“Vai já tratar da minha mãe e lavá-la!” rosnou o marido enquanto Ana, paralisada no sofá, desviava o olhar da televisão

Histórias
Egoísmo flagrante, uma casa transformada em prisão silenciosa.

— Vai já tratar da minha mãe e lavá-la! Ela precisa de cuidados, e tu aí, agarrada à televisão! — rosnou o marido.

— Então? Vais continuar aí especada como uma estátua? Estás a ouvir-me ou não?

Ana estremeceu. A voz de João entrou-lhe pelos ouvidos como uma porta batida com força num quarto silencioso. Desviou os olhos do ecrã, onde a protagonista da novela chorava uma paixão desfeita, e viu o marido à sua frente: o rosto congestionado, o cabelo em desalinho, aquela ruga funda entre as sobrancelhas que parecia nunca desaparecer.

— Vai já lavar a minha mãe! Ela precisa que cuidem dela, e tu só sabes ficar aí a olhar para a televisão! — repetiu ele, num tom áspero, arrancando do cabide o casaco velho.

Lá fora, o inverno remexia a noite. A neve caía espessa, teimosa, colando-se aos vidros em flocos húmidos. Escurecera cedo, como sempre em janeiro, e a luz que vinha das janelas dos prédios vizinhos parecia de um amarelo demasiado quente, quase alaranjado, como se, atrás daquelas paredes alheias, houvesse lareiras acesas e bolos a sair do forno.

Ana levantou-se devagar do sofá. Tinha as pernas dormentes; estivera sentada naquela posição talvez quarenta minutos, se não mais. Na sala pairava um cheiro a cebola frita e a outra coisa qualquer. Hospital? Não. Era antes cheiro de velhice. Nos últimos meses, a sogra começara a cheirar assim.

— Ainda agora estive no quarto dela — respondeu em voz baixa. — Mudei-lhe os lençóis, dei-lhe os medicamentos…

— Ah, mudaste, pois claro — imitou João, carregado de sarcasmo. — Então porque é que ela me telefonou a dizer que ninguém lá ia vê-la? Porque é que está molhada?

— João…

— Não me venhas com “João”! A minha mãe está a morrer e tu não queres saber! Para ti, só essas novelas é que contam!

Ana fechou as mãos com tanta força que sentiu as unhas cravarem-se na pele. Dentro dela subiu algo quente e desagradável, como água prestes a ferver no peito. Apeteceu-lhe gritar que, havia três meses, não dormia uma noite inteira; que se levantava também de madrugada para acudir à velha; que lavava a roupa de cama todos os dias; que já nem se lembrava da última vez que tinha saído à rua sem ser para ir ao supermercado ou à farmácia. Apeteceu-lhe dizer que a própria vida se tinha perdido algures, dissolvida em dias todos iguais, cópias uns dos outros.

Mas calou-se.

João já enfiava as botas, pronto para sair. Para onde? Para a garagem, provavelmente. Era sempre para lá que fugia quando se zangava. Lá tinha as suas coisas: parafusos, porcas, ferramentas, a eterna reparação do carro, aquele carro que de qualquer maneira nunca pegava. Era ali a sua liberdade. Pequena, a cheirar a óleo e tabaco, mas dele.

— Então vai tu — atirou Ana. — Corre para junto da tua mãe.

Ele voltou-se. No rosto surgiu-lhe uma expressão diferente. Não era fúria. Era antes surpresa. Talvez espanto.

— O que é que disseste?

— O que ouviste. Vai tu. Lava-a tu, se achas que eu faço tudo mal. Estou farta.

A frase “estou farta” soou-lhe estranhamente pobre. Simples demais para o que lhe acontecia por dentro. Cansaço era ficar muito tempo de pé, ou trazer sacos pesados do supermercado. Aquilo era outra coisa. Era como se alguém lhe tivesse sugado o ar aos poucos, dia após dia, até a deixar quase vazia.

João ficou parado junto à entrada, e a cara dele foi escurecendo.

— Tu perdeste completamente a vergonha — disse. — Completamente. Agora achas que tens o direito de me dizer o que devo fazer? Na minha própria casa?

— Na tua casa? — Ana deu um passo na direção dele. — João, eu vivo aqui há vinte e três anos. Vinte e três. A tua mãe nunca gostou de mim, e tu sabes disso. Sempre disse que eu não era mulher para ti. Que podias ter arranjado coisa melhor.

— E depois? Ela é velha, está doente…

— Já era assim aos trinta. E aos quarenta também. Sempre foi. Tu é que nunca quiseste ver, porque és filho dela.

João avançou um pouco e ficou por cima dela, como uma sombra pesada. Ana sentiu o cheiro da colónia dele, barata e agressiva. A mesma de há vinte anos, quando ainda eram recém-casados.

— Não te atrevas a falar assim da minha mãe.

— Ou quê? — A voz dela ganhou uma lâmina de raiva. — O que vais fazer, João? Bater-me? Pôr-me fora de casa?

Fez-se silêncio. Do lado de fora, o vento uivava, empurrando redemoinhos de neve entre os prédios. Em baixo, algures na entrada, uma porta bateu; alguém riu alto, e o som desfez-se depressa na escuridão gelada.

— Já nem te reconheço — murmurou o marido. — Em que é que tu te transformaste?

Ana sorriu. Um sorriso seco, sem alegria nenhuma.

— Eu? Olha antes para ti. Quando foi a última vez que me perguntaste como eu estava? Quando quiseste saber o que eu sentia? Uma única vez, nestes meses todos? Chegas a casa, comes o jantar que eu fiz, esperas encontrar tudo pronto e limpo, e depois enfias-te na tua garagem. Ou sentas-te diante da televisão enquanto eu me desfaço a cuidar da tua mãe.

— Eu trabalho! Sou eu que trago dinheiro para casa!

— E eu, então, passo os dias a descansar, não é? Estou aqui de férias, pelos vistos?

Casa da Encarnação