“Vai já tratar da minha mãe e lavá-la!” rosnou o marido enquanto Ana, paralisada no sofá, desviava o olhar da televisão

Histórias
Egoísmo flagrante, uma casa transformada em prisão silenciosa.

— Cheia de escaras — prosseguiu Rita, sem qualquer pudor. — Ontem vimos, quando fomos espreitar ao quarto.

— Escaras? Que escaras?! — Ana sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. — Ela não tem escaras nenhumas. Eu trato-lhe da pele todos os dias, viro-a, ponho-lhe creme…

— Continua a mentir, continua — disse Maria, encaminhando-se logo para o quarto da cunhada. — Já vamos tirar isso a limpo.

Ana foi atrás dela, aflita. Catarina estava deitada, pálida, de olhos fechados. Respirava com dificuldade, num silvo curto e cansado. Sem a menor delicadeza, Maria arrancou-lhe a manta de cima e levantou a camisa de dormir da doente.

— Aqui está! Estás a ver?! — exclamou, apontando para as costas da irmã.

Ana inclinou-se. Havia, sim, uma vermelhidão pequena, quase insignificante, do tamanho de uma moeda. Mas aquilo não era uma escara. Era apenas irritação da pele, provocada por tantas horas deitada. Ela sabia-o. Passava creme naquele sítio todos os dias.

— Isto não é uma escara — respondeu, num fio de voz. — É só…

— Cala-te! — berrou Maria. — Pensas que eu não sei como estas coisas começam? Trabalhei vinte anos como enfermeira! Tu deste cabo da minha irmã. E fizeste-o de propósito!

— Vocês perderam o juízo? — Ana recuou, com as mãos a tremer. — Eu faço tudo por ela. Tudo!

— Querem que ligue ao João? — meteu-se Rita, que entretanto regressara da cozinha, ainda de boca cheia. — Ele devia saber o que a mulher anda a fazer.

— Vou ligar-lhe já — declarou Maria, tirando o telemóvel da mala com gestos bruscos.

Ana ficou no meio do quarto, imóvel, enquanto sentia algo apertar-se dentro dela, como um nó duro e sufocante. Era injusto. Cruel. Tinha dado tudo o que lhe restava, tinha-se esquecido de si própria, da sua vida, do seu descanso — e recebia aquilo em troca. Acusações. Humilhação. Desprezo.

Catarina abriu os olhos. Estavam turvos, inflamados, perdidos.

— Maria? — murmurou. — Vieste?

— Estou aqui, minha querida, estou aqui — disse Maria, sentando-se na beira da cama. A fúria desapareceu-lhe da voz num segundo, substituída por uma ternura teatral. — Não te preocupes. Nós estamos a ver tudo. Tudo.

A velha voltou lentamente a cabeça na direção de Ana. E havia naquele olhar qualquer coisa de estranho… malícia, talvez. Uma centelha miúda de satisfação.

— Ela… ela trata-me mal… — rouquejou Catarina. — Esquece-se… dos remédios…

— Mentira! — escapou a Ana, antes que conseguisse conter-se. — Dou-lhos sempre a horas! Sempre!

— Não grites com uma pessoa doente! — Maria levantou-se de rompante. — Agora ainda se põe aos berros! João! João, estás a ouvir?

Já falava ao telefone. Ana distinguiu a voz abafada do marido do outro lado, mas não conseguiu perceber as palavras.

— Vem imediatamente para casa! — continuou Maria. — A tua mãe está num estado terrível! E esta… esta perdeu a vergonha toda!

A chamada durou talvez três minutos. Durante esse tempo, Rita ficou encostada à ombreira da porta, a observar Ana com um sorriso mal disfarçado. Nos olhos dela brilhava um prazer evidente: alguém estava a ser esmagado, alguém caíra num buraco, e ela podia assistir de cima, aquecida por aquela pequena vitória.

— O João vem já — anunciou Maria, guardando o telemóvel. — E vamos conversar com ele. Uma conversa séria. Porque isto assim não pode continuar.

— Mas quem é que a senhora pensa que é?! — Ana sentiu alguma coisa estalar-lhe por dentro. — Esta é a minha casa. A minha família. Com que direito…

— Direito?! — Maria inchou de indignação. — Tenho o direito de proteger a minha irmã! E tu… tu, afinal, és quem? Apenas a mulher dele. Vieste com facilidade e, se for preciso, vais embora com a mesma facilidade.

— A mãe tem razão — concordou Rita, lambendo os dedos. — Nem se percebe porque é que achas que mandas aqui. A casa é do João. E a mãe também é dele.

Ana deixou-se cair numa cadeira. Já não tinha forças para discutir. Para quê? Elas já tinham decidido tudo. A sentença estava dada, e nenhuma palavra sua iria mudar fosse o que fosse.

Lá fora, o inverno continuava, impiedoso e gelado. A neve caía sem tréguas, cobrindo pátios, carros, bancos de jardim. O mundo tornava-se branco, limpo, quase silencioso. Mas dentro daquele apartamento reinava outra cor. Um cinzento pesado. Escuro.

A porta bateu com força. João tinha chegado.

Ana ergueu os olhos e cruzou-se com o olhar dele. Não encontrou ali dúvida nenhuma. Ele já a tinha condenado.

João tirou o casaco sem dirigir uma palavra à mulher e avançou diretamente para a mãe. Inclinou-se sobre ela.

— Como estás, mãe?

— Mal, meu filho… — gemeu Catarina. — Muito mal… Ela não me dá comida… nem água…

— O quê?! — Ana saltou da cadeira. — Isso é absurdo! Ainda ontem lhe fiz caldo de carne!

— Caldo de carne? — Maria soltou um riso de desprezo. — De cubo, aposto. Só químicos. Uma pessoa doente não pode comer essas porcarias.

— João, tu sabes… — Ana tentou aproximar-se, mas o marido travou-a apenas com o olhar. Frio. Distante. Como se ela fosse uma estranha.

— Sei — respondeu ele devagar. — Sei que, ultimamente, estás diferente. Tornaste-te agressiva. Não me ouves. E ontem gritaste comigo como nunca.

— Eu não gritei! Eu só disse a verdade!

— Verdade? — João endireitou-se e virou-se de frente para ela.

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