“Ela já te subiu completamente à cabeça!” sibilou a sogra na cozinha enquanto Ana, ouvindo, decidiu fazer as malas ao amanhecer

Histórias
Silêncio covarde, injustiça doméstica simplesmente intolerável.

— João — disse Ana, pousando-lhe a chávena de café à frente. — Precisamos de falar.

— Hum-hum — respondeu ele, sem sequer levantar os olhos do telemóvel.

— Estou a falar a sério. Temos mesmo de conversar.

— Logo à noite, Ana. Hoje não dá, estou com pressa. Tenho uma apresentação importante.

João deu-lhe um beijo rápido na face e saiu. O mesmo beijo de sempre. A mesma manhã de sempre. Como se a conversa da noite anterior nunca tivesse existido.

Ana ficou sentada à mesa, a olhar para o café que ele deixara a meio. Como era possível viver assim? Partilhar a mesma casa com uma pessoa durante tantos anos e, ainda assim, ela continuar a não nos ver de verdade?

Às nove em ponto, o telefone tocou. Era Maria.

— Ana, porque é que ontem não atendeste as minhas chamadas?

— Estava ocupada.

— Ocupada! — bufou a sogra, com desdém. — E posso saber com o quê, assim tão importante?

Ana calou-se. Não valia a pena explicar. Maria nunca iria compreender.

— Escuta — continuou ela —, hoje passo aí por casa. Há um assunto que precisamos de tratar.

— Que assunto?

— Quando eu chegar, saberás. Lá para o meio-dia estou aí.

A chamada caiu. Ana ficou com o telefone na mão, a olhar para o ecrã já apagado, e naquele instante percebeu que não aguentava mais. Não suportava continuar a ouvir sermões todos os dias, não suportava aquelas acusações permanentes, não suportava viver numa casa onde falavam dela como se fosse uma intrusa.

Levantou-se e foi para o quarto. Do fundo do armário tirou a mala antiga, a mesma que tinham comprado para a lua de mel. Estava coberta de pó e a pega já se encontrava meio solta.

Começou a arrumar as coisas. Devagar, com cuidado. Vestidos, blusas, roupa interior. As mãos tremiam-lhe, mas ela não parou.

“Para onde é que eu vou?”, pensou. “Para casa da Inês? A minha filha vai ficar em choque. Vai perguntar: mãe, vocês discutiram? E eu digo-lhe o quê? Que, para o pai e para a avó, eu não passo de uma inútil?”

Juntou fotografias dos filhos, alguns documentos, os livros de que mais gostava. A mala revelou-se pequena demais. Trinta e cinco anos de vida cabiam, afinal, dentro de uma única mala.

Sentou-se na beira da cama e começou a chorar. Sem gritos, sem soluços, apenas em silêncio.

Pouco depois, a campainha da entrada tocou. Maria chegara mais cedo do que tinha anunciado.

— Abre! — ordenou pelo intercomunicador.

Ana limpou as lágrimas com as costas da mão e foi abrir a porta. A sogra entrou no corredor como um comandante a avançar para a batalha.

— Então, vamos conversar? — disse, dirigindo-se de imediato para a cozinha. Sentou-se à mesa e apontou para a cadeira em frente. — Senta-te.

Ana obedeceu. Ficou diante daquela mulher e, enquanto a observava, ocorreu-lhe um pensamento estranho: “Foi disto que eu tive medo durante trinta e cinco anos?”

— Muito bem — começou Maria, ajeitando a postura. — Ontem falei com o João. Falei longamente com ele.

— Eu ouvi.

— Ouviste? — Maria franziu o sobrolho. — Ótimo. Então já sabes do que se trata.

— Não propriamente.

— Ana — disse a sogra, adotando um tom falsamente paciente —, tu és uma mulher inteligente. Não me digas que não percebes o que se passa.

— E o que é que se passa?

— Tu mudaste. Mudaste muito. Ficaste… teimosa.

Ana manteve-se calada.

— Antes, tu escutavas-me. Aceitavas os meus conselhos. Agora? Agora respondes-me!

— Quando é que eu lhe respondi?

— Sempre! Ontem, por exemplo! Perguntei-te porque não atendeste o telefone e tu foste malcriada comigo!

— Eu disse apenas que estava ocupada.

— Exatamente! Nesse tom! — Maria bateu com a palma da mão na mesa. — E anteontem foi igual. Eu disse que a sopa estava salgada demais e tu ficaste muda. Nem sequer pediste desculpa!

Ana olhou para ela, espantada consigo própria. Como é que durante tantos anos não tinha visto aquele absurdo com clareza?

— Maria — disse, com uma calma que nem ela esperava. — A senhora chegou a comer a sopa?

— O que é que isso tem que ver com o assunto?

— Comeu ou não comeu?

— Bem… provei.

— Provou uma colher. Só uma. E decidiu que estava salgada.

— Sim. E então?

— O João comeu o prato inteiro. E ainda repetiu.

Por um segundo, Maria pareceu perder o domínio da situação, mas recuperou depressa.

— Por educação! O meu João é delicado, não quer magoar ninguém!

— Compreendo — respondeu Ana, levantando-se. — Maria, eu tenho de ir.

— Ir aonde? Ainda não acabámos esta conversa!

— Acabámos, sim.

Ana saiu da cozinha e dirigiu-se para o corredor, onde a mala a esperava junto à parede.

— O que é isto? — perguntou Maria, ficando imóvel, de olhos arregalados, a encarar a mala com espanto.

Casa da Encarnação