Quando avançou com o divórcio, o ex-marido julgou que conseguiria deixá-la sem casa e sem dinheiro — mas não contava com o que vinha a seguir
Ana já levava perto de dez minutos a passar o pano pelas mesmas chávenas. Limpava-as sem as ver. Os pensamentos atropelavam-se-lhe na cabeça e os dedos tremiam-lhe tanto que, por duas vezes, quase deixou cair a porcelana. A voz de João continuava a ecoar-lhe nos ouvidos:
“Entreguei os papéis do divórcio. A casa fica comigo, tal como o dinheiro. Tu sabes perfeitamente: está tudo em meu nome.”
Trinta e dois anos de casamento. Trinta e dois. E, afinal, bastara uma frase para apagar tudo. Nem sequer tivera a decência de o dizer sentado à mesa, durante uma conversa séria. Largara a notícia como quem comenta o tempo, enquanto arrumava documentos na pasta.
O telemóvel vibrou sobre a bancada. Era o filho.

— Mãe? Como estás? — A voz de Miguel vinha carregada de preocupação.
— Estou bem — respondeu Ana, engolindo a dor que lhe apertava a garganta. — Está tudo controlado.
— O pai telefonou-me. É verdade?
— É.
— Meu Deus, mãe… como consegues falar assim? Ele… ele quer divorciar-se de ti!
— E o que queres que eu faça, Miguel? Que grite? Que faça uma cena?
Ana pousou a chávena na prateleira. Durante trinta e dois anos, organizara-as por tamanho. João gostava de tudo impecável, no sítio certo.
— Ele disse que a casa e as contas são dele — acrescentou ela, quase num sussurro.
— O quê?! Mas como é que ele se atreve? Vocês construíram tudo juntos!
— Juntos… — Ana deixou escapar um sorriso amargo. — Só que, no papel, está tudo em nome dele.
A campainha tocou. À porta estava Maria, a vizinha, a única amiga que nunca se afastara, apesar da vida fechada e controladora que João sempre impusera à casa.
— Ana! — Maria abraçou-a com força, sem pedir licença. — Já toda a gente sabe. Que homem é esse, meu Deus?
— Como é que souberam? — foi tudo o que Ana conseguiu perguntar.
— A Joana, do segundo prédio, viu-o com uma mulher mais nova. Estavam a visitar um apartamento novo. E ele disse-lhe, sem vergonha nenhuma: “Depois do divórcio, vimo-nos para aqui.”
Ana teve de se apoiar na parede. Qualquer coisa dentro dela pareceu estalar.
— Então ele… tem outra pessoa?
— Tu não sabias? — Maria levou a mão à boca, arrependida. — Ai, Ana, desculpa… eu pensei…
Nessa noite, Ana não conseguiu dormir. Sentou-se na sala e foi abrindo álbuns antigos. Ali estava o dia do casamento: ela, num vestido branco simples, com o rosto iluminado. Depois, as primeiras férias, o mar, o sol, a alegria despreocupada. Miguel ainda pequeno, a rir-se com as mãos cheias de areia. Dos últimos cinco anos, porém, quase não havia fotografias dos dois. Apenas João, sozinho, em conferências, apresentações, viagens de trabalho.
De manhã, percebeu que o cofre do escritório dele ficara aberto. João levara todos os documentos. Até os papéis da casa, aquela casa que tinham erguido em conjunto. Ana ainda se lembrava de carregar tijolos, de escolher o papel de parede, de entregar o ordenado de professora para ajudar nas despesas da obra.
— Não posso baixar os braços assim — disse ao próprio reflexo no espelho.
O escritório da advogada era fresco, silencioso, e cheirava a café acabado de fazer.
— Chamo-me Helena — apresentou-se a mulher, indicando-lhe uma cadeira. — Conte-me tudo desde o início.
Ana falou aos soluços, interrompendo-se muitas vezes. As palavras saíam-lhe com dificuldade.
— Eu sempre achei que… éramos uma família… Nunca dei importância aos papéis…
— Muitas mulheres fazem o mesmo — disse Helena, com um aceno compreensivo. — Mas há uma coisa importante a seu favor. Mesmo que os bens estejam registados apenas em nome do seu marido, aquilo que foi adquirido durante o casamento pertence, em princípio, aos dois. A divisão faz-se em partes iguais.
— A sério? — Ana ergueu a cabeça, como se só então tivesse voltado a respirar. — Mas ele garante que…
— E que havia ele de garantir? — A advogada sorriu levemente. — Claro que diz que é tudo dele. É o discurso habitual. Tem algum documento? Faturas? Recibos? Declarações assinadas?
Ao regressar a casa, Ana remexeu gavetas, armários e caixas antigas. Numa caixa esquecida encontrou faturas de materiais comprados para a construção da casa. Mais abaixo, descobriu também várias declarações assinadas por João, de quando ele lhe “pedia emprestado” dinheiro para investir no negócio. Guardara tudo, sem saber bem porquê. Talvez por vício de professora: arquivar, datar, conservar provas.
O telefone voltou a tocar.
— Que andas tu a fazer? — A voz de João vinha cortante como gelo. — Foste a correr meter uma advogada nisto?
— Como é que sabes…?
— Isso agora não interessa. Ouve, Ana — o tom dele tornou-se subitamente mais macio. — Para quê esta guerra? Vamos separar-nos de forma civilizada. Eu deixo-te algum dinheiro para os primeiros tempos.
— Algum dinheiro? — Ana apertou o telemóvel com tanta força que os dedos lhe ficaram brancos. — E a metade da casa? E o nosso negócio comum?
