A minha mãe deixou-se cair numa cadeira, como se, de repente, as pernas tivessem perdido a força.
— E tu vives de quê? — perguntou, a voz presa. — Com que dinheiro vestes o Miguel?
— Do meu ordenado — intrometeu-se João, num tom agressivo. — Não sou nenhum inútil, caso ainda não tenham percebido. Quinhentos euros chegam perfeitamente para tudo! Estão a fazer uma tempestade num copo de água!
Quinhentos euros.
Para uma família de três pessoas, em 2025.
Naquele instante, voltou-me à memória a semana anterior: eu de carteira aberta, a contar moedas uma a uma para ver se conseguia comprar um iogurte ao Miguel. Lembrei-me das mensagens das minhas amigas, dos convites que eu recusava sempre, porque nem para um café numa pastelaria me sobrava dinheiro.
— E essa tua irmã tão necessitada, afinal, faz o quê? — perguntou o meu pai. Quanto mais baixo ele falava, mais perigoso se tornava o ambiente.
— Neste momento não trabalha — respondeu João, já menos seguro. — Depois de ter sido mãe, ainda não conseguiu voltar ao mercado de trabalho.
— Depois de ter sido mãe? — repetiu a minha mãe, incrédula. — Que idade tem a criança?
— Cinco anos — rosnou ele, percebendo tarde demais que tinha acabado de se enterrar.
O meu pai ficou imóvel por uns segundos. Depois, muito devagar, começou a arregaçar as mangas da camisa.
— Portanto — disse ele, com uma calma tão controlada que me gelou o sangue —, a criança tem cinco anos. A tua irmã está “a recuperar do parto” há cinco anos. À custa do dinheiro da minha filha. Enquanto isso, a minha filha anda metida num roupão gasto de tanto uso e faz contas para comprar um iogurte ao meu neto. Foi isto que eu ouvi?
— Pai, por favor… — tentei meter-me entre eles, mas a minha mãe segurou-me pelo braço, com firmeza e delicadeza ao mesmo tempo.
— Não, Ana. Desta vez é preciso. É mesmo preciso — disse ela. Pela primeira vez naquela manhã, sorriu, mas havia naquele sorriso qualquer coisa de assustador. — João, querido, alguma vez te passou pela cabeça que a Ana também podia ficar “temporariamente sem trabalhar”? Ou que talvez ela também gostasse, de vez em quando, de comprar alguma coisa para si?
— Ela compra coisas para si! — disparou João. — Está sempre com cremes e essas porcarias.
— Que cremes? — olhei para ele, atónita com tamanha lata. — Há meio ano que uso creme de bebé de um euro porque não tenho dinheiro para mais nada!
— Pronto… sei lá. Alguma coisa hás de comprar com o teu dinheiro.
— Com que dinheiro, João? — o meu pai avançou um passo. — Acabaste de dizer que ficas com o ordenado inteiro da tua mulher. Explica-me então de onde é que ela tira dinheiro para gastar consigo.
Vi o momento exato em que João percebeu que se tinha enredado na própria mentira. A cara dele ficou vermelha como tijolo.
— Chega! Isto é assunto da nossa casa! — tentou recuperar terreno, levantando a voz. — Vocês não têm nada que se meter onde gastamos o dinheiro. Nós resolvemos isto entre nós, sem interferências!
— Temos, sim senhor! — cortou a minha mãe. — Temos tudo a ver com isto. Quando a minha filha parece uma criada esfalfada e uma mulher de fora anda a viver à custa dela, passa a ser também problema nosso, meu caro genro.
Nesse instante, ouviu-se choro vindo do quarto do Miguel. Ele tinha acordado.
Levantei-me por instinto, mas a minha mãe travou-me antes que eu desse dois passos.
— O João que vá tratar do filho. Ou só sabe tirar dinheiro?
Ele lançou-nos um olhar carregado de irritação e caminhou contrariado até ao quarto. Da sala, ouvi-o tentar acalmar o Miguel de forma desajeitada, sem saber bem o que fazer com uma criança a chorar. Era óbvio que não tinha prática nenhuma. Normalmente, era sempre eu que ia.
— Ana — o meu pai sentou-se ao meu lado no sofá —, há quanto tempo isto acontece?
Baixei os olhos. Não consegui encará-lo.
— Uns dois anos — confessei. — No início, ele dizia que era só por pouco tempo. Que a Maria estava aflita por causa de um crédito, que o banco a ameaçava, que podia perder a casa. Eu aceitei ajudarmos durante três meses.
— E depois?
— Depois aparecia sempre uma razão nova para ele ficar com o meu ordenado. Ora porque ela precisava de um carro, ora porque tinha obras para fazer, ora porque surgia outra urgência qualquer. E eu… eu convenci-me de que não tinha o direito de reclamar. O João é meu marido. É pai do Miguel. E ganha menos do que eu.
A minha mãe soltou um som curto, indignado.
— Então, por ganhar menos, pode deixar a mulher sem um cêntimo? É essa a lógica, minha filha?
— Mãe, por favor, não grites.
— Eu ainda não estou a gritar — respondeu ela, pegando no telemóvel. — Dá-me o número dessa parente maravilhosa.
— Para quê?
— Para lhe agradecer pessoalmente a bela vida que tem levado com o dinheiro da minha filha.
Nunca tinha visto a minha mãe assim. Ela era, por natureza, uma mulher serena, cuidadosa nas palavras, daquelas que preferem resolver conflitos com conversa e paciência. Mas naquele momento alguma coisa antiga e poderosa despertara dentro dela, uma espécie de instinto materno em estado puro. Tinha-se transformado numa força que eu quase não reconhecia.
