Vinham sempre embrulhados num ar de quem estava a fazer um favor:
— Com esse subcontratado, vai com cuidado. Ele gosta que lhe passem a mão pelo pelo. Se entrares a matar, fecha-se logo.
— Esse cliente, no teu lugar, eu deixava-o estar. Tinha muito respeito pelo Miguel, mas em ti ainda não confia.
— Esta newsletter, sinceramente, eu refazia de ponta a ponta. Mas, claro, se quiseres, podes deixá-la assim… depois acabamos por voltar à minha versão.
Dizer que Ana sentia vontade de responder à altura seria ficar muito aquém da verdade.
Mesmo assim, aguentava.
Por enquanto.
Numa noite em que o escritório já estava quase vazio e só as duas permaneciam nas suas secretárias, Beatriz atirou, como se fosse uma pergunta sem importância:
— Diz-me uma coisa… é verdade que a promoção te foi proposta depois de uma conversa a sós com o João?
Ana levantou os olhos do portátil.
— E tu soubeste isso como?
— Ouvi por aí umas coisas — respondeu Beatriz, com falsa leveza.
— As pessoas que não têm factos costumam entreter-se com boatos — disse Ana, num tom gelado, voltando aos documentos.
— Não leves a mal, só perguntei — continuou Beatriz, fingindo inocência. — É que achei curioso terem-te escolhido precisamente a ti. Havia outros nomes em cima da mesa.
— Mas escolheram-me a mim — respondeu Ana, sem alterar a voz. — Algum motivo terão tido.
Beatriz deixou escapar um sorriso quase impercetível.
— Talvez. Mas sabes como isto funciona. Nem sempre são os resultados que pesam mais. Às vezes… conta a simpatia.
Ana fechou o portátil devagar.
— Beatriz, se tens alguma coisa para dizer, diz.
— Eu? Nada disso — respondeu ela, abrindo as mãos. — Estava só a pensar em voz alta. Não precisas de levar para o lado pessoal.
Ana não lhe deu resposta.
Foi nesse instante que percebeu, com uma clareza desagradável, que a guerra em casa e a guerra no trabalho eram feitas da mesma matéria. Só mudavam os rostos.
No fim de semana, recebeu uma chamada da mãe. Da sua mãe, não da família do marido.
— Minha filha, onde é que te meteste? — perguntou ela, com aquela voz familiar e quente. — Tenho-te ligado e não atendeste.
— Tenho estado a trabalhar, mãe — explicou Ana. — Cargo novo, demasiadas coisas para resolver.
— Ao menos não te aborreces — disse a mãe, rindo-se baixinho. — Mas vê lá se não te rebentas. E não dês ouvidos a ninguém que te diga que não consegues.
Ana ficou calada a ouvi-la e, de repente, teve de fazer força para não chorar.
Quantas vezes tinha desejado apenas ouvir alguém dizer: “Eu acredito em ti.”
De Pedro, nunca ouvira isso. Da mãe, sim. E, naquele momento, bastava.
Depois de desligar, sentou-se no sofá e permaneceu ali, imóvel, sem saber durante quanto tempo.
Na cabeça, misturavam-se o trabalho, as pessoas, as decisões por tomar e uma ideia que a perseguia: como tudo se desfaz depressa quando a confiança desaparece.
E como é difícil reconstruí-la quando não se tem ninguém ao lado.
O primeiro confronto aberto surgiu na reunião de segunda-feira.
A meio da apresentação, Beatriz interrompeu-a:
— Ana, desculpa, mas estás a ignorar que o orçamento de publicidade do quarto trimestre já foi distribuído. Se mudarmos agora de canal, vamos ultrapassar o limite previsto.
— Não estou a ignorar nada — respondeu Ana, mantendo a calma. — O orçamento tinha sido calculado com erros. Revi os valores com base nos dados reais.
— E quem aprovou isso? — perguntou Beatriz, com a voz afiada.
— Eu.
