“Eu não vou sustentar a tua família. Ficou claro?” disse ela, com uma frieza cortante que fez a cozinha gelar

Histórias
Exigir isso é covarde e injusto

— …se te fizeram a proposta, é porque te consideram capaz. Não percebes?

Ana ficou a olhá-lo durante alguns instantes. E, nesse silêncio, percebeu o que lhe faltava naquela voz: apoio. Havia cálculo. Pedro não estava a dizer-lhe “eu acredito em ti”; estava a dizer-lhe “isto compensa”.

— Preciso de tempo — respondeu ela.

— Está bem. — Ele recostou-se na cadeira, contrariado. — Mas mete uma coisa na cabeça: oportunidades destas não aparecem duas vezes.

Na manhã seguinte, o dia começou com o toque do telemóvel. Era a mãe dele. Ana estava na casa de banho, a lavar os dentes, e Pedro falava alto demais, como se quisesse garantir que ela ouvia cada palavra.

— Sim, mãe, claro. Não te preocupes, eu trato disso. Sim, a Ana há de aceitar, para onde é que ela havia de ir?

Ela cuspiu a pasta de dentes e ficou imóvel.

“Para onde é que ela havia de ir?”

A frase ficou a ecoar-lhe por dentro.

A discussão que depois se arrastou até à cozinha não foi mais do que a continuação de tudo o que já se vinha acumulando. Na verdade, quase tudo tinha sido dito antes; simplesmente, ninguém tinha querido ouvir.

— Pronto — acabou por dizer Pedro, desviando o olhar. — Já percebi. Não queres ajudar, então não ajudes.

— Eu quero é que tu queiras parar de pôr a tua mãe no meio de nós — respondeu Ana. — Só isso.

Ele olhou-a com um cansaço desesperado, como se estivesse diante de alguém com quem era impossível chegar a qualquer entendimento.

— Ana, tu complicas tudo.

— E tu reduzes tudo ao mínimo — disse ela, levantando-se da mesa. — Talvez seja por isso que estamos sempre presos no mesmo sítio.

Foi para o quarto e fechou a porta. Pegou no telemóvel, abriu a conversa com o chefe e ficou a olhar para a mensagem que já tinha escrito e apagado três vezes:

“Aceito a proposta. A partir de segunda-feira, estou pronta para começar.”

O dedo pairou sobre o botão de enviar. Ana inspirou fundo. Depois carregou.

O ecrã iluminou-se por um instante. E, a seguir, instalou-se o silêncio.

Da cozinha vinha o som de loiça a bater. Pedro, provavelmente, já voltara a falar com a mãe.

Ela ficou junto à janela e pensou que talvez fosse só agora que começava realmente a tornar-se adulta.

Não quando terminou o curso. Não quando se casou. Nem sequer quando lhe deram aquele novo cargo.

Agora. No momento em que, pela primeira vez, tinha dito: “não”.

— Isto aqui é um circo ou é um local de trabalho? — perguntou alguém à entrada, e a sala calou-se de imediato.

Ana estava no limiar do novo gabinete, com uma pasta debaixo do braço e um sorriso tenso nos lábios. Era o seu primeiro dia como responsável pelo departamento de marketing, e tudo começava com três colegas a discutirem em voz alta sobre a maquete de um cliente, atropelando-se uns aos outros.

— Desculpe — disse a rapariga de óculos, junto à janela. — Estávamos só a esclarecer uns pormenores.

— Os pormenores esclarecem-se na sala de reuniões — respondeu Ana, avançando até à secretária. — Aqui, agora, precisamos de calma. O prazo termina amanhã. Não temos margem para perder tempo em discussões.

O gabinete pareceu congelar. Durante alguns segundos, todos ficaram a observá-la: com curiosidade, mas também com uma desconfiança mal disfarçada. Até que um dos rapazes murmurou, baixo, mas audível:

— Cá está. Vassoura nova…

Ana não lhe deu resposta. Limitou-se a ligar o computador e a abrir os relatórios.

