“Ela já te subiu completamente à cabeça!” sibilou a sogra na cozinha enquanto Ana, ouvindo, decidiu fazer as malas ao amanhecer

Histórias
Silêncio covarde, injustiça doméstica simplesmente intolerável.

— Tu não percebeste mesmo nada.

— O que é que eu não percebi? — João sentou-se ao lado dela no banco do corredor, como se de repente lhe faltassem as forças. — Explica-me, Ana.

Ela olhou para ele com atenção. As têmporas já salpicadas de branco, os olhos gastos, as pequenas rugas no rosto. Aquele rosto que conhecia de cor. O rosto que amava.

— João — disse, num tom mais baixo. — Tu amas-me?

— Claro que amo! Que pergunta é essa?

— Então porque ficaste calado quando a tua mãe me humilhou?

— Já te disse… tu também não devias ter falado daquela maneira…

— Isso disseste agora, João. Ontem não disseste nada. E não é só de ontem. Há trinta e cinco anos que te calas.

Ele passou a mão pela testa, desconcertado.

— Ana, ela é minha mãe. Como queres que eu seja duro com ela?

— E comigo podes ser?

— Mas o que é que uma coisa tem a ver com a outra?

— Tem tudo! — Ana levantou-se, incapaz de continuar sentada. — Eu também sou uma pessoa. Também sinto. Também me magoo.

João não respondeu. Ficou a olhar para o chão, como se ali pudesse encontrar uma saída.

— Sabes uma coisa? — prosseguiu ela, agora mais firme. — A tua mãe teve razão numa coisa: eu mudei mesmo.

— Mudaste em quê?

— Antes eu tinha medo. Medo de te ferir, medo de contrariar a tua mãe, medo de parecer ingrata. Dizia a mim mesma que aguentava, que um dia ela havia de me aceitar.

— Mas ela aceitou-te há muito tempo.

— Aceitou-me? — Ana soltou uma risada curta, sem alegria. — Aceitou-me como se aceita uma criada: desde que esteja calada, obedeça e faça tudo como mandam.

— Ana, estás a exagerar…

— Não estou. — Tornou a sentar-se e segurou-lhe a mão. — João, ouve-me. Ouve-me mesmo, por favor.

Ele assentiu, devagar.

— Estou cansada de ser sempre a culpada. Cansada de ter de justificar cada palavra que digo. Cansada de viver numa casa onde a minha vontade não conta e onde o respeito por mim parece sempre opcional.

— Eu respeito-te.

— Então porque nunca me defendeste? Em trinta e cinco anos, uma única vez que fosse, disseste à tua mãe: “chega”?

João permaneceu em silêncio durante muito tempo. Por fim, deixou escapar um suspiro pesado.

— Não sei. Talvez… me tenha habituado.

— Exatamente. Tu habituaste-te. Eu é que deixei de conseguir viver assim.

— E agora? — perguntou ele, desviando o olhar para a mala. — Vais mesmo embora?

— Não sei — respondeu Ana, sem dramatizar, mas com toda a sinceridade. — Depende de ti.

— De mim?

— João, eu não quero destruir a nossa família. Mas continuar como até aqui, isso não vou continuar.

— E como queres que seja?

— Quero que sejas meu marido, não o menino da tua mãe. Quero que a minha opinião tenha peso. Quero que a Maria deixe de mandar na nossa casa como se tudo lhe pertencesse.

— Ela não manda…

— Manda, sim. E tu sabes perfeitamente que manda.

João levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, inquieto.

— Ana, como é que eu lhe explico isso? Ela viveu sempre assim. Está habituada…

— Então terá de se desabituar. Isso é com ela.

— Falar é fácil…

— João. — Ana aproximou-se dele e ficou à sua frente. — Tens de escolher. Ou continuamos a deixar a tua mãe governar a nossa vida, ou passamos a governá-la nós. Não há uma terceira hipótese.

Ele ficou calado durante alguns instantes que pareceram longos demais. Depois, puxou-a para si e abraçou-a.

— Está bem. Vamos tentar.

— Tentar o quê?

— Viver de outra maneira. Sem pedir licença à minha mãe para tudo.

— E se ela se ofender?

— Então ofende-se… e depois há de acalmar. Para onde é que ela havia de ir?

Pela primeira vez naquele dia, Ana sorriu.

— Posso guardar a mala?

— Guarda.

Ana levou a mala de volta para o quarto e começou a retirar de lá as roupas que tinha metido à pressa. João ficou encostado ao umbral da porta, a observá-la em silêncio.

— Ana?

— Sim?

— A sopa de ontem estava mesmo boa?

— Estava. Muito boa.

— Eu bem me parecia — disse João, deixando escapar um sorriso. — A mãe é que implicou.

À noite, Maria telefonou. Falou durante bastante tempo com João, numa voz agitada que Ana não conseguia ouvir bem. Apenas apanhava as respostas do marido.

— Não, mãe, não nos zangámos… Sim, está tudo bem… Não, ninguém te está a pôr de parte… Só temos de combinar algumas coisas… Como assim, que coisas? Coisas simples. Falarmos uns com os outros como pessoas.

Quando desligou, João voltou-se para Ana.

— Ela vem cá amanhã. Quer conversar.

— Que venha — respondeu Ana, tranquila. — Mas desta vez a conversa vai ser diferente.

— Diferente como?

— De igual para igual. Eu já não sou uma miúda a quem é preciso ensinar a viver.

João acenou com a cabeça.

— Percebi.

E Ana sentiu, naquele instante, que alguma coisa tinha realmente mudado. Talvez não mudasse tudo de um dia para o outro. Talvez ainda houvesse recuos, silêncios, velhos hábitos a combater. Mas a primeira fenda abrira-se.

E, pela primeira vez em muitos anos, pareceu-lhe que aquela casa podia voltar a ser, de verdade, o seu lar.

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