“Ficaste surda, foi?! Estou a dizer-te: casamento! Aqui em casa! Daqui a um mês!” exclamou João, enquanto Ana baixava a tampa do portátil

Histórias
A decisão familiar soa injusta, sufocante e cruel.

Um mês, pensou Ana. Tinha um mês. Só isso.

Ainda não fazia ideia de que Pedro tinha dívidas. Nem de que a empresa de catering indicada na pasta de Maria pertencia ao primo dele. Muito menos de que aqueles “cerca de quarenta convidados” eram, na verdade, sessenta e dois.

Mas viria a descobrir. E depressa.

Tudo começou com uma folha de cálculo.

Maria enviou-a no domingo de manhã, às sete e quarenta e cinco, hora a que qualquer pessoa sensata ainda estaria a dormir. O ficheiro chamava-se “Orçamento do casamento” e vinha organizado ao detalhe: flores, catering, aluguer de equipamento, decoração, fotógrafo. No fim, destacada, aparecia a soma total — três mil e oitocentos euros. E, mesmo ao lado, numa coluna já preenchida, lia-se: “João e Ana — 50%”.

Mil e novecentos euros.

Sentada na cozinha, com a chávena de café entre as mãos, Ana ficou a olhar para o ecrã do telemóvel. Do outro lado da parede, João ainda dormia. Ela acabou o café sem pressa, deixou a chávena no lava-loiça, voltou ao quarto e vestiu-se com cuidado, evitando fazer barulho. Depois saiu.

Precisava de pensar sem vozes à volta. Sem explicações. Sem pressões disfarçadas de família.

Foi a pé até à zona ribeirinha. Havia pouca gente: alguns corredores, um homem reformado a passear o cão, duas bicicletas que passaram sem pressa. Ana caminhava devagar, com os olhos pousados na água, mas não era no dinheiro que pensava. O dinheiro era apenas a consequência. O que a prendia era o mecanismo inteiro, a forma como aquilo vinha funcionando havia sete anos: primeiro um favor pequeno, depois outro um pouco maior, depois a ideia de que ela simplesmente tinha de aceitar. E, algures pelo caminho, Ana deixara de ser uma pessoa dentro daquela história.

Passara a ser um recurso.

Um recurso calado, disponível, conveniente.

Por volta das dez, regressou a casa. João já estava na cozinha, sentado à mesa, a beber chá enquanto deslizava o dedo pelo telemóvel.

— Viste a folha? — perguntou ele, sem erguer os olhos.

— Vi.

— E então? A Maria esteve bem, não esteve? Pôs tudo direitinho.

— Pôs tudo com muito detalhe — respondeu Ana.

Serviu-se de água, sentou-se à frente dele e pousou o copo na mesa.

— João, nós não vamos pagar mil e novecentos euros.

Ele levantou finalmente a cabeça. Olhou para ela como se Ana tivesse acabado de falar numa língua que ele não conhecia.

— É o casamento dela. É uma vez na vida.

— Essa parte da “uma vez na vida” já ouvi. Agora ouve-me tu. — Ana apoiou as mãos sobre a mesa, sem dramatismo, sem levantar a voz. — Eu não sou patrocinadora de festas alheias. Se quiseres oferecer dinheiro à tua irmã, oferece da tua parte. Do orçamento comum, não.

João ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois falou devagar, carregando nas palavras:

— Tens noção de como isto vai parecer? Do que as pessoas vão dizer?

— Que pessoas, João?

Ele não respondeu. Levantou-se e saiu para o corredor. Um minuto depois, Ana ouviu-lhe a voz, baixa, ao telefone. Estava a ligar a Maria.

Maria apareceu depois do almoço. Desta vez não trazia a pasta, mas vinha com a expressão fechada de quem se preparara para uma reunião decisiva. Pedro ficou novamente na entrada, encostado, com o telemóvel na mão, fingindo que não fazia parte da conversa.

— Ana — começou Maria, instalando-se no sofá com o ar de quem tinha um discurso ensaiado —, eu percebo que o valor assuste. Mas, se fores ver bem, isto já é o mínimo. Cortámos tudo o que dava para cortar.

— Eu vi a folha — disse Ana.

— Então sabes que não há como baixar mais. O catering está praticamente combinado, o fotógrafo também…

— Maria, espera um instante. — Ana interrompeu-a com suavidade, mas de um modo que a fez calar-se. — Quero só confirmar uma coisa. A empresa de catering é a “Sabor e Forma”, certo?

Maria endureceu ligeiramente.

— Sim… é.

— O dono é o Carlos Costa. Primo do Pedro, não é?

O silêncio que se seguiu pareceu alongar-se pela sala inteira. No corredor, Pedro deixou de olhar para o telemóvel.

— Como é que tu… — começou Maria.

— Fui verificar — respondeu Ana, simplesmente. — Antes de gastar mil e novecentos euros, gosto de saber para onde vai o dinheiro. Parece-me razoável. E já agora, também comparei preços. Um serviço semelhante, para sessenta pessoas, custa metade em pelo menos três outras empresas.

— Escolhemos esta porque confiamos neles — disse Maria, e a voz ganhou uma ponta dura.

— Eu compreendo. Mas eu não confio. — Ana levantou-se, foi até à janela e voltou-se para eles. — Estou disposta a ajudar na organização. Posso dar tempo, energia, tratar de contactos, coordenar coisas. Dinheiro, não. Nem mil e novecentos, nem novecentos, nem cinquenta. E convém não esquecerem que fazer a festa na nossa casa já é, por si só, uma oferta.

Maria virou o rosto para o irmão. João tinha os olhos fixos na mesa.

— João — chamou ela.

Ele não disse nada.

— João, diz-lhe alguma coisa.

— Ana, talvez pudéssemos… sei lá, ajudar com uma parte… — arriscou ele, sem olhar para a mulher.

— Não — disse Ana.

Foi apenas uma palavra. Sem raiva, sem grito, sem tremor. Mas fechou a conversa como uma porta trancada.

Maria foi-se embora vinte minutos depois. Vestiu o casaco em silêncio, fez um aceno breve ao irmão e passou por Ana sem a encarar. Pedro saiu atrás dela, discreto como sempre, ainda com o telemóvel na mão. Já à porta, porém, voltou-se e olhou para Ana com atenção, de um modo frio e avaliador, como se só naquele instante a estivesse a ver de verdade.

Era um olhar desagradável. Um olhar de estudo.

Ana fechou a porta.

João ficou parado no corredor, com a expressão de quem via um plano sair dos eixos.

Casa da Encarnação