A mulher ouviu, por acaso, a conversa entre o marido e a sogra e, ao amanhecer, decidiu fazer as malas.
Ana despertou com vozes abafadas vindas da cozinha. No mostrador do relógio passava da uma e meia. Ficou imóvel na cama, de olhos abertos, perguntando-se quem poderia estar acordado àquela hora. Pouco depois, distinguiu claramente a voz da sogra.
— João, até quando vais continuar a suportar isto? — sibilava Maria. — Ela já te subiu completamente à cabeça!
Ana ficou gelada. De quem estariam a falar?
— Mãe, fala mais baixo. A Ana está a dormir — respondeu o marido, num tom contido.

— Quero lá saber! Que ouça! Talvez assim perceba, de uma vez, o que anda a fazer!
O coração de Ana começou a bater com tanta força que lhe pareceu que o som ecoava pela casa inteira. Agora não tinha dúvidas: a conversa era sobre ela.
— Ontem disse-lhe que era preciso descascar as batatas. Sabes o que me respondeu? Que as descascava quando entendesse! Já viste uma falta de respeito destas? A mim, com a minha idade!
— Mãe, por favor…
— Não a defendas! Ando calada há trinta e cinco anos! Pensei que um dia ela ganhasse juízo e entendesse quem manda nesta casa. Mas está cada vez pior!
Ana fechou os olhos. Meu Deus, de que estava aquela mulher a falar? Que história era aquela das batatas? No dia anterior, tinha passado horas a limpar, a cozinhar, a tratar da roupa. E agora o problema resumia-se a batatas?
— E olha bem para ela — continuou a sogra. — Anda pela casa como se fosse uma princesa! Mas sabe fazer o quê, afinal? Cozinhar em condições, não sabe. Levar uma casa, muito menos…
— Mãe, já chega.
— Não chega coisa nenhuma! João, tu és homem ou quê? Desde quando permites que a tua mulher te diga o que deves fazer?
— Ninguém me diz o que tenho de fazer!
— Ai não? Lembro-me muito bem de quando quiseste trocar de carro. Ela foi contra. Depois pensaste comprar uma casa de férias. Ela também se opôs. Em tudo tens de pedir a opinião dela!
Sentada na cama, Ana ficou de boca entreaberta. Que carro? Que casa de férias? Tinham decidido tudo juntos, sempre. Ou será que ela se enganara durante todos aqueles anos?
— Sabes o que eu acho? — A voz de Maria baixou, mas tornou-se ainda mais venenosa. — Ela não te dá valor. Nem um bocadinho.
— Mãe…
— Não me venhas com “mãe”! Eu vejo muito bem! Tu trabalhas como um burro de carga, e ela? Deita-se no sofá a ver televisão!
Ana engoliu o ar com dificuldade. No sofá? A ver televisão? Aquela mulher era cega? Ou fingia não reparar que ela passava os dias inteiros a correr de um lado para o outro, sem descanso?
— E ainda por cima é ingrata! — acrescentou a sogra. — Fiz tanta coisa por ela! Quando esteve doente, fui eu que cuidei dela. Quando vos faltou dinheiro, fui eu que ajudei. E agora ainda se acha no direito de responder!
— Ninguém respondeu torto, mãe.
— Respondeu, sim! Ontem perguntei-lhe porque não atendia o telefone. Disse-me que estava ocupada! Ocupada! Com quê, gostava eu de saber?
Ana recordou o dia anterior. Cinco chamadas perdidas da sogra. Era verdade, não atendera. Estava junto ao fogão, a preparar o almoço para a família toda.
— João — prosseguiu Maria, quase num murmúrio — não achas que está na altura de mudares alguma coisa?
— O que queres dizer com isso?
— Quero dizer que deves falar com ela a sério. Explicar-lhe como uma mulher deve comportar-se. Porque ela pensa que pode fazer tudo o que lhe apetece!
— Mãe, estamos juntos há trinta e cinco anos…
— Precisamente! Há trinta e cinco anos que aguentas! E ela? O que fez por ti? Nem os filhos educou como devia, e a casa está sempre um desastre…
Ana apertou os punhos sob o cobertor. Os filhos? Teriam eles crescido sozinhos? E a casa… Meu Deus, como podia aquela mulher dizer semelhante coisa?
— Não estou a dizer que a ponhas fora — continuou Maria. — Mas tens de a pôr no lugar dela. Tem de saber qual é a posição que ocupa.
Seguiu-se um silêncio comprido. Ana prendeu a respiração, à espera da resposta do marido.
— Está bem, mãe. Já é tarde. Vai dormir.
— Pensa no que te disse, João. Pensa bem.
Ouviu-se o arrastar das pantufas pelo corredor e, logo depois, uma porta a bater. O marido foi à casa de banho, regressou ao quarto e deitou-se. Passados poucos minutos, respirava de forma calma e regular.
Ana, porém, continuou a olhar para o teto. O sono tinha desaparecido por completo.
De manhã, João levantou-se como se nada se tivesse passado. Assobiou alegremente no duche, tomou o pequeno-almoço e ficou a ler as notícias no telemóvel.
