— Que verdade é essa? Que a minha mãe te pesa? Que estás cansada? E quem é que não se cansa, Ana? Achas que eu não me canso? Trabalho todos os dias, mato-me para trazer dinheiro para casa!
— E eu, o que é que faço?! — a voz dela tremeu, apesar de tentar dominá-la. — Fico aqui fechada como uma criada! Dia e noite! Nem sequer posso sair à rua quando me apetece!
João encolheu os ombros, com uma indiferença que a feriu mais do que um grito.
— Então contrata-se uma enfermeira. Se isto é assim tão insuportável para ti.
— Não é a enfermeira que está em causa! — Ana sentiu as lágrimas subirem-lhe à garganta, mas engoliu-as à força. Não ali. Não diante deles. — O problema és tu. Tu não me escutas. Tu já nem me vês.
— Meu Deus, outra vez esse drama de mulher — resmungou João, fazendo um gesto impaciente com a mão. Depois virou-se para a tia. — Maria, pode ficar aqui com a minha mãe?
— Claro que fico — respondeu Maria, com um sorriso de triunfo mal disfarçado. — Eu e a Rita ficamos. Nós tratamos dela como deve ser.
— Ótimo. — João encaminhou-se para a porta, como se o assunto estivesse encerrado. — E tu, Ana, faz a mala. Vais para casa da tua mãe uns dias. Descansas.
Ana ficou imóvel.
Aquelas palavras não eram um convite, nem um gesto de cuidado. Eram uma expulsão. Suave, embrulhada numa falsa preocupação, mas ainda assim uma expulsão.
— Estás a pôr-me fora?
— Estou a dar-te uma pausa — disse ele, sem sequer se voltar. — Ou preferes ficar aqui e continuar com escândalos?
Atrás dela, Rita soltou uma risadinha baixa. Maria já se tinha instalado na poltrona ao lado de Catarina, direita e satisfeita, como uma rainha no seu trono. A velha permanecia de olhos fechados, mas Ana reparou no pequeno movimento dos lábios: um canto da boca levantado, quase impercetível. Um sorriso de satisfação.
Foi nesse instante que algo dentro dela se deslocou.
Não se partiu. Não. Pelo contrário: encaixou finalmente no lugar.
— Sabes uma coisa, João? — disse Ana, num tom baixo, mas firme como nunca. — Eu vou embora. Vou mesmo. Só que não vai ser por uns dias.
Ele parou e voltou-se devagar. A surpresa atravessou-lhe o rosto.
— Como assim?
— Assim: vou-me embora de vez. — As palavras saíram-lhe com uma clareza estranha, como se durante anos tivessem estado à espera daquele momento. — Vivi contigo vinte e três anos. Aguentei a tua mãe, que me odiou desde o primeiro dia. Aguentei que chegasses a casa e nem um obrigado fosses capaz de dizer. Aguentei ser para ti uma peça de mobília. Útil. Silenciosa. E gratuita.
— Tu enlouqueceste? — João deu um passo na direção dela. — Perdeste completamente o juízo?
— Não. — Ana abanou a cabeça, devagar. — Pelo contrário. Pela primeira vez em muito tempo, estou a ver tudo com uma nitidez assustadora. Cansei-me de ser invisível. Cansei-me de ser culpada por tudo. Querem cuidar da vossa mãe? Então cuidem. São todos tão exemplares, tão dedicados… mostrem agora do que são capazes.
— Ana, tem juízo! — Maria levantou-se de repente, indignada. — Tu és a mulher dele! Tens obrigações!
— Ele também as tinha — respondeu Ana, apontando para João. — Tinha a obrigação de me amar. De me respeitar. De me proteger. Onde é que isso ficou?
O rosto de João ficou vermelho. Os dedos fecharam-se em punhos.
— Vais arrepender-te — sibilou ele entre dentes. — Ainda vais voltar de rastos. Para onde pensas ir? Não tens nada.
— Vou para casa da minha mãe. Depois arranjo trabalho. Alugo um quarto. — Ana entrou no quarto, abriu o roupeiro e puxou a velha mala de viagem. — O resto logo se vê.
Arrumou tudo depressa, sem hesitar. Levou apenas o indispensável: documentos, duas camisolas, roupa interior, alguns objetos pessoais. As mãos não lhe tremiam. O coração batia num ritmo calmo, quase surpreendente. Uma serenidade desconhecida espalhava-se-lhe pelo peito, como se uma febre longa tivesse finalmente cedido e ela pudesse, enfim, respirar fundo.
João ficou parado à entrada do quarto. Observava-a em silêncio. Nos olhos dele passou qualquer coisa parecida com confusão; era evidente que não esperara aquela resposta, muito menos aquela firmeza.
— Estás a falar a sério? — perguntou, agora mais baixo.
Ana fechou a mala e prendeu a fivela. Depois olhou para ele demoradamente, com atenção, quase com curiosidade. Procurou naquele rosto o rapaz novo que, tantos anos antes, no mercado, lhe prometera que a haveria de proteger. Não encontrou. À sua frente estava apenas um homem estranho, gasto, irritado, com os olhos apagados.
— Nunca falei tão a sério — respondeu.
Passou por ele sem tocar no seu ombro. Atravessou a sala sob o olhar vitorioso de Maria e o sorriso trocista de Rita. Ao chegar junto da cama da sogra, parou. Catarina abriu os olhos.
— Adeus — disse Ana, com uma calma que nem ela sabia possuir. — As melhoras.
Nos olhos da velha faiscou o medo. Um medo rápido, nu, como se só naquele segundo tivesse percebido o alcance do que provocara.
Ana saiu do apartamento.
Na escada fazia frio. A janela do patamar não fechava bem, e o vento entrava livremente, correndo pelos andares como se também ele quisesse fugir dali. Ela ajeitou o casaco nos ombros, segurou melhor a mala e começou a descer.
Lá fora, o inverno continuava. A neve rangia debaixo dos seus passos, e o gelo mordia-lhe as faces. Ainda assim, Ana sentia calor. Dentro dela crescia uma sensação nova, estranha e luminosa. Leveza, talvez. Ou liberdade.
Atravessou o pátio coberto de branco, e a cada passo o passado ficava mais longe. Ficava lá atrás, naquele apartamento, com aquelas pessoas, com aquela vida onde ela se tinha perdido sem perceber.
À sua frente esperava-a o desconhecido. Assustador, sim. Incerto. Mas, de algum modo, certo.
Ana sorriu. Pela primeira vez em muitos meses.
E continuou a andar, pela vastidão branca do inverno, em direção ao lugar onde uma vida nova podia começar.
