João cerrou os dentes com tanta força que o maxilar lhe ficou rígido. A mão dele estremeceu, num impulso breve e feio, como se quisesse agarrar qualquer coisa, partir, bater; mas conteve-se. Sem dizer mais nada, virou costas e atravessou o corredor, direito ao quarto da mãe.
Ana ficou parada junto à entrada. As mãos tremiam-lhe. Sentia o corpo inteiro pesado, como se, de repente, lhe tivessem despejado chumbo por dentro: frio, denso, impossível de suportar. Encostou-se à parede e fechou os olhos.
Até quando? Até quando se podia aguentar, baixar a cabeça, engolir tudo em silêncio?
Veio-lhe à memória o dia em que conhecera João. O mercado, a lama de outono, ele a ajudá-la a levar os sacos até à paragem. Sorria de uma maneira aberta, quase rapazola. Os olhos brilhavam, vivos, sinceros. “Enquanto eu cá estiver, ninguém te faz mal”, dissera-lhe então, antes de lhe beijar a testa na primeira despedida.
Onde estava esse homem agora? Para onde tinha desaparecido?
Do quarto chegou a voz abafada de João; dizia qualquer coisa à mãe. A velha respondeu num tom fraco, queixoso. Ana não distinguia as palavras, mas conhecia bem aquela entoação: a sogra lamentava-se. Como sempre.
Voltou para a sala e desligou a televisão. Sentou-se no sofá, sem saber o que fazer com as mãos, e acabou por ficar a olhá-las. Estavam secas, marcadas por veias salientes. Os dedos, avermelhados de tanto lavar, limpar, esfregar. No anelar, a aliança fina, já baça pelo uso e pelos anos.
Quanto tempo mais?
A porta do quarto da sogra abriu-se. João apareceu no corredor com a cara fechada, vazia de expressão.
— Estava mesmo molhada — disse ele. — Já a mudei.
Ana limitou-se a assentir. Nem sequer tinha forças para discutir.
— Ouve… — ele pigarreou, desconfortável. — Se calhar está na altura de mudarmos alguma coisa. Talvez contratar alguém para a acompanhar. Vou ver as contas, pensar no dinheiro…
Ana ergueu os olhos para ele. Nas palavras não havia pedido de desculpa. Nem uma sombra de compreensão. Apenas a vontade prática de resolver um incómodo depressa, de preferência de um modo que não voltasse a perturbá-lo.
— Pensa nisso — respondeu ela, seca.
João ficou ainda uns instantes no mesmo sítio, como se esperasse outra reação. Como ela não lhe deu nada, encaminhou-se para a porta.
— Vou à garagem. Chego tarde.
A porta bateu. Ana ficou sozinha.
Lá fora, o inverno bordava rendas brancas nas janelas. A cidade calara-se debaixo da neve, embrulhada numa quietude espessa. E, dentro daquela mudez clara, Ana compreendeu com uma nitidez assustadora: alguma coisa tinha de mudar. Tinha mesmo.
Ainda não sabia era o quê.
De manhã, foi a campainha que a arrancou ao sono. Tocava de forma agressiva, insistente, como se quem estivesse do outro lado não tencionasse desistir. Ana olhou para o relógio: sete horas. João já tinha saído para o trabalho sem a acordar. Como de costume.
Enfiou o robe à pressa e foi abrir. Pelo óculo reconheceu uma silhueta familiar: Maria, irmã da sogra. Era uma mulher baixa e atarracada, de cabelo ruivo pintado e um ar permanentemente descontente.
— Já vai, já vai — murmurou Ana, enquanto corria o trinco.
Maria entrou pela casa dentro como uma rajada, sem sequer dar bom-dia. Atrás dela enfiou-se Rita, a filha, uma mulher de trinta anos que aparentava mais, de feições duras e olhos miudamente maldosos.
— Onde está a Catarina? — exigiu Maria, já a despir o casaco grosso no corredor e a atirá-lo para cima da cómoda.
— Ainda dorme. Passou mal durante a noite, dei-lhe o comprimido para dormir…
— Comprimido para dormir?! — Maria bateu as palmas das mãos uma na outra, escandalizada. — Tu perdeste o juízo de vez? Essas doses não se dão assim! Tu não és médica!
Ana engoliu em seco. Por dentro, qualquer coisa começava a ferver: a mesma revolta que aprendera a empurrar para o fundo de si, bem fundo, para não rebentar.
— Foi receitado pelo médico. Tenho a indicação por escrito…
— Mostra.
Rita soltou uma risadinha fina, desagradável, quase infantil. Sem pedir licença, entrou na cozinha e começou logo a abrir armários, como se a casa lhe pertencesse.
— Isto aqui também está bonito, está. Uma desarrumação… E a loiça toda por lavar.
— Ficou de ontem à noite — começou Ana a justificar-se, embora soubesse perfeitamente que não devia justificar coisa nenhuma. — Deitei-me perto das duas da manhã. Não tive tempo…
— Não tiveste tempo! — repetiu Maria, com desprezo. — E a Catarina ali deitada, doente, ensopada! O João telefonou-me ontem e contou-me tudo. Disse que tu já passaste dos limites. Que ficas sentada a ver televisão enquanto a mãe dele está a morrer no quarto!
— Isso não é verdade…
— Não me respondas! — Maria aproximou-se tanto que Ana sentiu o cheiro do perfume barato, pesado e enjoativo. — Há muito que eu vejo a maneira como tratas a minha irmã. Desde o princípio. Nunca gostaste dela. Para ti, ela é só um estorvo!
— Eu cuido dela há três meses! Dia e noite!
— Cuidas mal — atirou Rita da cozinha, de boca cheia.
Ana percebeu, horrorizada, que ela tinha encontrado a tarte do dia anterior e já a estava a comer, fria, sem sequer a aquecer.
Rita apareceu à porta, ainda a mastigar, e acrescentou com um brilho cruel nos olhos:
— A tia Catarina está num estado lastimável.
