“Bem, Pedro, afinal tens queda por mulheres com curvas.” disse João, rindo-se e deixando Ana humilhada à mesa

Histórias
Comentários cruéis e condescendentes destruíram minha confiança.

— É a Ana. Sim, eu sei que já é tarde. Ouve, amanhã de manhã quero que prepares a comunicação formal de rescisão de todos os contratos ativos com a Brisa Media. Todos, Catarina. Design, redes sociais, campanhas sazonais, tudo. O motivo: qualidade insatisfatória na comunicação com o cliente. Sim, para as cinco lojas. Sim, tenho a certeza. Arranjamos outra agência ainda esta semana. Obrigada.

Desliguei e deixei o telemóvel pousado sobre a mesa.

Depois olhei para João.

Ele ainda não tinha percebido. Não totalmente. Fitava-me com aquela expressão de quem vê alguém conhecido começar, de repente, a falar numa língua que nunca ouviu.

— Ana… — murmurou ele. — Mas o que é que te deu?

— João — respondi, sem levantar a voz —, a Confeitaria-Plus é minha. A rede Doce Ofício também. Cinco confeitarias. Trinta e dois funcionários. Há seis anos que a tua agência vive de encomendas minhas. Quarenta e oito mil euros por ano. Quase metade da tua faturação. Eu confirmei.

Vi-lhe a cara alterar-se aos poucos, como se alguém fosse acendendo luzes dentro dele. Primeiro, confusão. A seguir, cálculo. Depois, entendimento. E, por fim, medo.

— Espera lá… — Ele pousou o copo depressa demais, e o vinho saltou para a toalha. — A Confeitaria-Plus és tu? A Catarina é a tua gestora?

— Há seis anos — disse eu. — Durante seis anos fizeste publicidade para a minha rede. E, durante sete, insultaste-me sempre que tiveste oportunidade. Empurraste-me para uma piscina. Humilhaste-me diante dos meus parceiros de negócio. Na minha própria casa.

Silva permanecia imóvel, como se qualquer movimento pudesse fazer a sala explodir. Santos olhava para João com uma expressão que eu reconheci de imediato: a mesma que se reserva a um inseto encontrado dentro do prato.

— Ana, vá lá, espera — João levantou-se. As mãos tremiam-lhe. Pela primeira vez em todos aqueles anos, vi-lhe as mãos tremerem. — Isto é trabalho. Não vamos misturar as coisas. Eu e o Pedro somos amigos. Eu não sabia. A sério, eu não fazia ideia!

— Não sabias que a Confeitaria-Plus era minha — concordei. — Mas sabias perfeitamente que eu era uma pessoa. E isso nunca te interessou.

Maria continuava sentada, muda, com os olhos pregados no colo. Como sempre.

Pedro olhava para mim. Não tentou interromper-me. Não me pediu calma. Não me mandou deixar passar.

Pela primeira vez em oito anos, não me travou.

— Ana… — João deu um passo na minha direção. — Vamos conversar. Não aqui. A sós. Eu posso…

— Não — cortei. — Durante sete anos achaste aceitável rebaixar-me à frente de toda a gente. Hoje respondo-te também à frente de todos. Os contratos vão ser rescindidos. A decisão está tomada.

Voltei a sentar-me. Peguei numa tartelete e dei uma dentada.

O creme de frutos vermelhos estava perfeito: a baunilha suave, a acidez da framboesa no ponto certo. Senti, quase com surpresa, uma satisfação limpa. Aquela tartelete tinha saído exatamente como eu queria.

João ficou no meio da minha sala, com a mancha de vinho a alastrar na toalha e uma cara que eu nunca lhe tinha visto. Depois virou-se e saiu. Maria levantou-se logo a seguir e foi atrás dele.

A porta de entrada bateu.

Durante alguns segundos, ninguém disse nada.

Bebi o resto da água.

Silva pigarreou, ajeitou o guardanapo e declarou, com uma prudência quase cómica:

— Dona Ana, tenho de admitir… a sua proposta de franchising é, de facto, bastante interessante.

Sorri.

Foi o primeiro sorriso verdadeiro daquela noite.

Mais tarde, quando os convidados se foram embora, fiquei com Pedro a levantar a mesa. Ele juntava pratos em silêncio, eu recolhia copos. A cozinha cheirava a vinho, açúcar e flores murchas.

Durante muito tempo, não disse nada. Depois, pousou uma travessa e falou:

— Tens noção de que agora ele me vai ligar todos os dias?

— Tenho.

— E eu digo-lhe o quê?

— A verdade. Que veio à minha casa e foi mal-educado com a dona da casa.

Pedro deixou um prato dentro do lava-loiça. Ficou uns segundos parado, de costas para mim. Depois voltou-se.

— Eu devia tê-lo travado há muito tempo.

Não respondi.

Porque sim. Devia.

Mas não o fez.

E isso também fazia parte da história.

Passaram dois meses.

João perdeu os meus contratos. Quarenta e oito mil euros por ano não desaparecem sem deixar marca. Teve de dispensar três pessoas. Mudou-se para um escritório mais pequeno. Soube disso por Pedro, que continuou a visitá-lo de quinze em quinze dias.

Ao que parece, João anda a dizer a toda a gente que eu sou “vingativa” e que “me aproveitei da situação”. Diz também que “misturei o pessoal com o profissional” e que “um verdadeiro empresário não age assim”.

Talvez tenha razão.

Ou talvez um verdadeiro empresário não empurre uma cliente para dentro de uma piscina.

Encontrei outra agência. Trabalham tão bem como a anterior. Talvez até melhor. E, curiosamente, são educados. Estranho, não é? Descobri que é possível gerir campanhas, criar anúncios e promover uma marca sem insultar quem paga a fatura.

Pedro continua a ver João sozinho. Não o proíbo. É amigo dele, a escolha é sua.

Mas João nunca mais se sentou à nossa mesa.

E eu estou tranquila.

Pela primeira vez em sete anos, verdadeiramente tranquila.

Só há uma pergunta que, de vez em quando, ainda me volta à cabeça.

Exagerei ao cancelar os contratos diante dos parceiros dele? Ou foi João que cavou aquilo, ano após ano, encontro após encontro, depois de sessenta humilhações, do “gorda estúpida” e da piscina?

E vocês, no meu lugar, o que teriam feito?

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