Uma leoa a proteger a cria.
Foi então que, do quarto do Miguel, chegou a voz do João:
— Ana! Ele precisa de fazer cocó. Anda cá!
— Eu trato disso — disse o meu pai, levantando-se de imediato e seguindo para o quarto.
— Pai, não, eu vou…
— Tu ficas sentada e descansas — interrompeu-me ele, num tom que não admitia discussão.
Fiquei na sala, a ouvir os sons vindos lá de dentro: a voz calma do meu pai a falar com o Miguel, a água a correr na casa de banho, pequenos passos, gavetas a abrir e a fechar. Depois ouvi vozes masculinas mais abafadas. O João explicava qualquer coisa à pressa, como quem tenta justificar-se antes mesmo de ser acusado, e o meu pai respondia-lhe com frases curtas, secas, firmes.
A minha mãe sentou-se ao meu lado e envolveu-me a mão entre as dela.
— Ana, minha querida… tu percebes que isto não é uma vida normal, pois percebes?
Baixei os olhos.
— Percebo. Mas o que é que eu faço? Peço o divórcio? Fico sozinha com uma criança?
Ela apertou-me os dedos, com ternura e força ao mesmo tempo.
— E agora estás acompanhada? Tens ao teu lado um homem que te tira o ordenado e o entrega à irmã, enquanto deixa a própria mulher e o filho sem dinheiro. Isso não é companhia, filha. Isso é pior do que estar sozinha.
Não respondi. Não havia nada que eu pudesse dizer em minha defesa, porque, no fundo, ela tinha razão.
Nos últimos dois anos, eu tinha vivido como se andasse dentro de nevoeiro. Limitava-me a funcionar: trabalho, casa, Miguel. Depois outra vez trabalho, casa, Miguel. Não pensava, não analisava, não fazia perguntas. Aguentava. Era só isso que eu fazia.
Talvez me faltasse coragem para admitir que me tinha enganado quando casei com o João.
Pouco depois, o meu pai saiu do quarto com o Miguel ao colo. O meu filho vinha limpo, vestido e com um sorriso satisfeito no rosto.
— Avô! — gritou ele, todo contente, estendendo os braços na minha direção. — Mãe, o avô veio cá!
— Estou a ver, meu amor — murmurei, abraçando-o.
Nesse instante, senti as lágrimas a subirem-me aos olhos.
Quando tinha sido a última vez que o João mudara uma fralda ao Miguel sem eu pedir? Quando é que se sentara no chão para brincar com ele, sem pressas, sem irritação, apenas porque sim?
A minha mãe olhou em volta.
— E o João?
— Está a fazer a mala — respondeu o meu pai, sem rodeios. — Vai para casa da irmã. Parece que, de repente, ela tem um assunto “urgente”.
Minutos depois, o João apareceu à porta do quarto com uma pequena mala na mão. Evitava olhar diretamente para mim.
— Vou passar uns dias em casa da Maria — disse. — Ela está outra vez com… problemas.
— Claro — respondeu a minha mãe, com uma doçura tão afiada que quase cortava. — Ela tem problemas. A tua mulher, pelos vistos, vive num conto de fadas.
— Mãe, por favor…
— Não, Ana. Chega de silêncio! — atalhou ela. Depois virou-se para ele. — João, diz-me uma coisa: de onde vai sair agora o dinheiro para os “problemas” da tua irmã?
Ele encolheu os ombros.
— Ela ainda tem algum.
— Ah, tem? Do ordenado da Ana, queres tu dizer. E a Ana autorizou-te a repartir o dinheiro dela com a tua irmãzinha?
— Já falámos sobre isto. Chega.
— A tua mulher não é uma carteira, rapaz — disse o meu pai, muito baixo, mas com uma firmeza que enchia a sala inteira. — Nem é uma caixa multibanco. É a tua companheira. Devia ser respeitada, protegida e valorizada.
— Está bem, poupem-me ao sermão — resmungou o João, encaminhando-se para a entrada. — Volto à noite.
— Não tenhas pressa — disse a minha mãe atrás dele. — Eu e o teu sogro ficamos por cá. Vamos ajudar a Ana a pôr algumas coisas no devido lugar.
O João parou por um segundo junto à porta. Senti que ele pressentira alguma coisa, mas não disse palavra. Limitou-se a sair.
Quando a porta bateu atrás dele, aconteceu algo inesperado: respirei melhor. Como se o ar dentro de casa tivesse ficado menos pesado.
— Muito bem — disse a minha mãe, tirando o telemóvel da mala. — Agora vamos olhar para as finanças. Mostra-me a tua conta bancária.
— Para quê?
— Porque está na altura de repor alguma justiça. O teu dinheiro deve servir para ti e para o teu filho. Não para sustentar uma mulher adulta que, há cinco anos, não consegue arranjar trabalho. Estás a ouvir-me, filha?
Abri a aplicação do banco no telemóvel. Saldo disponível: oito euros e alguns cêntimos. Ainda faltava uma semana para receber.
— O teu cartão está com o João? — perguntou o meu pai.
— Está. Ele dizia que assim era mais prático. Como era ele que geria o dinheiro…
Os meus pais trocaram um olhar. Não foi preciso acrescentarem nada.
— Ana — disse o meu pai, com uma calma pesada —, amanhã vamos ao banco.
Na segunda-feira, eu já estava em casa dos meus pais.
Fiz as malas enquanto o João não estava e deixei-lhe apenas um bilhete em cima da mesa:
“Preciso de tempo para pensar.”
Para o Miguel, a mudança para casa dos avós pareceu uma aventura. Corria de um lado para o outro pelo apartamento de três assoalhadas, encantado com os brinquedos que a minha mãe tinha preparado para o neto.
A primeira coisa que fizemos foi ir, eu e o meu pai, ao banco.
