— Tu não percebeste mesmo nada.
— O que é que eu não percebi? — João sentou-se ao lado dela no banco do corredor, como se de repente lhe faltassem as forças. — Explica-me, Ana.
Ela olhou para ele com atenção. As têmporas já salpicadas de branco, os olhos gastos, as pequenas rugas no rosto. Aquele rosto que conhecia de cor. O rosto que amava.
— João — disse, num tom mais baixo. — Tu amas-me?
— Claro que amo! Que pergunta é essa?
— Então porque ficaste calado quando a tua mãe me humilhou?
— Já te disse… tu também não devias ter falado daquela maneira…
— Isso disseste agora, João. Ontem não disseste nada. E não é só de ontem. Há trinta e cinco anos que te calas.
Ele passou a mão pela testa, desconcertado.
— Ana, ela é minha mãe. Como queres que eu seja duro com ela?
— E comigo podes ser?
— Mas o que é que uma coisa tem a ver com a outra?
— Tem tudo! — Ana levantou-se, incapaz de continuar sentada. — Eu também sou uma pessoa. Também sinto. Também me magoo.
João não respondeu. Ficou a olhar para o chão, como se ali pudesse encontrar uma saída.
— Sabes uma coisa? — prosseguiu ela, agora mais firme. — A tua mãe teve razão numa coisa: eu mudei mesmo.
— Mudaste em quê?
— Antes eu tinha medo. Medo de te ferir, medo de contrariar a tua mãe, medo de parecer ingrata. Dizia a mim mesma que aguentava, que um dia ela havia de me aceitar.
— Mas ela aceitou-te há muito tempo.
— Aceitou-me? — Ana soltou uma risada curta, sem alegria. — Aceitou-me como se aceita uma criada: desde que esteja calada, obedeça e faça tudo como mandam.
— Ana, estás a exagerar…
— Não estou. — Tornou a sentar-se e segurou-lhe a mão. — João, ouve-me. Ouve-me mesmo, por favor.
Ele assentiu, devagar.
— Estou cansada de ser sempre a culpada. Cansada de ter de justificar cada palavra que digo. Cansada de viver numa casa onde a minha vontade não conta e onde o respeito por mim parece sempre opcional.
— Eu respeito-te.
— Então porque nunca me defendeste? Em trinta e cinco anos, uma única vez que fosse, disseste à tua mãe: “chega”?
João permaneceu em silêncio durante muito tempo. Por fim, deixou escapar um suspiro pesado.
— Não sei. Talvez… me tenha habituado.
— Exatamente. Tu habituaste-te. Eu é que deixei de conseguir viver assim.
— E agora? — perguntou ele, desviando o olhar para a mala. — Vais mesmo embora?
— Não sei — respondeu Ana, sem dramatizar, mas com toda a sinceridade. — Depende de ti.
— De mim?
— João, eu não quero destruir a nossa família. Mas continuar como até aqui, isso não vou continuar.
— E como queres que seja?
— Quero que sejas meu marido, não o menino da tua mãe. Quero que a minha opinião tenha peso. Quero que a Maria deixe de mandar na nossa casa como se tudo lhe pertencesse.
— Ela não manda…
— Manda, sim. E tu sabes perfeitamente que manda.
João levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, inquieto.
— Ana, como é que eu lhe explico isso? Ela viveu sempre assim. Está habituada…
— Então terá de se desabituar. Isso é com ela.
— Falar é fácil…
— João. — Ana aproximou-se dele e ficou à sua frente. — Tens de escolher. Ou continuamos a deixar a tua mãe governar a nossa vida, ou passamos a governá-la nós. Não há uma terceira hipótese.
Ele ficou calado durante alguns instantes que pareceram longos demais. Depois, puxou-a para si e abraçou-a.
— Está bem. Vamos tentar.
— Tentar o quê?
— Viver de outra maneira. Sem pedir licença à minha mãe para tudo.
— E se ela se ofender?
— Então ofende-se… e depois há de acalmar. Para onde é que ela havia de ir?
Pela primeira vez naquele dia, Ana sorriu.
— Posso guardar a mala?
— Guarda.
Ana levou a mala de volta para o quarto e começou a retirar de lá as roupas que tinha metido à pressa. João ficou encostado ao umbral da porta, a observá-la em silêncio.
— Ana?
— Sim?
— A sopa de ontem estava mesmo boa?
— Estava. Muito boa.
— Eu bem me parecia — disse João, deixando escapar um sorriso. — A mãe é que implicou.
À noite, Maria telefonou. Falou durante bastante tempo com João, numa voz agitada que Ana não conseguia ouvir bem. Apenas apanhava as respostas do marido.
— Não, mãe, não nos zangámos… Sim, está tudo bem… Não, ninguém te está a pôr de parte… Só temos de combinar algumas coisas… Como assim, que coisas? Coisas simples. Falarmos uns com os outros como pessoas.
Quando desligou, João voltou-se para Ana.
— Ela vem cá amanhã. Quer conversar.
— Que venha — respondeu Ana, tranquila. — Mas desta vez a conversa vai ser diferente.
— Diferente como?
— De igual para igual. Eu já não sou uma miúda a quem é preciso ensinar a viver.
João acenou com a cabeça.
— Percebi.
E Ana sentiu, naquele instante, que alguma coisa tinha realmente mudado. Talvez não mudasse tudo de um dia para o outro. Talvez ainda houvesse recuos, silêncios, velhos hábitos a combater. Mas a primeira fenda abrira-se.
E, pela primeira vez em muitos anos, pareceu-lhe que aquela casa podia voltar a ser, de verdade, o seu lar.
