“Ela já te subiu completamente à cabeça!” sibilou a sogra na cozinha enquanto Ana, ouvindo, decidiu fazer as malas ao amanhecer

Histórias
Silêncio covarde, injustiça doméstica simplesmente intolerável.

— Perdeste o juízo? — soltou Maria, ainda a olhar para a mala como se ela tivesse aparecido do nada.

— Talvez — respondeu Ana, empurrando a mala para mais perto da porta de entrada.

— Ana! Ana, volta já para aqui! Que disparate é este?

Mas Ana já vestia o casaco. Maria começou a andar de um lado para o outro, aflita, e tentou agarrá-la pela manga.

— Tens consciência do que estás a fazer? O João vai ficar doente com isto! E os miúdos? O que é que os teus filhos vão pensar?

— Os meus filhos já são adultos. Vão compreender.

— Estás louca! Completamente louca! E porquê? Por causa de uma conversa?

Ana virou-se devagar.

— De uma conversa? Maria, a senhora fala comigo assim há trinta e cinco anos.

— Eu sempre falei consigo como deve ser!

— Como deve ser? — Ana soltou uma gargalhada seca. — Lembra-se de quando o Miguel adoeceu? Há dois anos?

— E então?

— Passei três semanas com ele no hospital. Três semanas. E a senhora foi dizer ao João que eu estava lá de propósito, para fugir às tarefas de casa.

— Eu nunca disse uma coisa dessas!

— Disse, sim. E disse-mo na cara. E quando a Inês defendeu a tese? Lembra-se? Comprou um vestido novo, estava tão bonita… e a senhora comentou que era uma vergonha gastar dinheiro, porque os pais dela eram uns forretas.

Maria ficou encarnada.

— Isso… isso não foi assim.

— Foi exatamente assim. E há dezenas de exemplos. Centenas, Maria. Centenas.

Nesse instante, ouviu-se a chave a rodar na fechadura. João tinha chegado.

— Boa tarde! — anunciou ele, bem-disposto, do corredor. — Hoje consegui sair mais ce… — calou-se assim que viu a mala. — O que se passa aqui?

— A tua mulher enlouqueceu! — precipitou-se Maria. — Quer ir-se embora!

João olhou para Ana, depois para a mãe e, por fim, para a mala junto à porta.

— Ana, isto é a sério?

— É.

— Mas porquê? O que aconteceu?

— Não sabes?

— Não!

— João — Ana sentou-se no pequeno banco do corredor. — Ontem estiveste a falar com a tua mãe. Lembras-te?

O rosto dele perdeu a cor.

— Tu… ouviste?

— Ouvi tudo. Que eu sou ingrata. Que preciso de ser posta no meu lugar. Que não te dou valor.

— Ana, não foi… nós não…

— Não foi o quê? — Ela levantou-se. — Não disseram isso? Ou não estavam a falar de mim?

— A mãe estava irritada por causa do que aconteceu ontem…

— Por causa de ontem? — Ana explodiu. — Porque eu não atendi o telefone? Eu estava a cozinhar para vocês! O vosso almoço!

— Ana, acalma-te…

— Não me vou acalmar! Sabes qual é a verdade, João? Durante trinta e cinco anos fui uma boa mulher. Cozinhei, lavei, criei filhos, cuidei de ti, mantive esta casa de pé. E o que recebi em troca?

— Que conversa é essa? Nós somos uma família normal!

— Normal? — Ana riu-se, mas havia amargura naquele riso. — Chamas normal a uma família em que o marido discute a mulher pelas costas com a própria mãe?

— Não estivemos a discutir-te!

— Então o que estavam a fazer? A analisar a previsão do tempo? — Virou-se para Maria. — E a senhora? Quem é a senhora para decidir como devo viver?

— Sou mãe dele! — indignou-se Maria.

— Dele. Não minha. Eu não lhe devo nada.

— Deves, sim! Deves-me respeito!

— Porquê? Por me humilhar? Por se meter em tudo? Por envenenar o seu filho contra mim?

— João! — Maria levou a mão ao peito. — Estás a ouvir a maneira como ela fala comigo?

— Estou — respondeu ele, baixo.

— E então? Vais permitir que ela me trate desta forma?

Fez-se silêncio. Ana fixou o marido e esperou. Era ali, naquele instante, que tudo se decidiria. Ele teria de escolher.

— Mãe — disse João por fim —, talvez não devesses ter…

— Não devia o quê? — perguntou Maria, incrédula.

— Falar da Ana dessa maneira.

— Agora estás do lado dela?

— Não estou do lado de ninguém. Só que… ela é minha mulher. É minha mulher há trinta e cinco anos.

Maria abriu a boca, fechou-a, tornou a abri-la, sem conseguir encontrar as palavras.

— Muito bem! — acabou por dizer, ferida no orgulho. — Muito bem! Então já não precisam de mim para nada!

— Mãe, o que é que isso tem a ver?

— Tem tudo! Passei a vida inteira a viver para vocês! E agora… — agarrou na mala de mão. — Está bem. Vivam sem mim!

Bateu a porta com força. João e Ana ficaram sozinhos no corredor.

— Ana — ele aproximou-se dela. — Era mesmo preciso chegar a este ponto? Ela já tem idade…

— João — disse Ana, cansada.

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