que se ouvia, algures na cozinha, uma torneira a pingar.
— Estás a falar a sério? — Bruno piscou os olhos.
— Completamente.
Peguei na caixa. Quatro quilos. As mãos não me tremeram. Virei costas e caminhei para a saída.
João alcançou-me no parque de estacionamento.
— Ana, espera.
— Espero no carro.
— Ele não quis dizer aquilo. Foi só…
— João — interrompi, pousando a caixa sobre o capô —, ele “só” faz isto há sete anos. Em todos os encontros. À frente de toda a gente. Eu já não quero fingir que é normal. Vamos embora.
Fomos. Na manhã seguinte levei o bolo para a pastelaria. Foi vendido em menos de uma hora.
João não disse palavra durante todo o caminho. Em casa, limitou-se a comentar:
— Ele ficou ofendido.
— Eu também — respondi.
Nessa noite, sentei-me sozinha na cozinha. Lá fora, tudo estava quieto. Bebia chá e pensava que cento e vinte euros não eram nada de especial. Seis horas, no fundo, também passam. Mas vinte pessoas terem visto eu retirar o meu próprio presente — isso era novo. Não sabia se tinha agido bem. Mas estava de costas direitas. E, naquele momento, isso já era qualquer coisa.
Duas semanas depois, Bruno telefonou como se nada tivesse acontecido. Convidava-nos para uma festa à beira da piscina. “Desta vez, sem bolos”, brincou.
Eu não queria ir. De verdade. Disse a João que não ia. Ele acenou com a cabeça. Dois dias mais tarde, porém, voltou ao assunto:
— Ana, o Miguel e a Inês vão estar lá. O Tiago também. Já não estamos juntos há imenso tempo. Não te estou a pedir que faças as pazes com o Bruno. Só te peço que vás comigo. Por mim.
Por ele. Oito anos “por ele”. Cada feriado, cada fim de semana combinado, cada festa idiota. Fiz as contas: em sete anos, tinha estado com Bruno umas sessenta vezes. Oito, dez encontros por ano. E não houve um único em que ele não tivesse feito algum comentário sobre o meu peso, a minha comida, o meu corpo ou a minha roupa.
Sessenta encontros. Sessenta pequenas humilhações. E, em todas elas, eu sorria, calava-me ou desaparecia para outra divisão. Depois, João dizia sempre: “Ele não faz por mal.”
Acabei por ir.
Bruno tinha uma casa nos arredores, com terreno, piscina e zona de grelhados. Tudo bonito, tudo caro. Gostava de mostrar aquilo como quem dizia: vejam bem até onde cheguei. Espreguiçadeiras brancas, luzes dentro da piscina, colunas espalhadas pelo jardim. Havia dezoito convidados. Conhecia metade; a outra metade, nem por isso.
Vesti um fato de banho fechado e, por cima, uma túnica. Tamanho cinquenta e dois — sim, sou uma mulher grande. Sei disso. Sei-o todos os dias quando me levanto, quando me visto, quando vou trabalhar, quando administro cinco pastelarias e pago o salário a trinta e dois funcionários. O meu peso é meu. Não era assunto dele.
A primeira hora correu sem sobressaltos. Bruno estava ocupado com o grelhador e com as pessoas que iam chegando. Eu fiquei numa espreguiçadeira, a beber limonada e a conversar com Inês. Gostava dela. Também era corpulenta e também aguentava as piadas de Bruno, embora com menos frequência, porque se viam apenas duas ou três vezes por ano.
Depois, Bruno veio ter connosco. Trazia um copo na mão e um sorriso preparado. Bronzeado, em forma, seguro de si. Parou ao meu lado.
— Ana, então não vais à piscina? A água está ótima.
— Não me apetece — respondi.
Bruno inclinou-se ligeiramente, já com aquele ar de quem se preparava para insistir.