— Sem alinhar primeiro com o departamento?
— Uma chefia tem autoridade para tomar decisões — disse Ana, firme. — Se houver objeções, discutimos depois da reunião.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala.
O diretor-geral esboçou um sorriso discreto, quase invisível. Mas Ana reparou.
Quando a reunião terminou, Beatriz aproximou-se dela junto ao elevador.
— Queres mostrar a toda a gente como és decidida? Tem cuidado. Ainda te desmontam peça por peça.
Ana encarou-a sem desviar os olhos.
— Que tentem. Já estou habituada.
Nessa noite, recebeu uma nova mensagem de Pedro.
Pedro: “Ana, precisamos de nos ver. Eu percebi tudo. Não quero que isto acabe assim entre nós.”
Durante muito tempo, ficou a olhar para o ecrã sem escrever nada. Por fim, respondeu:
Ana: “Logo se vê. Agora não é o momento.”
A resposta dele veio quase de imediato.
Pedro: “Mudaste. Ficaste tão fria.”
Ana leu aquelas palavras várias vezes e pensou que talvez fosse verdade: tinha mudado. Mas não da forma que ele imaginava. Não ficara fria. Ficara lúcida.
A semana passou a correr, numa sucessão de chamadas, reuniões, correções e decisões que já não podia adiar. No fim do mês, o departamento apresentou resultados excelentes: novos clientes, faturação em crescimento, mais pedidos a entrar.
João elogiou a equipa diante de todos:
— Bom trabalho. E, em especial, da Ana. Nota-se que tem os assuntos debaixo de controlo.
Ela agradeceu, mas o sorriso saiu-lhe tenso. Já tinha aprendido que o sucesso nunca vem sozinho. Depois dos elogios, os colegas começaram a olhá-la de outra maneira.
Alguns deram-lhe os parabéns com sinceridade.
Outros fizeram-no com um meio sorriso carregado de veneno.
Ao fim do dia, quando todos já tinham saído, Ana ficou sozinha no escritório. O silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo ruído distante da rua e pela luz azulada do monitor.
Abriu as mensagens e escreveu à mãe:
Ana: “Mãe, está a correr bem. Mas é difícil.”
A resposta chegou pouco depois.
Mãe: “Se é difícil, é porque estás a ir pelo caminho certo.”
Ana sorriu.
E percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, a palavra “difícil” já não lhe soava a ameaça.
No dia seguinte, porém, tudo mudou de repente.
Logo de manhã, mal entrou no escritório, Beatriz apareceu à sua frente com uma pasta na mão.
— Estão aqui os documentos do subcontratado. É só assinar.
— Deixa-me ver primeiro.
Ana abriu a pasta e começou a folhear as páginas. Bastaram-lhe alguns segundos para notar que os números não batiam certo. No contrato anterior, o valor era mais baixo. Ali, surgiam quarenta mil a mais.
— O que é isto?
— Nova tabela de preços — disse Beatriz, tranquila. — Eles aumentaram os valores.
— Porquê?
— Inflação, custos, essas coisas. Está tudo mais caro.
Ana ergueu o olhar.
— Vou ligar-lhes diretamente.
— Como quiseres — respondeu Beatriz, encolhendo os ombros. — Só não te admires se depois tiveres de pedir desculpa.
Quinze minutos mais tarde, Ana telefonou mesmo para a empresa.
E soube que não existia tabela nova nenhuma.
Desligou e ficou alguns segundos sentada, imóvel, a olhar para o vazio. Depois levantou-se e disse, num tom baixo:
— Então agora é que isto começa a sério.
Nessa noite chegou a casa ainda mais tarde do que o costume. Em cima da mesa estava uma chávena de chá pela metade. No telemóvel, outra mensagem de Pedro esperava por ela:
“Tenho saudades tuas. Quero falar. Sei que errei.”
Ana não respondeu. Limitou-se a desligar o telefone.
Na segunda-feira de manhã, a semana arrancou com uma reunião.
