— Nosso? — João soltou uma gargalhada curta, carregada de desprezo. — De que negócio estás tu a falar? És uma professora reformada. Que negócio é que terias tu?
— Também investi dinheiro nele. E tenho recibos assinados.
— Recibos? — Pela primeira vez, a voz dele vacilou. — Não sejas ridícula. Isso foram prendas.
— Então talvez seja melhor explicarmos isso perante um juiz — respondeu Ana, surpreendendo-se com a firmeza da própria voz. E desligou.
Ficou imóvel, com o telemóvel ainda na mão. O coração batia-lhe desordenado, como se quisesse saltar-lhe do peito. Nunca lhe tinha falado daquela maneira. Durante anos, calara-se. Cedia, recuava, engolia respostas. Trinta e dois anos a baixar a cabeça. E agora…
— Fui mesmo capaz? — murmurou.
E, pela primeira vez em vários dias, um sorriso pequeno apareceu-lhe nos lábios.
As semanas seguintes passaram como se estivessem envoltas em nevoeiro. Ana juntava papéis, procurava comprovativos antigos, reunia-se com a advogada e aprendia palavras jurídicas que até então lhe tinham parecido pertencer a outro mundo. Na escola superior pediu uns dias de licença; não conseguia concentrar-se nas aulas nem nas reuniões.
— Ana, estás cada vez mais magra — observou Carolina, uma colega, ao vê-la no gabinete. — Come qualquer coisa, mulher.
— Não tenho tempo — respondeu Ana, afastando o conselho com um gesto cansado. — Tenho de organizar documentos.
Carolina aproximou-se, baixando a voz.
— Ouve… e esse homem… não te tem ameaçado?
— Por enquanto, só pelo telefone — Ana torceu a boca num sorriso amargo. — Liga-me a toda a hora e diz: “Ganha juízo.” Como se a louca fosse eu, percebes?
Nessa noite, foi o filho quem lhe telefonou.
— Mãe, ele está a dar cabo de mim — disse Miguel, com a voz exausta. — Telefona-me todos os dias para eu te convencer.
— E tu o que lhe dizes?
— O que hei de dizer? Que isso é entre vocês. Ficou furioso.
Ana suspirou. Miguel sempre se mantivera afastado dos conflitos entre ela e João. Talvez tivesse sido melhor assim. Talvez fosse a única forma de ele não ter sido esmagado por aquela casa cheia de silêncios.
— E tu, mãe? Como estás a aguentar?
— Vou aguentando — respondeu ela, engolindo em seco. — Sabes, encontrei fotografias antigas. Da construção da casa. Lembras-te? Ainda eras pequeno.
— Claro que lembro! Carreguei tijolos! — Miguel riu-se ao telefone. — O pai só ficava ali a mandar.
— Pois ficava. E o dinheiro saía do meu ordenado.
— Como assim?
— Assim mesmo. O meu salário de professora foi quase todo para materiais de construção. Ainda tenho os talões guardados.
— A sério? Ele sempre disse que tinha feito tudo sozinho…
O telemóvel emitiu um sinal: chamada recebida de João. Ana recusou.
— É ele outra vez. Agora liga todos os dias.
— Não atendas.
— Não atendo. Mas apareceu cá.
No dia anterior, João surgira de repente à porta. Estava parado no patamar, com aquele olhar pesado que, antes, bastava para a fazer calar. Durante muitos anos resultara. Agora, já não.
— Dá-me os recibos — exigira ele.
— Não.
— Ana, estás a brincar com o fogo.
— Tu é que brincaste, João. Comigo. Durante trinta e dois anos.
Ele batera a porta de entrada com tanta força que um pedaço de estuque se desprendera da parede.
E naquele dia apareceu ela. Jovem, impecavelmente arranjada, rosto brilhante e olhar insolente.
— Sou a Sofia — apresentou-se, sem rodeios. — Temos de conversar.
— Sobre o quê? — Ana cruzou os braços.
— Sobre o João. Ele está a sofrer. Vocês vão separar-se de qualquer maneira. Para quê este espetáculo todo?
— Espetáculo?
— Essas… exigências. A casa, o dinheiro…
— O meu dinheiro — corrigiu Ana.
Sofia revirou os olhos.
— O seu dinheiro? Por favor. O João é que trabalhava nos negócios, a senhora apenas…
— Apenas o quê?
A rapariga hesitou por uma fração de segundo.
— Bem… cuidava da casa.
— Dou aulas há trinta anos.
— Isso não interessa! — atalhou Sofia, impaciente. — Eu e o João amamo-nos. A senhora devia…
— Que idade tem, Sofia?
— Vinte e sete — respondeu ela, de queixo erguido.
Ana observou-a por instantes. A pele lisa, a arrogância frágil, a certeza absoluta de quem ainda nunca perdera nada de verdade.
— Aos vinte e sete, eu também achava que a vida era simples — disse, por fim. — Diga ao João que o espero em tribunal.
Depois de Sofia sair, Ana permaneceu muito tempo diante do espelho. As rugas estavam lá. Os fios brancos também. Não, ela não podia competir com aquela rapariga. Mas a questão nunca fora essa.
— Não estou a lutar pela juventude — disse ao reflexo cansado que a encarava. — Estou a lutar pelo que é justo.
Ao fim da tarde, recebeu uma chamada de Helena.
— Ana, os documentos estão prontos. Amanhã apresentamos a ação.
— Já?
— Para quê adiar? A nossa posição é bastante sólida. A propósito, o seu ex-marido ligou-me.
— E que queria ele?
— Ameaçar-me — respondeu a advogada, com uma ponta de ironia tranquila. — Mas não sou pessoa que se assuste facilmente. Está preparada para a audiência?
Ana fechou os olhos por um momento.
— Não — admitiu, com honestidade. — Mas não tenho escolha.
