“Ficaste surda, foi?! Estou a dizer-te: casamento! Aqui em casa! Daqui a um mês!” exclamou João, enquanto Ana baixava a tampa do portátil

Histórias
A decisão familiar soa injusta, sufocante e cruel.

— Ficaste surda, foi?! Estou a dizer-te: casamento! Aqui em casa! Daqui a um mês! — João permanecia à entrada da sala, ainda de casaco vestido e com sacos nas mãos, olhando para a mulher como se tivesse acabado de anunciar a coisa mais óbvia do mundo. — A Maria vai casar-se, e nós vamos ajudá-la. Está decidido.

Ana não levantou logo os olhos do portátil. Estava encolhida no sofá, com as pernas dobradas debaixo do corpo, e o dedo pairava sobre o botão “Enviar”. O contrato de arrendamento do novo apartamento, na Rua do Rio, já estava preenchido, validado com assinatura digital, à espera apenas de um gesto.

Um único gesto.

Ela baixou a tampa do computador.

— Olá — respondeu, sem alterar a voz.

João foi até à cozinha. Os sacos caíram sobre a mesa com estrondo; frascos e latas tilintaram lá dentro. Pouco depois regressou à sala, já sem o casaco, esfregando as mãos com o ar satisfeito de quem acabara de resolver um problema mundial.

— Então? Ouviste o que eu disse?

— Ouvi. — Ana pousou o portátil com cuidado na mesa de centro. — Explica-me melhor.

Maria, a irmã mais nova de João, pertencia àquela espécie de pessoas que, ao entrarem numa divisão, pareciam diminuir imediatamente o espaço à volta. Tinha vinte e oito anos, uma voz firme, quase de apresentadora de telejornal, e um olhar sempre meio estreitado. Não pedia nada; comunicava decisões. E, por algum motivo, todos acabavam por aceitar. Até Ana, que em sete anos de casamento já decorara aquela família de ponta a ponta: cada mania, cada silêncio, cada intenção escondida por trás de uma frase banal.

O noivo, um tal Pedro, surgira na vida de Maria oito meses antes. Num jantar de família, em fevereiro, sentara-se calado, quase não tocara na comida, mas observara o apartamento com uma atenção excessiva. Na altura, Ana atribuíra aquilo à timidez. Mais tarde, pensara que talvez não fosse só isso.

— Eles querem uma festa pequena — explicou João, andando de um lado para o outro na sala. — Umas quarenta pessoas. Restaurante fica caro, alugar uma sala também. E o nosso apartamento é grande. Dá para encostar móveis, pôr mesas, ligar música…

— Quarenta pessoas — repetiu Ana.

— Talvez um bocadinho mais. A Maria disse “mais ou menos”.

— E “mais ou menos” quer dizer quantas?

João parou.

— Ana, é a minha irmã. É uma vez na vida.

Ela olhou para ele. Depois para o portátil. Depois novamente para o marido.

Dentro dela, alguma coisa, calma e nítida, disse: é isto.

No dia seguinte, Maria apareceu pessoalmente, sem avisar, como de costume, como se a casa dos outros fosse um corredor público. Trazia uma pasta cheia de impressões. Ana abriu a porta e viu primeiro a pasta; só depois reparou no rosto.

— Já organizei tudo — anunciou Maria, em vez de cumprimentar, e entrou diretamente para a sala.

Pedro ficou à entrada. Sorriu a Ana com uma cortesia demasiado cuidada, daquelas que se vestem como um sobretudo: aquece, mas não pertence a ninguém.

— Entrem — disse Ana.

Sentaram-se à mesa. Maria abriu a pasta. Lá dentro havia imagens retiradas do Pinterest, listas de pratos, esquemas de disposição de mesas — tudo aplicado a um apartamento alheio, onde ela nunca vivera.

— Aqui — disse, apontando para um desenho — tiramos o sofá e metemos três mesas de seis lugares. Deste lado fica o bar; dá para alugar um balcão. Aqui está a lista do catering, já escolhi a empresa, eles trazem a loiça…

Ana escutava. Acenava com a cabeça. De vez em quando fazia uma pergunta, sempre num tom sereno, quase afável. E quanto mais ouvia, mais evidente se tornava uma coisa: ela não estava presente naquela conversa. Naqueles planos, naqueles esquemas, naquela pasta, Ana simplesmente não existia. Existia o apartamento. Existiam metros quadrados. Existiam tomadas onde se podiam ligar grinaldas de luz.

Pedro quase não abriu a boca. Ficou sentado, de olhos no telemóvel, levantando a cabeça apenas de tempos a tempos para assentir brevemente, como quem confirmava que sim, seria exatamente assim.

— E o orçamento? — perguntou Ana por fim.

Maria pestanejou.

— Bem… eu e o João combinámos dividir as despesas a meio.

— O João não combinou nada comigo — respondeu Ana, com uma tranquilidade impecável.

O silêncio que se seguiu foi breve. Maria trocou um olhar com Pedro, rápido, quase impercetível. Mas Ana viu.

— Somos família — disse Maria, usando a palavra como se ela encerrasse qualquer discussão.

Nessa noite, Ana voltou a abrir o portátil.

O contrato continuava ali, à espera. O apartamento da Rua do Rio era um T2 luminoso, num quarto andar, virado para um pequeno parque, com tetos altos e vizinhos que ela ainda não conhecia. Procurara-o durante três meses. Não contara nada a João — não por querer esconder, mas porque ainda não tinha decidido. Ainda se agarrava à ideia de que talvez as coisas melhorassem. Talvez estivesse a exagerar.

Agora já não ponderava.

O dedo pousou no touchpad.

Nesse preciso instante, ouviu-se a voz de João no corredor. Falava ao telefone. Ria. Conversava com um amigo sobre o casamento, leve e animado, como se aquilo fosse uma celebração e não uma tarefa alheia despejada para dentro da vida de outra pessoa.

Ana afastou o dedo.

Fechou o portátil.

Levantou-se, foi à cozinha e serviu um copo de água. Depois ficou junto à janela. Lá em baixo, uma mulher empurrava um carrinho de bebé, dois adolescentes passavam de trotinete, e um pombo, pousado na cornija do prédio em frente, tinha o ar grave de quem também ponderava tudo.

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