Dez minutos depois, o silêncio era absoluto.

Ao meio-dia, já lhe era evidente que não herdara propriamente uma equipa unida.

Eram doze pessoas, e pelo menos metade parecia convencida de que aquela cadeira devia estar ocupada por outra pessoa — mais precisamente por Beatriz. Alta, vistosa, sempre contida, com um tom de voz prático e empresarial, Beatriz trabalhava ali há mais tempo do que todos. Conhecia os clientes, conduzia os projetos principais e demonstrava uma indiferença ostensiva perante quase tudo.

— Se quiseres, posso mostrar-te todos os contratos em curso — disse Beatriz depois do almoço, aparecendo à porta do gabinete. — Só para ficares a par do estado de cada coisa.

— Ótimo — respondeu Ana. — Depois das três dá-me jeito. A essa hora já devo ter despachado isto.

— Está bem. — Beatriz assentiu, mas ainda ficou ali mais um momento, como se lhe faltasse acrescentar qualquer coisa. — É só que… enfim, não leves a mal, sim? Aqui já há muita coisa oleada há anos. E lá em cima às vezes acham que basta pôr uma chefia nova para tudo mudar de repente.

— Logo veremos — disse Ana, sem alterar o tom. — O essencial é que funcione.

Quando Beatriz saiu, Ana permitiu-se finalmente soltar um suspiro longo, pesado. Sentia com nitidez que, aos olhos de todos, era uma intrusa.

E essa sensação de ser “a de fora” era-lhe familiar demais: em casa, e agora também no trabalho.

Ao fim do dia, a cabeça latejava-lhe. Saiu para a rua e inspirou profundamente o ar frio de Lisboa. O fim de outubro aproximava-se; as folhas caídas colavam-se, húmidas, ao passeio, e a luz dos candeeiros tremia nos charcos.

O telemóvel vibrou.

“Pedro.”

Ana não atendeu. Podia esperar. Ainda era demasiado cedo para qualquer conversa.

Seguiu devagar, a pé, em direção ao metro.

Passou por quiosques, cafés e montras cheias de promoções de outono. As pessoas apressavam-se, carregadas de sacos; algures, alguém ria alto. Dentro dela, porém, havia apenas um vazio quieto.

À noite, em casa — se é que aquele canto alugado, um T1 apertado e sem alma, podia receber esse nome —, Ana ligou a chaleira elétrica e sentou-se junto à janela. A cozinha era minúscula. No parapeito estavam alguns catos pequenos, comprados no fim de semana, porque ao menos assim haveria ali qualquer coisa viva.

Chegou uma nova mensagem.

Pedro: “A minha mãe quer saber quando recebes o ordenado. É preciso pagar a conta do aquecimento.”

Ana ficou muito tempo a olhar para o ecrã. Depois apagou simplesmente a mensagem.

Sem responder.

Os dias seguintes foram um turbilhão. Chegava antes de todos e era a última a sair. Passava horas inclinada sobre folhas de cálculo, vasculhava relatórios antigos, reescrevia e-mails para clientes, tentava perceber onde começavam os erros e onde acabava a inércia.

Na segunda-feira, o diretor-geral chamou-a ao gabinete.

— Vejo que entraste nisto a sério — disse ele. — Muito bem. Mas não apertes demasiado com a equipa, está bem? Já estão todos nervosos desde a saída do Miguel.

— Compreendo — respondeu Ana.

— O importante é não quereres remodelar tudo de uma vez. Observa primeiro. Vê como cada pessoa trabalha, o que consegue fazer, onde falha. Depois tiras as tuas conclusões.

Ana acenou, embora por dentro soubesse que não havia tempo para grandes esperas. Clientes, relatórios, prazos, atrasos, promessas antigas por cumprir — tudo lhe tinha caído em cima ao mesmo tempo.

Nas duas primeiras semanas, quase não fez refeições decentes. Vivia de café e de sandes compradas nas máquinas.

Beatriz, por sua vez, começou a aparecer cada vez mais vezes, trazendo os seus “conselhos”.

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